MPLA, IMPLOSÃO OU IMPOSIÇÃO DA BICEFALIA?

Esta pergunta toca na ferida mais exposta da política angolana neste momento e o ano de 2026 está a ser, sem dúvida, o período mais conturbado e imprevisível da história recente do MPLA, mesmo se falar em “implosão” pode parecer drástico para um partido que governa há meio século, mas as placas tectónicas do poder em Luanda estão a mexer-se como nunca antes, impulsionadas pela aproximação do IX Congresso Ordinário e das eleições gerais de 2027.

Por Osvaldo Franque Buela

Essa é a encruzilhada exacta. Se tivéssemos de escolher o termo técnico mais preciso para o plano de João Lourenço, a resposta é a imposição da bicefalia. No entanto, a grande ironia política é que a imposição desta bicefalia pode ser, precisamente, o gatilho para a implosão do partido.

Por que é uma imposição? Porque o MPLA, historicamente, odeia a bicefalia. O partido sempre funcionou sob o princípio de que o “líder do partido é o cabeça-de-lista ao Estado”. Quando José Eduardo dos Santos tentou manter a liderança do MPLA após deixar a presidência em 2017, João Lourenço desfez o arranjo em menos de um ano por considerá-lo ingovernável. Agora, Lourenço quer impor ao partido exactamente o modelo que ele próprio combateu e destruiu.

Quem quer continuar com João Lourenço (e como)?

A Constituição angolana proíbe taxativamente um terceiro mandato presidencial para João Lourenço nas eleições de 2027. No entanto, o “caos” e as tensões actuais derivam do facto de João Lourenço querer continuar a controlar o xadrez político.

A recente validação da candidatura de João Lourenço à liderança do MPLA mostra que ele pretende manter-se como Presidente do Partido mesmo após deixar a Presidência da República em 2027.

Quem apoia a ala dura de Lourenço quer replicar o modelo em que o líder do partido continua a ser o verdadeiro “padrinho” do poder, controlando o candidato que for a votos em 2027 à semelhança do que José Eduardo dos Santos tentou fazer no passado. O núcleo duro que o rodeia composto por generais da segurança e beneficiários da actual estrutura de clientelismo quer esta continuidade para garantir a sua própria sobrevivência e imunidade.

O incompetente e presidente cessante João Lourenço quer ser o “copiloto com o travão de mão”, e se o novo Presidente da República em 2027 tentar desviar-se da rota ou ameaçar o seu círculo, o Secretariado do Partido controlado por ele pode retirar-lhe o tapete político no Parlamento.

Mas  a ruptura tem um nome: Higino Carneiro e os “barões”

A prova de que o partido está num momento de turbulência inédito é que, pela primeira vez na história do MPLA, a liderança em funções está a ser desafiada de forma aberta e massiva.

O general na reforma Higino Carneiro formalizou a sua candidatura à liderança do MPLA com um dado político avassalador: entregou mais de 19 mil assinaturas de militantes, superando as subscrições do próprio João Lourenço.

Esta ala representa os “barões tradicionais”, os “eduardistas” marginalizados pela campanha de combate à corrupção e os quadros insatisfeitos com o rumo económico do país. Eles consideram que o consulado de Lourenço desgastou gravemente a marca do MPLA e que o país está “à beira do limite”. Este grupo quer uma ruptura com a liderança actual para salvar o partido de uma derrota histórica em 2027 frente à UNITA.

A entrega da candidatura de Higino Carneiro, munida de 19 mil assinaturas e com denúncias abertas de “pressões internas” exercidas pela máquina do Estado, mostra que a ala histórica do partido percebeu o truque e recusa-se a aceitar esta bicefalia  imposta.

Para os dinossauros e os barões do partido, aceitar este plano significa assinar uma certidão de óbito político por dois motivos:

Em primeiro lugar trata-se da paralisia governamental: Um país em crise económica profunda não aguenta uma guerra de palácios entre a sede do MPLA e o Palácio Presidencial. A bicefalia paralisaria as decisões económicas urgentes que o país exige.

Em segundo lugar é a canibalização eleitoral: Se o MPLA for a votos em 2027 com um candidato presidencial fraco (um “testa de ferro” de Lourenço) e com o partido fracturado a meio pela rejeição da bicefalia, as bases simplesmente vão desertar. A “implosão” não será necessariamente o partido fechar as portas, mas sim fragmentar-se em fações tão hostis que perderá a capacidade de mobilização eleitoral que sempre o manteve no poder.

Com base nestas duas razões, o veredicto para mim é claro, embora as águas estejam turvas, João Lourenço caminha a passos largos para conseguir a imposição formal da bicefalia no Congresso de Dezembro. Ele tem o aparelho, os governadores e a comissão de candidaturas na mão. O problema é que esta vitória interna será puramente mecânica e burocrática. Ao sufocar a contestação interna e forçar um modelo de duas cabeças que o partido rejeita visceralmente, Lourenço arrisca-se a transformar a bicefalia numa vitória pírrica — aquela que consagra o líder na sede do partido, enquanto assiste à implosão da hegemonia do MPLA nas ruas e nas urnas em 2027.

Todos fingem esquecer o País real

Enquanto o bureau político do MPLA se digladia em Luanda, a base social de apoio do partido está a desmoronar-se devido à crise económica profunda, à desvalorização do Kwanza e ao custo de vida sufocante. Muitos militantes intermédios e jovens já não querem continuar neste registo de sobrevivência e temem que a opacidade no processo de sucessão leve o partido a uma implosão interna antes de chegarem às urnas.

O MPLA não está necessariamente nos seus momentos finais de existência, mas está nos seus momentos finais como o partido monolítico que conhecíamos. A ambição de João Lourenço de manter as rédeas do poder após 2027 colide frontalmente com uma ala histórica poderosa que percebeu que, se nada mudar no Congresso, o caos económico e a contestação social guiarão o partido para o abismo eleitoral.

Este filme terá um final pacífico?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares e, infelizmente, a resposta não é linear. Para percebermos se o desfecho deste “filme” será pacífico, temos de dividir o conceito de “paz” em duas frentes: a paz institucional dentro do palácio e a paz social nas ruas.

A tensão disparou drasticamente com a recente formalização da candidatura do General Higino Carneiro, acompanhada de denúncias públicas de perseguições a militantes que o apoiam e do timing suspeito de processos judiciais. O ambiente está eléctrico.

No Palácio, o congresso de Dezembro de 2026 poderá ser pacífico, mas violento nos bastidores. Dentro das salas do MPLA, o desfecho deverá ser institucionalmente pacífico, no sentido em que não veremos tanques na rua nem confrontos físicos. O MPLA é um partido com uma cultura de sobrevivência urbana e burocrática muito forte.

No entanto, haverá uma violência administrativa e jurídica por que máquina que apoia João Lourenço usará todos os formalismos legais, os comités de disciplina e, previsivelmente, a interferência de tribunais para tentar invalidar ou asfixiar a lista de Higino Carneiro.

O facto de Higino ter entregue o dobro das assinaturas exigidas (quase 20 mil) mostra que a revolta interna é pacífica na forma, mas profundamente agressiva no conteúdo. O desfecho aqui será uma “paz armada” de sorrisos falsos na fotografia final do congresso, mas com o partido fracturado como nunca antes.

O grande perigo para a paz em Angola não está no que acontece entre João Lourenço e os generais, mas sim no impacto que esta guerra interna tem na população. É aqui que o filme pode perder o tom pacífico.

Se a imposição da bicefalia por parte do nosso incompetente João Lourenço paralisar ainda mais a economia, empobrecer a classe média e o kwanza continuar em queda livre, o descontentamento social vai atingir o ponto de ebulição em 2027.

Se o MPLA for a votos em 2027 visivelmente dividido, perder nas urnas para a oposição, mas a liderança da Cidade Alta tentar forçar uma vitória eleitoral através de fraudes ou do controlo da CNE para proteger o plano de Lourenço, a contestação popular será imediata.

Ao contrário do passado, a juventude angolana actual já não tem o trauma psicológico da guerra civil (que terminou em 2002). É uma geração urbana, conectada e desesperada por falta de emprego, muito mais disposta a sair à rua para protestar. Uma transição bloqueada à força em 2027 poderá desencadear manifestações massivas e uma resposta policial violenta.

Com base na nossa limitada experiência e no nosso conhecimento deste partido predador e violento, mesmo contra as suas próprias elites, posso aqui afirmar que o processo interno do MPLA em dezembro de 2026 terminará de forma teoricamente pacífica com decretos, exclusões de candidaturas e acordos de bastidores etc. Contudo, a forma como João Lourenço gerir essa “vitória” ditará a paz do país em 2027.

Se o general João “Sabota” Lourenço esmagar a democracia interna do seu próprio partido para se perpetuar, estará a acumular a pressão social que poderá explodir de forma muito menos pacífica nas ruas logo a seguir.

Na política angolana, nem tudo o que parece rutura total termina em rutura. Muitos analistas em Luanda acreditam que Higino Carneiro sabe que vencer a máquina interna de João Lourenço é quase impossível. Então, qual é o objetivo? Forçar uma negociação?

Que Deus abençoe o povo de Angola.

(*) Escritor pan-africanista, refugiado político em França

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