Tal como em 2008 e 2012, quem decidiu o resultado das eleições de ontem em Angola não foi o povo, os eleitores, através do seu voto. Quem decide é o Bureau Político do MPLA através da legitimação institucional da sua sucursal, a Comissão Nacional Eleitoral.

Por Orlando Castro

Os milhares de observadores internacionais às eleições em Angola confirmam a democraticidade do acto. Bem, não foram milhares, foram centenas. Centenas também será um exagero. Fiquemos pelas dezenas. Ou, melhor, foram meia dúzia. Mas meia dúzia de alta qualidade, todos escolhidos à medida e por medida e que beneficiaram de todas as mordomias com que o regime brinda os seus sipaios internacionais.

Para além de ficarem nos melhores hotéis (ninguém lhes pagou para ir ao país profundo ou para indagarem sobre o que se passou do lado de lá da cortina… de ferro) e comerem do bom e do melhor (se não fosse para isso o que é que viriam cá fazer?), estiveram sempre – honra lhes seja feita – na primeira fila.

E estiveram na primeira fila para, dizem, ver tudo o que se passava. Além disso a sua localização estratégica permitiu que todos os vissem. Ou seja, para que o patrão MPLA reparasse que eles estavam a cumprir as ordens recebidas.

Foram espertos. Pelo contrário, os competentes na arte de ganhar eleições mesmo antes de elas se realizarem, como foi o caso, ficaram lá atrás. Não foram vistos, mas viram tudo o que se passava. E, mais do que isso, viram bem antes das eleições. Muito antes.

De facto, e como era esperado pelo regime angolano, na primeira fila de observação está sempre a subserviência, colectiva ou individual.

Os que sabem tudo, esses estão na primeira fila. Cá atrás não estiveram os observadores. E não estiveram porque se o fizessem poderiam, mesmo que involuntariamente, ver o que se passava de facto. E se vissem seria uma chatice não relatar. Além disso, o grosso da fraude não se passou mas mesas de voto. Passou-se no centro (nevrálgico) do controlo informático, sob as ordens de uma corja internacional de vigaristas.

É por isto que os observadores eleitorais estiveram sempre na primeira fila. Todos sabiam quem eles eram e ao que iam. Se calhar poderiam passar despercebidos e, dessa forma, ver melhor a realidade. Mas não era para isso que eles cá estavam.

E para um observador que se preze, o silêncio é uma regra de ouro. E se a isso conseguir juntar a cegueira, então é o diamante no cimo dos dólares.

Como lhe competia, o MPLA só deu luz verde aos observadores que entendeu. A União Europeia ficou a ver navios, a CPLP conseguiu resolver a questão com uma missão de credenciados bajuladores. Apesar da redução numérica, o regime colocou como condição sine qua non serem invertebrados, corruptos e cegos.

No entanto, a fraude não se limitou ao acto do colocar o voto na urna. Começou antes, bem antes. Tão antes que ninguém da oposição conseguiu a tempo e horas (como, aliás, estava previsto na lei) saber o que se passava com os cadernos eleitorais, com os delegados de lista e com todos os quadros adstritos às eleições.

Por alguma razão as pessoas que o regime entendeu serem as mais credenciadas para as mesas e assembleias de voto foram membros das diferentes especialidades do MPLA, aparecendo alguns destes como sendo indicados pelos partidos da oposição.

Pela via informática/electrónica, montada há meses, os resultados recebidos foram convertidos na linguagem já estabelecida, razão pela qual muitos dos resultados apurados in loco nas assembleias de apuramento não coincidem até mesmo com os que chegaram à própria CNE.

E, em muitos casos, a culpa nem é da CNE que, de facto, divulga os dados que recebe e que julga terem origem nos centros de escrutínio. Mas não. Os enviados desses centros vão parar ao comando do Bureau Político do MPLA que os converte e reenvia para a CNE.

Seja como for, nada disto e do muito que continua no segredo dos deuses do MPLA, com assessoria internacional, importa à comunidade internacional que, tal como os angolanos, foi comida de cebolada.

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