O momento em que escrevo estas linhas, carrego um misto de tristeza e indignação, ao tomar conhecimento que morrem de fome, autóctones angolanos na Serra do Moco, no Huambo. Porra! Essa verdade revolta. Por ser inadmissível…

Por William Tonet

Aquelas gentes, a nossa gente, campesina, sacha (capina) a terra, faz germinar os vários lombis, para com o pirão de milho, ter uma refeição. Se morre, falta o complemento, proteínas que o Estado poderia curar de fornecer, não em gesto de caridade e tantas vezes de vil propaganda, mas na criação de condições (básicas, simples e elementares) de escoamento dos produtos agrícolas do campo e potenciar financeiramente os camponeses.

Era assim, no passado colonial, desgraçadamente, não é assim no tempo de quem dirige faz 44 anos o regime. Incompetência ou competência, tudo incrimina, quando em cheque a fome mata o cidadão pobre, sem apelido das famílias reinantes e indefeso, por ter cidadania amordaçada.

O Huambo faz parte da minha geografia, desde a meninice, conheço as serras, vales, montanhas, as pradarias e os campos verdejantes. Vi-o crescer como Nova Lisboa, na materialização do sonho de Norton de Matos (José Maria Mendes Ribeiro – 1867-1955), que a transformou no segundo parque industrial de Angola, potenciando a agricultura familiar e indígena. Desenvolveu o ensino e educação, alavancando o Instituto Agrário, berço dos regentes agrícolas, fundamentais para a agricultura.

As famosas 6 horas internacionais de Nova Lisboa, criadas por Armando de Lacerda, internacionalizaram a região, tal como a ascensão de alguns indígenas no negócio, dos cereais, como os mais velhos Karinone, Mbakassi, entre outros.

Porque não conseguem os actuais governantes atingir um item do passado?

Pelo menos devolvam à Caála o estatuto de capital do milho, revitalizando os silos ao longo do Caminho-de-Ferro ou Ekunha, capital da batata, por amor ao próximo, estes próximos, que são 20 milhões de pobres, de boa-fé, para justificação das rezas e idas à igreja.

Se, como dirigentes, vão todos os domingos à casa do Senhor, não o façam apenas como “show-off” televisivo, tenham actos de governação dignos de filhos de Deus, afastando do coração, a ganância desmedida, a avareza, a maldade, em nome do amor ao próximo.

O Huambo, até pelo seu clima, nunca, nunca, de nunca mesmo, viu alguém morrer de fome, quando isso hoje ocorre temos de reconhecer o mérito dos malévolos, responsáveis pela gestão da coisa pública e dos cidadãos. Porra! Tenho vergonha de assistir impávido e sereno a tantos desvarios danosos, dolosos e até criminosos, com nefastas repercussões na vida do pobre.

Talvez tenha chegado a hora de uma maior indignação popular, para o resgate da dignidade aprisionada, por uns poucos que transformam os milhões de autóctones em escravos do século XXI, mesmo gerindo milhões e milhões de dólares públicos, capazes de resgatar o sorriso da maioria.

Morrer de fome. Ser cúmplice destas mortes. Torna-nos menos humanos e os dirigentes mais cruéis e insensíveis… Porra, porque, aqui, no Huambo, onde eu vendi na Praça do Kanhe, não existe a seca do Kunene, mas tendo as mesmas mortes, gerada por igual incompetência, a indiferença é criminosa e deve ser enquadrada como crime hediondo. Que a vossa alma, estimados compatriotas, descanse em PAZ. Um dia, no poiso do gavião, ser-vos-á feita justiça, aqui mesmo, na terra.

Recordemos, nesta hora de raiva e de dor, a bem dos que não têm força mas têm razão, que numa entrevista ao jornal português “O Diabo”, em 21 de Março de 2006, já Dom José de Queirós Alves (arcebispo do Huambo) dizia que “o povo vive miseravelmente enquanto o grupo ligado ao poder vive muito, muito bem”. Assim era e, infelizmente, assim continua.

Nessa mesma entrevista, o arcebispo do Huambo considerou a má distribuição das receitas públicas como uma das causas da “situação social muito vulnerável” que se vive Angola.

Dom Queirós Alves disse então que, “falta transparência aos políticos na gestão dos fundos” e denunciou que “os que têm contacto com o poder e com os grandes negócios vivem bem”, enquanto a grande massa populacional faz parte da “classe dos miseráveis”.

Também Frei João Domingos, por exemplo, afirmou numa homilia em Setembro de 2009, em Angola, que Jesus viveu ao lado do seu povo, encarnando todo o seu sofrimento e dor. E acrescentou que os nossos políticos e governantes só estão preocupados com os seus interesses, das suas famílias e dos seus mais próximos.

“Não nos podemos calar mesmo que nos custe a vida”, disse Frei João Domingos, acrescentando “que muitos governantes que têm grandes carros, numerosas amantes, muita riqueza roubada ao povo, são aparentemente reluzentes mas estão podres por dentro”.

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