NOVA VIDA PARA A CASA DE ANGOLA, EM LISBOA

A associação Casa de Angola, nascida em Lisboa em 1971 e que não passou imune à turbulência da revolução, tem agora as contas saneadas, após um período de instabilidade, e quer reforçar-se como ponte entre Portugal e Angola.

Na sequência de problemas de gestão, em 2020, foi criada uma comissão extraordinária que esteve nos últimos anos dedicada a “salvar a Casa de Angola”, disse à Lusa o dirigente Carlos Bajouca.

Segundo o escultor e membro da direcção, “as dívidas passadas estão todas saneadas”, tendo acabado de ser pagas este ano.

“A nossa intenção não era criar animações nem dar continuidade a projectos culturais, não havia dinheiro. A intenção era salvar a Casa de Angola”, afirmou.

A partir de agora, acrescentou, a Casa de Angola quer empenhar-se em conseguir receitas estruturais, desde logo para manter a sede, o edifício situado na Travessa da Fábrica das Sedas (entre o Largo do Rato e o Jardim das Amoreiras), projectado pelo renomado arquitecto Cassiano Branco, que ali viveu com a família.

Daí, vêm surgindo ideias de alugar espaços a empresas ou instituições culturais ligadas a Angola. Quer ainda ser plataforma de divulgação de Angola e aproximação a Portugal.

Para Bajouca, “um livro sobre Angola seria muito interessante”, descrevendo património, expressões culturais, etnias. Antevê ainda uma pequena rádio para promoção de artistas.

Contudo, disse, tratam-se só de ideias e qualquer decisão caberá à nova direcção, pois este ano haverá eleições.

Atualmente, a âncora da Casa de Angola é o espaço gastronómico, liderado pelo chef Paulo Soares, uma referência na comida típica angolana.

“Atrai muita gente, pela sua qualidade e por permitir matar saudades da nossa terra”, afirmou Bajouca.

A Casa de Angola foi fundada em 1971. O edifício-sede foi adquirido nesse ano por sete mil contos.

Gervásio Viana, actual membro da direcção, contou à Lusa que um dos mentores foi o seu padrasto, Burity da Silva, deputado pelo círculo de Angola na Assembleia Nacional entre 1961 e 1965, durante a ditadura.

Com o fim da Casa dos Estudantes do Império (criada em 1944 para acolher estudantes das antigas colónias e encerrada em 1965 pela PIDE), a comunidade angolana sentia falta de um espaço que a agregasse.

Gervásio Viana explicou que “inicialmente o regime era contra”, especialmente o então ministro do Ultramar, Silva Cunha, pela memória de que a Casa dos Estudantes do Império se tinha tornado um viveiro da resistência anticolonial, abrigo de futuros líderes africanos como Agostinho Neto e Amílcar Cabral.

Para convencer o poder, foi criado um conselho estratégico com gente ligada ao regime (como Baltazar Rebelo de Sousa, pai do ex-Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa). Em 1971, saiu o despacho governamental que cria a Casa de Angola.

Num depoimento publicado no n.º 5 da revista AfroLetras (2000), o jornalista Rui Romano, que foi dirigente da Casa de Angola, identifica Burity da Silva, Emílio Simões de Abreu e Fernando Laires como mentores de um projecto “com o intuito óbvio de congregar todos os angolanos e suas emanações num bloco que se opusesse, frontal e decididamente, ao peso do domínio estatal-colonial”.

Romano relata que envolveram pessoas do regime para “salvaguarda de aparências” e que, nos primeiros anos, a Casa de Angola fez uso da “fraquíssima margem de manobra” política e financeira para organizar cursos e ações de apoio médico, social e educacional.

A revolução de 25 de Abril de 1974 foi marcante para a Casa de Angola. Gervásio Viana contou que, de imediato, jovens angolanos deslocaram-se para ali contestando a direcção e que, em 26 de Abril, são-lhes entregues as chaves da associação.

Segundo o relato de Rui Romano, a passagem das chaves deu-se “na presença de Jaime Neves e seus chaimites”.

Acrescenta Romano que, nessa noite, foi feito “um minuto de silêncio por todos, mas todos, os que tinham caído nas batalhas da Liberdade (africanos, portugueses, todos, todos, civis ou militares)” e enviado um telegrama à Junta de Salvação Nacional a exigir a “libertação imediata de todos os presos políticos”.

Nos anos seguintes, já com a independência do país, a Casa de Angola transformou-se numa espécie de consulado de Angola, emitindo vistos e tratando de documentação de angolanos, relatou Viana.

Ao mesmo tempo, não escapou às turbulências da revolução, sendo alvo de vários atentados bombistas, atribuídos à extrema-direita.

A revista O Referencial (N.º 143, de 2021), da Associação 25 de Abril, conta no artigo “A rede bombista da extrema direita” que, em 24 de Outubro de 1975, houve um atentado à bomba na Casa de Angola, “a que se seguiu, no dia seguinte, um violento assalto às respectivas instalações depois de uma manifestação de retornados realizada em Lisboa nesse mesmo dia”.

Uma cronologia do Museu do Aljube refere que, em Outubro de 1975, uma “manifestação de desalojados/retornados de Angola termina com o assalto e a destruição da Casa de Angola”. A acção foi reivindicada pelo Comando Operacional de Defesa da Civilização Ocidental (Codeco) e, no decurso desta, foi lançado contra o edifício um automóvel e colocada uma bomba.

Em julho de 1976, nova bomba destrói a Casa de Angola.

A revista Vida Mundial de Julho de 1976 (n.º 1898) tem uma reportagem sobre ataques bombistas, incluindo à Casa de Angola. Descreve que esta ficou com “recheio, portas e janelas completamente destruídos” e que a esquerda “insinua Spínola nas actividades bombistas”.

Uma fotografia que acompanha a reportagem mostra o exterior da Casa de Angola com centenas de pessoas concentradas. A Casa de Angola foi, por essa altura, ocupada por famílias cabo-verdianas, que aí viveram nos anos seguintes.

Em Junho de 1996, a Lusa noticiava que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) as tinha realojado e que a direcção estava a reconstruir a sede, com projecto do arquiteto Troufa Real, funcionando provisoriamente a Casa de Angola na Rua do Forno do Tijolo.

Já em 24 de Junho de 2001, a Lusa noticiava a cerimónia de reabertura da sede e que a reconstrução tinha contado com o apoio da CML, da petrolífera Sonangol e do Governo angolano.

Pouco antes da cerimónia, no exterior, um homem incendiou duas bandeiras da UNITA (oposição ao MPLA, no poder em Angola desde 1975). No dia seguinte, a UNITA repudiou “enérgica e veemente” a queima das bandeiras.

Na cerimónia, o então presidente da CML, João Soares, contou que, na última visita do seu pai, Mário Soares, a Angola como Presidente da República, umas das preocupações transmitidas foi precisamente o estado da Casa de Angola, pelo que o país se envolveu na reconstrução.

Segundo o escultor Carlos Bajouca, “há uma percepção errada da Casa de Angola”, pois em geral as pessoas “pensam que é um complemento da Embaixada de Angola, quando é completamente autónoma, independente do poder político e do governante” no país.

Legenda. Setembro de 2006. Dois angolanos (não reconhecidos como tal pelo MPLA) à porta da Casa de Angola, em Lisboa. O da direita é o Fernando Frade (Fino), o outro é o Orlando Castro, director adjunto do Folha 8. Foi durante a apresentação do seu livro «Alto Hama – Crónicas (diz) traídas».

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