Ao que parece, fazendo fé na verdade oficial do regime, continua a ser crime (talvez contra a segurança do Estado) o facto de o Acordo do Alto Kauango (ou Cauango) ter sido mediado, em 1991, por um autóctone angolano, William Tonet. Vinte e nove anos depois da assinatura, o Folha 8 publica a opinião de um dos principais protagonistas, o General Marques Correia “Banza” (foto).

Factos são factos. E um deles, o de ter sido um angolano a mediar pela primeira vez o conflito entre angolanos, deveria ser motivo de regozijo e de reconhecimento interno e externo. Só a mesquinhez e anacronismo de uns tantos pode levar a que se tente, sem sucesso – é certo, apagar esta verdade.

A História escreve-se com a verdade que, mesmo quando bombardeada insistentemente pela mentira, acabará por se sobrepor a todo o género de maquinações e acções de propaganda pessoal ou colectiva. É, por isso, legítimo que se faça pedagogia e formação quando, por razões mesquinhas, alguns tentam apagar o que de bom alguns, muitos, angolanos fizerem pela sua, pela nossa, terra.

E não é por esconder a verdade que ela deixa de existir. Em 1991, a 19 de Maio, foi assinado o acordo do Alto Kauango que foi a “mãe” dos acordos de Bicesse.

Vejamos o testemunho, sobre o assunto, do General Marques Correia “Banza”, 29 anos depois dos acontecimentos.

O General Marques Correia “Banza” é apontado por William Tonet, como peça chave, do cordão de segurança do local onde decorreu a assinatura dos Acordos do Alto Kauango?

Na batalha dos 45 dias no Luena, o Tenente-Coronel Marques Correia “Banza”, era o Chefe do Estado-Maior da 3ª Região Militar que a dada altura teve que assumir a Direcção das tropas para o bem de todos.

Conte-nos como decorreu o cenário do contacto do jornalista William Tonet e se tem memória da data da interferência, bem como da sua passagem para o outro lado do então inimigo (UNITA), hoje irmãos?

Todos os dias, Paulo Cahilo expedia os seus trabalhos na rádio, camuflado no matadouro junto ao Rio Luena. Com a chegada ao Luena, dia 14 de Maio de 1991, o jornalista William Tonet, neste mesmo dia foi com Paulo Cahilo e sua equipa de apoio. Durante a expedição do seu trabalho, o Brigadeiro Mackenzie interferiu dizendo “você não tem falado a verdade sobre a situação no Luena” proferindo ameaças. Interrogado quem estava do outro lado, este confirmou que era o Mack. O William disse: “deixa falar com ele, eu conheço.” Este identificou-se dizendo que era o William Tonet. O Mack interrogou “até você William Tonet?”, depois da conversa, este fez uma proposta de encontro entre as Chefias militares. Mack comunica ao Ben, nós ao Higino, que permitiu a partida às 5H00, do dia 15 de Maio, para o Ponto 30 código (Chicala), tendo voltado no dia 16 de Maio, com os resultados que deram lugar ao 1º Encontro das Chefias militares.

Tem memória quando chegou o general Higino à vossa posição?

O Coronel Higino com os jornalistas chegaram ao Luena, no dia 14 de Maio, às 10H40, sob fortes bombardeamentos de artilharia da UNITA, o Helicóptero do Major semi-furado com balas pela rota, mas sem gravidade, que de seguida estes regressaram à Saurimo PCA do EMGFAPLA.

Senhor general porque confiaram no jornalista William Tonet de que ele não denunciaria as vossas posições?

Porque para o William Tonet o interesse da Nação estava acima de tudo, só a paz interessava na altura.

Para além dele, poderia ter sido escolhido outro jornalista, para o contacto com a outra parte?

Só o William, que sob todos os riscos se disponibilizou a ir para o desconhecido Ponto 30.

Acha ter tido o jornalista um papel importante para o Acordo?

Teve um Papel decisivo para a Paz, pois se não é este contacto e deslocação ao Ponto 30, consequente encontro do Alto Cauango, tudo não teria parado no dia 15 de Maio e nós paramos tudo, porque sabíamos que estavam no Ponto 30 os nossos camaradas.

Antes dele tem conhecimento de algum oficial das FAPLA, ter entrado em contacto com os militares da UNITA. Na altura do encontro já havia um cessar-fogo ou este só entrou em vigor, no dia 19.05.91?

Nenhum, porque não era permitido qualquer contacto com o inimigo. Consideramos o cessar-fogo, dia 15 de Maio, com a sua ida ao Ponto 30.

Quando chegaram ao local do encontro, vocês conheciam os militares da UNITA ou eles foram apresentados pelo jornalista, William Tonet?

Eu como estava no Comando das tropas não fui ao encontro, mas os camaradas que foram disseram que não conheciam alguém da Chefia das FALA.

Qual foi a sensação de, pela primeira vez, os militares dos dois lados se sentarem para negociar, sem intervenção de estrangeiros e alcançarem um Acordo?

Sensação de desconfiança por ter acontecido tudo muito rápido, mas na luta entre irmãos sempre termina assim. O estrangeiro tira dividendos e o filho da terra não.

Qual a importância que dá ao papel do jornalista William Tonet, para se alcançar este Acordo do Alto Kauango, no dia 19.05.91?

O seu papel foi determinante para a paz, pois este entendimento entre as Chefias militares obrigou os políticos, em Bicesse, assinar o acordo.

Acredita que se não houvesse Alto Kauango, os Acordos de Bicesse poderiam não ser rubricados na data aprazada, face o aumento do confronto militar, no terreno?

Sem a deslocação de William, no dia 15 de Maio, que forçou as partes para parar com as ofensivas militares, consequentemente os seus resultados deram lugar ao encontro do Alto Cauango e assinatura do Protocolo de Bicesse naquela data.

General Marques “Banza”, 29 anos depois qual a sensação que tem desta data?

Passados os 29 anos, os dias 14, 15 e 18 de Maio de 1991, constituem um marco de referência para tudo o resto que se seguiu na história recente da guerra no nosso país.

Dentro de momentos leia também, sobre o mesmo assunto, as declarações ao Folha 8 do General Sahcipengo Nunda, ex-Chefe do Estado-Maior General das FAA e actual Embaixador no Reino Unido.

Conheça, em pormenor, o texto do Acordo de Paz do Alto Kauango.
https://jornalf8.net/acordo-de-alto-kauango/

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