A Presidente do Conselho de Administração da Sonangol, Isabel dos Santos, confirmou à norte-americana Cobalt que a empresa angolana já não vai comprar directamente a participação daquela petrolífera em dois blocos, negociada anteriormente por 1,5 mil milhões de dólares.

A informação consta de uma nota da Cobalt International, a que a Lusa teve hoje acesso, divulgando que a própria princesa herdeira do trono, Isabel dos Santos, escreveu uma carta à Administração da petrolífera norte-americana, a 1 de Agosto, confirmando que o negócio será feito pela venda dos activos (40% nos blocos 20 e 21) a uma “terceira parte”.

A venda destes dois blocos no ‘offshore’ ao largo de Luanda foi anunciada pelas duas petrolíferas em Agosto de 2015, por 1.750 milhões de dólares, mas não se concretizou até ao momento por falta de aval do Governo angolano, segundo informação anterior da Cobalt.

No âmbito do processo de reestruturação da Sonangol, devido à crise da cotação do petróleo e às dificuldades financeiras da concessionária estatal angolana, o Presidente José Eduardo dos Santos nomeou em Junho a filha mais velha, a empresária Isabel dos Santos, para o cargo de Presidente do Conselho de Administração daquela empresa pública.

Já no mês de Julho, o administrador da Cobalt, Tim Cutt, reuniu-se em Luanda com Isabel dos Santos para avaliar o estado deste negócio, tendo sido alcançado o princípio de um novo acordo, como a própria petrolífera norte-americana confirmou hoje, na mesma nota, para a comercialização das participações.

Nesta reunião, a Cobalt e a Sonangol “acordaram em conjunto” que os norte-americanos venderiam afinal o interesse de 40% nos blocos 20 e 21 a uma “terceira parte”, não revelada ou definida.

Isabel dos Santos, enquanto PCA da Sonangol, confirmou por escrito a concordância com este novo modelo de negócio para a venda daquelas participações, mas a Cobalt admite como “pouco provável” que o processo esteja terminado até 22 de Agosto, quando termina o prazo de vigência de um ano do acordo para a venda assinado em 2015.

“Embora preferíssemos a transacção com a Sonangol, estou agradado por podermos recomercializar esses ricos activos líquidos para terceiros. O custo de desenvolvimento [para produção de petróleo] melhorou substancialmente, os fundamentos de médio a longo prazo dos preços continuam fortes e nós anunciamos duas novas descobertas no bloco 20”, refere Tim Cutt, citado na informação da Cobalt.

No comunicado divulgado em Agosto de 2015, sobre os pressupostos do negócio inicial, a empresa estatal angolana anunciou que, apesar de a Cobalt ficar como operador durante os próximos tempos, “todos os custos daqui para a frente serão suportados pela Sonangol”, ficando a petrolífera norte-americana apenas com direitos sobre o bloco 9 no ‘offshore’ angolano.

A Cobalt detém uma participação maioritária de 40% no bloco 20/11, face aos atuais 30% da Sonangol e outros 30% da BP, enquanto no bloco 21/09 a empresa pública angolana detém 60% e a petrolífera norte-americana 40%.

A Cobalt anunciou anteriormente, já este ano, uma descoberta “significativa” de condensados e gás natural no poço de exploração Zalophus #1, no bloco 20, a sexta no pré-sal angolano, referindo ainda que decorrem perfurações no poço Golfinho #1, cujos primeiros resultados apontam potencial para a existência de mais condensados e gás natural.

Agosto de… 2015

Em 24 de Agosto do ano passado a Sonangol anunciou um acordo para comprar a totalidade das participações da Cobalt em dois blocos em Angola por 1,5 mil milhões de euros, ficando a Cobalt apenas com direitos sobre o bloco 9.

“O acordo de compra e venda assegura uma transição suave para um novo operador e sublinha o empenho das partes em conseguir uma decisão final de investimento para o desenvolvimento do bloco Cameia 21/09 até ao final deste ano para conseguir iniciar a produção no final de 2018″, lia-se no comunicado colocado na página da petrolífera norte-americana.

Apesar de a Cobalt ficar como operador durante os próximos tempos, “todos os custos daqui para a frente serão suportados pela Sonangol”, acrescentava a empresa no comunicado, que lembra que o acordo estava sujeito a aprovação das autoridades de regulação angolanas, o que deverá acontecer até ao final do ano.

Citado no comunicado, o director executivo da empresa, Joseph Bryant, afirmou: “Estamos orgulhosos do tremendo sucesso que a nossa parceria com a Sonangol conseguiu em abrir a camada pré-sal na bacia do Kwanza com cinco descobertas significativas e um profundo portefólio de perspectivas de exploração”.

Joseph Bryant acrescentou: “Continuamos empenhados em continuar os esforços conjuntos com a Sonangol para conseguir desenvolver o projecto da Cameia até ao final do ano”.

Por seu lado, o então presidente executivo da Sonangol, Francisco de Lemos José Maria, lembrou que “nos últimos sete anos, a Cobalt tem tido um sucesso excepcional na exploração do pré-sal em Angola” e prometeu que “isso vai trazer uma prosperidade considerável para o povo angolano nas próximas gerações”.

O portefólio da Cobalt ficava então mais focado nas suas actividades de exploração no Golfo do México, disse a companhia numa apresentação aos analistas, de acordo com a agência financeira Bloomberg.

O negócio surgiu no contexto de dificuldade financeiras por parte de Angola, que enfrentava um preço do barril bem abaixo do nível que projectou quando apresentou o Orçamento do Estado original para 2015, com um preço do barril na ordem dos 81 dólares, entretanto revisto em baixa para 40 dólares por barril.

Angola é o maior produtor de petróleo em África, com 1,7 milhões de barris por dia, mas enfrenta uma profunda crise financeira e económica devido à quebra na cotação do barril de crude no mercado internacional, que só em 2015 fez diminuir para metade as receitas fiscais petrolíferas.

Folha 8 com Lusa

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