BARRIGA CHEIA INSPIRA A… COMER MAIS

Os bispos católicos angolanos manifestaram-se preocupados (quem diria não é senhores prelados?) com o agravamento da pobreza em Angola (o reino que o MPLA gere há 50 anos “só” tem 20 milhões de pobres), reconhecendo “buracos sociais, familiares e institucionais muito profundos” que devem despertar o país para “urgente transformação”.

Por Orlando Castro

D. José Manuel Imbamba, afirma que “não podemos fechar os olhos à realidade do nosso país, marcada ao mesmo tempo por avanços significativos e recuos assustadores. No meio de tantas coisas boas e dignas de aplausos que temos vindo a fazer, assistimos, todavia, com preocupação, à persistência e ao agravamento da pobreza das famílias angolanas, um flagelo que atinge a dignidade de muitos dos nossos concidadãos”.

Para o arcebispo angolano, a pobreza em Angola, “infelizmente, não é apenas material”, mas “é também, e sobretudo, social, política, cívica, cultural e espiritual, minando a confiança nas instituições e no futuro”. Por culpa de quem? João Lourenço garante que o “MPLA fez mais em 50 anos do que os portugueses em 500”…

José Manuel Imbamba referiu que a sociedade angolana, maioritariamente jovem, é marcada por um “acentuado estado de ansiedade, medo, incerteza e frustração”.

Assinalou também que a situação deriva da falta de emprego, de iguais oportunidades e das assimetrias abismais que se registam em Angola. Isto porque, recordamos nós, o MPLA fez com que Angola, um país rico, em vez de produzir riqueza tenha produzido milionários.

“A instabilidade social e a falta de perspectivas para os jovens têm gerado um sentimento de desesperança e irreverência”, salientou o religioso, salientando os tais “buracos sociais, familiares e institucionais muito profundos”.

“Tudo isso deve despertar-nos e empenhar urgentemente na transformação interior, para que o diálogo entre os governantes e governados seja mais frequente, justo e frutuoso, evitando o uso exagerado e desproporcional da força”, apelou.

José Manuel Imbamba (condecorado por João Lourenço com a medalha Paz e Desenvolvimento) recordou a urgência de mudar atitudes e mentalidades.

“Não basta mudar e renovar as estruturas, é preciso mudar, sobretudo, o coração e a mente das pessoas (…). Daí, o exame de consciência nacional que se impõe enquanto famílias, governantes, legisladores, magistrados, políticos, jornalistas, funcionários, intelectuais, religiosos e cidadãos”, notou.

Segundo o prelado, com toda a exuberância do mosaico cultura que os seus filhos e filhas ostentam, “merece este compromisso co-responsável” que implica a incorporação contínua, corajosa e dedicada de atitudes transformadoras, motivadoras e enriquecedoras.

No seu olhar sobre a realidade sociopolítica e económica do país, o também arcebispo de Saurimo apelou à instauração, em Angola, de uma nova cultura social e política, baseada na ética, na solidariedade efectiva e na responsabilidade partilhada.

Observou, contudo, que, para isso, são necessárias “reformas profundas no aparelho do Estado, que deve estar exclusivamente ao serviço da cidadania e da prossecução do bem comum para a felicidade e dignificação de todos”.

“É nosso dever apelar e educar para a cultura da paz, da justiça, da reconciliação e da tolerância. As soluções não virão de fora, mas de um compromisso sério de todos nós, enquanto angolanos”, concluiu.

O ORGASMO DOS CANIBAIS

Recorde-se que, em Julho de 2008, os líderes das oito economias mais industrializadas do mundo (G8), reunidos no Japão numa cimeira sobre a fome, causaram espanto e repúdio na opinião pública internacional, após ter sido divulgada aos órgãos de comunicação social a ementa dos seus almoços de trabalho e jantares de gala.

Reunidos sob signo dos altos preços dos bens alimentares nos países desenvolvidos – e consequente apelo à poupança -, bem como da escassez de comida nos países mais pobres, os chefes de Estado e de Governo não se inibiram de experimentar 24 pratos, incluindo entradas e sobremesas, num jantar que terá custado, por cabeça, a módica quantia de 300 euros.

Trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba e uma selecção de queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas eram apenas alguns dos pratos à disposição dos líderes mundiais, que acompanharam a refeição da noite com cinco vinhos diferentes, entre os quais um Château-Grillet 2005, que estava avaliado em casas da especialidade online a cerca de 70 euros cada garrafa.

Não faltou também caviar legítimo com champanhe, salmão fumado, bifes de vaca de Quioto e espargos brancos. Nas refeições estiveram envolvidos 25 chefs japoneses e estrangeiros, entre os quais alguns galardoados com as afamadas três estrelas do Guia Michelin.

Segundo a imprensa britânica, o “decoro” dos líderes do G8 – ou, no mínimo, dos anfitriões japoneses – impediu-os de convidar para o jantar alguns dos participantes nas reuniões sobre as questões alimentares, como foram os representantes da Etiópia, Tanzânia ou Senegal.

Os jornais e as televisões inglesas estiveram na linha da frente da divulgação do serviço de mesa e das reacções concomitantes. Dominic Nutt, da organização Britain Save the Children, citado por várias órgãos online, referiu que “é bastante hipócrita que os líderes do G8 não tenham resistido a um festim destes numa altura em que existe uma crise alimentar e milhões de pessoas não conseguem sequer uma refeição decente por dia”.

Para Andrew Mitchell, do governo-sombra conservador, “é irracional que cada um destes líderes tenha dado a garantia de que vão ajudar os mais pobres e depois façam isto”.

A referida cimeira do G8, realizada no Japão, custou um total de 358 milhões de euros, o suficiente para comprar 100 milhões de mosquiteiros que ajudam a impedir a propagação da malária em África ou quatro milhões de doentes com Sida. Só o centro de imprensa, construído propositadamente para o evento, custou 30 milhões de euros.

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