ANGOLA, UM PAÍS COM FÉ MAS SEM INFLUÊNCIA NO VATICANO

Num momento em que o Papa Leão XIV encerra a sua visita histórica a Angola, o país enfrenta um facto incómodo, quase constrangedor: não tem actualmente nenhum Cardeal no activo. E pior — a passagem do líder máximo da Igreja Católica pelo território nacional terminou sem qualquer anúncio, nem sequer uma palavra pública de preocupação sobre essa ausência.

Por Geraldo José Letras

A história é curta e reveladora. Angola teve apenas dois cardeais: Alexandre do Nascimento — o primeiro e único angolano de origem a atingir a púrpura cardinalícia, criado em 1983 pelo Papa João Paulo II e Eugenio Dal Corso — italiano radicado em Angola, nomeado cardeal em 2019 pelo Papa Francisco. Ambos já faleceram em 2024, deixando o país sem qualquer representante no Colégio Cardinalício.

O caso de Alexandre do Nascimento é particularmente simbólico: foi durante décadas o único rosto angolano no núcleo de poder da Igreja universal, uma figura de influência espiritual, social e até política.

Hoje, Angola — um dos países com maior tradição cristã ao sul do Sahara — está completamente ausente desse círculo.

Um cardeal não é apenas um título honorífico. Trata-se de um dos cargos mais altos da Igreja Católica, com funções estratégicas: aconselhar directamente o Papa no governo da Igreja, participar no conclave que elege um novo Papa, influenciar decisões globais religiosas e diplomáticas. Ou seja, não ter cardeal é não ter voz nos centros de decisão da Igreja mundial.

Num contexto em que África ganha cada vez mais peso no catolicismo global, a exclusão de Angola torna-se ainda mais gritante. Outros países africanos mantêm representação activa no Colégio Cardinalício, participando inclusive na escolha doe um próximo Papa.

A contradição é evidente: Angola possui uma das mais antigas tradições cristãs da África subsaariana, com raízes que remontam ao século XV. Ainda assim, permanece sem cardeal. Este vazio tem impactos concretos:

Perda de influência diplomática no Vaticano, menor capacidade de defesa dos interesses da Igreja angolana, redução do protagonismo internacional do país no mundo religioso, desvalorização simbólica dos fiéis angolanos. Na prática, Angola tornou-se espectadora num espaço onde antes tinha voz.

A visita do Papa Leão XIV gerou expectativas elevadas. Antes mesmo da sua chegada, líderes da Igreja em Angola expressaram publicamente o desejo de ver nomeado um novo cardeal angolano.

Durante a estadia, o Papa participou em missas multitudinárias, encontros com autoridades, visitas pastorais e mensagens de encorajamento social. Contudo, o tema do cardeal foi simplesmente ignorado no plano público. Nem anúncio. Nem sinal. Nem sequer uma declaração simbólica. Um silêncio que incomoda os fiéis mais atentos ao cenário pastoral e diplomático da Igreja Católica em Angola, ao destacar para o cargo nomes e lideranças como: Filomeno Vieira Dias, Arcebispo de Luanda; José Manuel Imbamba, Arcebispo de Saurimo, na Lunda Sul e Gabriel Mbilingi, Arcebispo do Lubango, na província da Huíla. Além de Belmiro Cuica Chissengueti, Bispo de Cabinda e porta-voz da CEAST (Conferência Episcopal de Angola e São Tomé).

Angola tem dimensão, história e voz espiritual suficiente para merecer essa representação ao mais alto nível da Igreja. A ausência de qualquer posicionamento do Papa sobre o assunto levanta questões incómodas: Angola não é prioridade para o Vaticano? Falta peso político da Igreja angolana? Ou se trata de uma decisão deliberada de marginalização? Independentemente da resposta, o resultado é o mesmo: um país inteiro relegado à periferia do poder eclesiástico.

Num país onde milhões de fiéis depositam esperança na Igreja, a falta de um cardeal não é apenas um detalhe institucional — é um sinal de invisibilidade.

A visita papal poderia ter corrigido esse vazio histórico. Mas terminou como começou: com promessas espirituais e um silêncio ensurdecedor sobre representação.

Foto: Alexandre do Nascimento e Eugenio Dal Corso

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