Eu acredito, pela primeira vez, no anúncio do presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos de se retirar da vida política activa, em 2018.

Por William Tonet

Etudo por esta manifestação de vontade umbilical assentar na filosofia de “sair ficando”, encerrando, com um condão maquiavélico, capaz de catapultar um ajustamento estatutário, com a nomeação de um “presidente executivo”, qual marioneta do líder (tal como acontece com o vice-presidente da República, imposto, contra a vontade geral do próprio MPLA), que continuará no leme a manietar a máquina.

Dos Santos circunscreveu, na honestidade draconiana, em que eu acredito, exclusivamente, o debate, para a esfera “política activa” (partidária: MPLA) e não “pública activa” (Presidência da República), deixando claro não abdicar, desta última.

A dicotomia entre ambas é bastante curta, levando, ingenuamente, muitos políticos da oposição, a resvalarem os discursos analíticos, no abandono da chefia do Estado, esquecendo-se que o palco escolhido, não foi inocente.

Num momento que cresce, em surdina, um movimento de contestação interna, nada melhor do que testar a existência de resquícios da irreverência de antigos dirigentes como Mendes de Carvalho, Paulo Jorge, Lopo do Nascimento, Maria Mambo Café ou Marcolino Moco.

Dos Santos na maestria do engano e “auto-engano”, muito utilizada por Staline, ficou com a sensação de ter imobilizado as ervas daninhas que, astutamente, lhe demonstraram, não ser escravo das suas palavras, ao aceitar uma recondução, até ao ano de 2021, sem pestanejar.

Dos Santos transpareceu, uma vez mais, acreditar nos próprios equívocos, descredibilizando a seriedade que deve caracterizar os líderes em momentos sensíveis.

O presidente do MPLA à luz da Constituição, art.º 109.º pode continuar “ad eternumm” na Presidência da República, pois o cabeça de lista, não precisa ser líder do MPLA, apenas, ter poder, dinheiro e órgãos de pressão a sua disposição, para untar a mão aos bajuladores do templo.

Neste item, Dos Santos é honesto, ninguém mais tem o poder de ter um exército privado, a UGP, controlar as finanças públicas, a reserva do Fundo Soberano, com o filho, as Telecomunicações com uma das filhas, dona da UNITEL e outros com mão na Movicel, a comunicação social pública, com dois filhos controlando a TPA 2 e TPA Internacional, tendo ainda o controlo da TV Zimbo, Rádio Mais, TPA 1, Rádio Nacional, Angop, etc. e dispor do sistema bancário privado, tudo isso levam a que o homem só na próxima encarnação se consiga adaptar a viver como um cidadão normal…

Dos Santos, passou de novo a ideia de preferir “morrer pelo elogio do que salvo pela crítica”, numa altura em que poderia preparar, mesmo que tardia, uma saída mais airosa da “vida política activa”.

Num contexto de baixa popularidade face à má política económica, ao desemprego, a falta de sistemas de saúde e de educação, bem como de alta corrupção, onde os filhos são o alvo mais visível, uma medida inteligente, seria propor, dois grandes eventos:

1 – Comissão da Verdade e Reconciliação Nacional (entre militantes do MPLA e com outros partidos visando ultrapassar os passivos, fruto das facções e conflitos interpartidários);

2 – Comissão Política para criação de um “Pacto de Regime” (com todas as forças vivas, tendentes a ser encontrado um quadro capaz de regularizar alguns desvarios da gestão da coisa pública).

Não fez desta vez, mostrou a pequenez da análise, adiou o sabor da derrota, perdeu mais uma chance relevante de sair a andar.

Na política os equívocos pagam-se caro e como lhe disse uma vez, o senhor deveria ser um candidato de mudança, para impedir, no futuro, uma vitória do revanchismo, seja ele interno, no seu partido ou externo.

Angola precisava disso e não de uma incompetência do ocaso, com a sua trajectória no MPLA, que pouco importa às novas gerações, quando no presente lhes oferece; sofrimento, fome, miséria, desemprego e injustiça. Com isso é inegável, que o senhor continua igual a si mesmo, um líder que quer ficar apegado, eternamente, ao poder, por outra opção não ter, face aos elevados índices de corrupção, que são atribuídos ao seu gabinete.

O descalabro da política económica, mostra a incompetência da equipa que lidera e a falta de soluções para o país. Em 36 anos de poder, com bonança, não apontou caminhos, não será agora, que demonstrou não saber o real papel e importância do Banco Nacional, ao fazer experiência com um inexperiente governador, cujo mérito curricular assenta na bajulação. Não há mais como alegar ignorância em relação a estes métodos imundos de relegar o país para segundo plano.

Portanto, prezado presidente do MPLA, creio que pesava sobre a sua cabeça um dever moral de cidadão que quer o melhor para o país, para a democracia anunciar algo de substantivo, para o futuro colectivo e não a manutenção de um discurso vazio, assente na vaidade umbilical.

Com isso o MPLA mostrou ser um partido dominado por um homem só, com forte autoridade, intervencionista ao extremo, que alguns apontam como incompetente e arrogante, que se associa ao que há de pior no mundo afora; ditadura e corrupção. Aliás, um partido que elogia e apoia os mais nefastos ditadores do planeta, Kim Jong-un, da Coreia do Norte, Sassou Nguesso do Congo, Obiang Nguema da Guiné Equatorial, Robert Mugabe do Zimbabwe não pode ser levado a sério.

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