O Conselho Directivo da Entidade Reguladora da Comunicação Social da Coreia do Norte (ERCCN) assinalou “com preocupação, a publicação, pelo jornal “Folha 8”, em edições “on line”, de fotomontagens e caricaturas que atentam contra os direitos de personalidade de dignitários do Estado norte-coreano, como o Chefe de Estado, os antigos presidentes outras entidades públicas, expondo-os a situações lesivas à moral e aos bons costumes”.

A ERCCN refere que “estas práticas não se compaginam com o princípio segundo o qual os conteúdos difundidos pelos Meios de Comunicação Social devem pautar-se por critérios rigorosos que correspondam à ética e à deontologia profissionais”.

Vejamos se nos entendemos. Não é fácil mas é possível. Assim, a ERCCN entende que estamos no tempo de partido único mas não de único partido. E nada como começar por citar Paul Ricoeur: “Aquilo que se pensa ser bom é a ética. Aquilo que se impõe como obrigatório é a moral”.

O Folha 8 existe porque é preciso dar, continuar a dar, voz a quem a não tem. E na Coreia do Norte são muitos milhões. A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com os milhões de norte-coreanos pobres e injustiçados.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com o facto de a Coreia do Norte ser um dos países mais corruptos do mundo.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com o facto de a Coreia do Norte ser um dos países com mais mortalidade infantil.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com o facto de milhões de norte-coreanos serem gerados com fome, nascerem com fome e morrerem pouco depois com fome.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com um país que, além de ter o mesmo partido a governar desde que se tornou independente, continua a privilegiar os poucos que têm milhões, esquecendo os muitos milhões que têm pouco… ou nada.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com um regime que aprova leis sem respaldo das demais forças legislativas e da maioria da classe jornalística, banaliza a sua função e viola a própria Constituição, ao chamar a si, competências das associações profissionais dos jornalistas.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com o facto de o Parlamento impor leis da comunicação social e do Estatuto dos jornalistas, contra a vontade destes, assumindo o ónus de um comprometimento ignóbil, de assassínio das liberdades, de imprensa, de informação e de expressão.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com o facto de a ERCCN esquecer que em teoria “é garantida a liberdade de imprensa, não podendo esta ser sujeita a qualquer censura prévia, nomeadamente de natureza política, ideológica ou artística”, onde “o Estado assegura o pluralismo de expressão e garante a diferença de propriedade e a diversidade editorial dos meios de comunicação; assegura a existência e o funcionamento independente e qualitativamente competitivo de um serviço público de rádio e de televisão”.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos que a ERCCN não compreenda que quando a liberdade está em jogo, toda a liberdade; de expressão, de Imprensa, de igualdade, entre outras, os jornalistas que ainda não têm a cabeça na guilhotina e pensam pela própria cabeça devem resistir à tentação da cobardia do silêncio.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos em, pondo o poder das ideias acima das ideias de poder, ter forças para lutar pela liberdade de imprensa, enquanto direito fundamental. Essa luta é, aliás, a melhor forma de continuarmos a ser jornalistas.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos o facto de, por exemplo, o secretário de Estado da Comunicação Social, Kim Jong-jáfuy, dizer que o Governo quer um jornalismo mais sério, baseado no patriotismo, na ética e na deontológica profissional.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com o facto de só a própria existência de um ministério da Comunicação Social ser reveladora da enormíssima distância a que estamos das democracias e dos Estados de Direito.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com a tentativa de o secretário de Estado, ou do ministro, ou do próprio Titular do Poder Executivo nos vir dar lições do que é um “jornalismo mais sério, baseado no patriotismo, na ética e na deontológica profissional”.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Mas afinal, para além dos leitores, ouvintes e telespectadores, bem como dos eventuais órgãos da classe, quem é que define o que é “jornalismo sério”, quem é que avalia o “patriotismo” dos jornalistas, ou a sua ética e deontologia?

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com a afirmação de Kim Jong-jáfuy de que o Ministério da Comunicação Social vai prestar uma atenção especial na formação e qualificação dos jornalistas, para que estes estejam aptos para corresponder às expectativas do Governo.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com o facto de esta mesma ERCCN nada dizer quando um membro do Governo quer qualificar os jornalistas para que eles, atente-se, “estejam aptos para corresponder às expectativas do Governo”. Ou seja, serão formatados para serem não jornalistas mas meros propagandistas ao serviço do Governo, não defraudando as encomendas e as “ordens superiores” que devem veicular.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com o facto de Kim Jong-un ter dito o mesmo que Kim Jong-jáfuy.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós, correndo o risco de nos acontecer o mesmo que a Jan Kuciak, um repórter eslovaco de 27 anos conhecido pelo seu trabalho sobre corrupção e fraude fiscal e que foi, conjuntamente com a namorada, assassinado a tiro, vamos continuar a (tentar) dar voz a quem a não tem.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Nós preocupamo-nos com as pessoas a quem devemos prestar contas: os leitores. Se calhar não seremos tão patrióticos como o Governo deseja, como alguns membros da ERCCN querem que sejamos. Para nós, se o Jornalista não procura saber o que se passa é um imbecil. Se sabe o que se passa e se cala é um criminoso. Daí a nossa oposição total aos imbecis e criminosos.

A ERCCN preocupa-se com as fotomontagens. Sejamos optimistas. Alguns membros da ERCCN sabem que a caricatura, o cartoon, a fotomontagem são meios comummente usados no jornalismo como forma de opinião, crítica e informação, nada tendo a ver com uma deliberada intenção de expor os visados a “situações lesivas à moral e aos bons costumes”, e muito menos atentar “contra os direitos de personalidade de dignitários do Estado norte-coreano, como o Chefe de Estado, os antigos presidentes da República e outras entidades públicas”.