MILHÕES SEM ROSTO E PROMESSAS EM RUÍNAS NO CUANZA NORTE

A província do Cuanza Norte continua a ser um retrato gritante de contradições: sucessivos orçamentos milionários disponibilizados pelo Ministério das Finanças desde 2013 e, em contrapartida, um cenário persistente de obras inacabadas, abandonadas e promessas que nunca saem do papel, nomeadamente a Marginal do Dondo, Hospital Municipal de Cambambe, Projecto Habitacional das Três mil Residências no bairro 11 de Novembro, além da requalificação urbanística das periferias do Cazengo.

Por Geraldo José Letras

Sob a liderança do governador João Diogo Gaspar, a província permanece entre as mais atrasadas do país — uma realidade que contrasta com os discursos oficiais e com a imagem cuidadosamente construída nos meios de comunicação públicos.

Apesar dos sucessivos orçamentos milionários disponibilizados pelo Ministério das Finanças, sob orientação do Presidente da República, João Lourenço, os resultados no terreno são, no mínimo, decepcionantes. Fora das câmaras da TPA, TV Zimbo e outras plataformas alinhadas com a narrativa institucional do regime, o que se vê é uma população confrontada com desemprego, fome e falta de serviços básicos.

Entre os exemplos mais gritantes está o Projecto Habitacional das Três mil Residências no bairro 11 de Novembro, em Ndalatando, que permanece paralisado, simbolizando o fracasso de políticas públicas que deveriam garantir dignidade às famílias. No município de Cambambe, o hospital municipal — cuja construção remonta a 2013 — já consumiu quatro orçamentos distintos, mas continua sem servir a população.

A lista de promessas incumpridas inclui ainda a Marginal do Dondo, a requalificação urbanística das periferias do Cazengo e vários outros projectos sociais que, se concluídos, poderiam mitigar o desemprego e melhorar as condições de vida. Em vez disso, tornaram-se monumentos ao desperdício e à falta de responsabilização.

Dados oficiais revelam que, dos 29 projectos enquadrados no Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), 16 estão paralisados. A informação foi recentemente confirmada por Rafael Domingos, responsável do Gabinete de Estatística e Planeamento do Governo Provincial, que aponta razões financeiras e incumprimento contratual por parte de empreiteiros.

Entre as obras paradas estão 14 escolas, um hospital, uma maternidade e parte significativa de projectos habitacionais. Num país onde o acesso à educação e à saúde já é limitado, a paralisação dessas infra-estruturas agrava ainda mais as desigualdades.

A situação é tão crítica que uma equipa multissetorial do governo central foi enviada à província para avaliar os bloqueios. Segundo Ludgero Neto, do Ministério da Administração do Território, há processos legais em curso envolvendo mais de dez empresas sob investigação por abandono injustificado das obras — um sinal claro de falhas graves na fiscalização e gestão contratual.

Enquanto eventos mediáticos como maratonas, feiras e celebrações públicas são promovidos como sinais de dinamismo, cresce a percepção de que tais iniciativas servem apenas para distrair a opinião pública. Nos bastidores, persistem denúncias de desvio de recursos e falta de transparência, alimentando a ideia de uma governação mais preocupada com aparência do que com dados concretos.

A narrativa de progresso não resiste ao confronto com a realidade vivida pelas populações locais. A ausência de infra-estruturas básicas e o abandono de projectos estruturantes levantam questões sérias sobre a capacidade de execução e o compromisso da governação provincial.

O caso do Cuanza Norte levanta um debate mais amplo sobre a eficácia do modelo de gestão pública em Angola. Como explicar que, com financiamento disponível e programas estruturados como o PIIM, a execução permaneça tão baixa? Onde estão os mecanismos de controlo e responsabilização?

A permanência de projectos paralisados durante anos, alguns com verbas já desembolsadas, sugere não apenas problemas técnicos ou financeiros, mas uma possível crise de liderança e de compromisso com o interesse público.

Sem mudanças estruturais, maior transparência e responsabilização efectiva dos gestores, o risco é claro: o Cuanza Norte continuará a ser um símbolo de promessas adiadas — e de uma governação que falha em transformar recursos em desenvolvimento real.

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