Este humilde texto é uma singela homenagem ao jovem (13 ou 14 anos) que foi assassinado a tiro, por militares, em Luanda, por ter questionado a razão pela qual demoliram a “casa” dos seus pais. José Eduardo dos Santos e o seu regime já estão mortos. Só que ainda não sabem.

Por Orlando Castro

O Presidente da República, nunca nominalmente eleito e no poder desde 1979, José Eduardo dos Santos, assume o seu papel de autocrata e “escolhido de Deus” e dá lições (aos angolanos) daquilo que desconhece: ética, democracia, verdade, moral e liberdade etc..

Nas reuniões com os seus sipaios do MPLA, Eduardo dos Santos puxa dos galões para, perante uma plateia subserviente, amorfa e castrada, dizer que os angolanos não devem ser expostos a situações dramáticas. Citando como exemplo o que se passou no do 27 de Maio de 1977, onde foi parte activa no assassinato de milhares e milhares de militantes do MPLA.

“Não se deve permitir que o povo angolano seja submetido a mais uma situação dramática, como a que viveu em 27 de Maio de 1977, por causa de um golpe de Estado”, afirma José Eduardo dos Santos, procurando – o que é uma das suas especialidades compradas com o dinheiro roubado ao Povo – branquear a sua atávica avidez pelo poder, pela tirania, pelo nepostismo.

O também presidente do partido aconselha os cidadãos interessados em conquistar o poder para formarem um partido político e concorrem às eleições.

“Quem quer alcançar a Presidência da República e formar o governo que crie, se não tiver, um partido político nos termos da Constituição e da Lei, e se candidate às eleições”, sugere o chefe de Estado, acrescentando que “quem escolhe a via da força para tomar o poder ou usa meios anti-constitucionais, não é democrata. É tirano ou ditador. Acusaram o MPLA e os seus militantes de intolerantes, mas a mentira tem pernas curtas, hoje todos sabem onde estão os intolerantes e nem é preciso dizer os seus nomes”, conclui José Eduardo dos Santos.

José Eduardo dos Santos até vislumbra na sua sombra um golpe de Estado. É tipo dos ditadores questão no fim da picada. Talvez por isso tenha ao seu lado gente como os generais Zé Maria (chefe do Serviço de Inteligência e Segurança Militar – SISM), Kopelipa (chefe da Casa de Segurança do presidente da República) e Eduardo Octávio (chefe do Serviço de Inteligência e Segurança de Estado – SINSE).

E talvez por isso, como em Maio de 1977, manda decapitar, fuzilar, ou entrar na cadeia alimentar dos jacarés todos os que sonham com um futuro melhor, mais igualitário e mais fraterno para os angolanos. Os seus generais até matam um miúdo, um menino, que só queria saber porque é que deitaram abaixo a cubata dos seus pais.

A guerra legitimou tudo o que se consegue imaginar de mau no carácter de alguém. Permitiu ao actual presidente perpetuar-se no poder, tal como como permitiu que a UNITA dissesse que essa era (e pelo que se vai vendo até parece que teve razão) a única via para mudar de dono do país.

É claro que, é sempre assim nas ditaduras, o povo foi sempre e continua a ser (as eleições não alteraram a génese da ditadura, apenas a maquilharam) carne para canhão.

Por outro lado, a típica hipocrisia das grandes potências ocidentais, nomeadamente EUA e União Europeia, ajudou a dotar José Eduardo dos Santos, o ditador e déspota, com o rótulo de grande estadista. Rótulo que não corresponde minimamente ao produto. Essa opção estratégica de norte-americanos e europeus tem, reconheça-se, razão de ser sobretudo no âmbito económico.

É muito mais fácil negociar com um regime ditatorial do que com um que seja democrático. É muito mais fácil negociar com alguém que, à partida, se sabe que irá estar na cadeira do poder durante toda a vida, do que com alguém que pode ao fim de um par de anos ser substituído pela livre escolha popular. Além disso, fazem suas as palavras sentidas por sua majestade o rei de Angola: os angolanos que se lixem.

É, como acontece com José Eduardo dos Santos, muito mais fácil negociar com o líder de um clã que representa quase 100 por cento do Produto Interno Bruto, do que com alguém que não seja dono do país mas apenas, como acontece nas democracias, representante temporário do povo soberano.

Reconheça-se, entretanto, a estatura canibalesca de José Eduardo dos Santos, visível sobretudo a partir do momento em que deixou de poder contar com Jonas Savimbi como o bode expiatório para tudo o que de mal se passava em Angola.

Desde 2002, o presidente vitalício de Angola tem conseguido fingir que democratiza o país e, mais do que isso, conseguiu (embora não por mérito seu mas, isso sim, por demérito da UNITA) domesticar completamente todos aqueles que lhe poderiam fazer frente.

Angola está em 163º entre 167 países no que diz respeito a nível de corrupção. A taxa de mortalidade infantil é a mais alta do mundo. E, é claro, o Povo continua a ser gerado com fome, a nascer com fome, e a morrer pouco depois… com fome.
Recordemos que, por exemplo, o ministro Georges Chikoti disse não estar preocupado com a campanha internacional para a libertação dos então presos políticos (Revús) em Angola, jurando que eles estavam a preparar um golpe de Estado. Nada mais, nada menos. Um golpe de Estado.

Os activistas, então detidos, não são presos políticos, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Georges Chikoti, mantendo – como lhe foi ordenado pelo “querido líder” e por uma questão de sobrevivência – a tese de que os jovens activistas tinham mísseis escondidos nas lapiseiras, Kalashnikovs camufladas nos telemóveis e outro armamento pesado e letal disfarçado nos blocos de apontamentos. Só assim se compreende que estivessem a preparar um golpe de Estado.

A campanha internacional pela libertação dos activistas mostrou, aliás, que todos se esquecem que José Eduardo dos Santos é o único representante de Deus na Terra e que, por isso, tem poderes adivinhação que o levam até a saber com exactidão milimétrica o que as pessoas pensam.

Foram, aliás, esses poderes que permitiram a prisão dos jovens em flagrante delito: estavam nesse momento a pensar numa solução para o derrubar. E isso constitui só por si matéria de facto para os mandar matar. Tal não aconteceu, ainda, porque Eduardo dos Santos é misericordioso.

Além disso, não são necessárias outras provas. Para que serviriam ao regime as armas (as tais que estavam camufladas), ou os milhões de guerrilheiros (os tais que estavam no quintal debaixo da mangueira)? Saber o que os jovens pensam é condição sine qua non.

Vejamos a explicação de Georges Chikoti: “Angola é um país democrático, tem partidos políticos que participam no Parlamento. O que não se pode aceitar é que as pessoas queiram utilizar a violência como via de atingir ou alcançar o poder político”.

Quando Georges Chikoti falava, com todo o conhecimento de causa, de violência estava, obviamente, a referir-se à revolta militar que o tal exército dos jovens tinha em mente, caso não estivesse tanto calor debaixo da mangueira.

Vir agora dizer-se que o regime não sabe conviver com o contraditório e revela uma das suas facetas mais marcantes, a intolerância, é não compreender o ADN do MPLA, em que o ponto mais alto foi o massacre de milhares e milhares (talvez 80 mil) de angolanos no dia 27 de Maio de 1977.

É, aliás, não compreender que o regime está de tal maneira moribundo que até manda prender e matar a sua própria sombra. Aliás, agora até mandou assassinar a tiro um “puto” que não gostou de ver os militares deitarem abaixo a “casa” dos seus pais. De facto, tudo isto mostra que o regime está morto, só ainda não sabe.

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