Na segunda metade da década de 1970, a desconfiança das autoridades soviéticas face à actividade política de Agostinho Neto terá servido de pretexto para levar alguns angolanos, nomeadamente Eugénia Neto, esposa do primeiro Presidente de Angola, a supor que a sua morte em Moscovo, a 10 de Setembro de 1979, não tivesse sido obra do acaso.

Por António Setas

O desfecho trágico do líder angolano foi atribuído aos malefícios do alcoolismo de que sofreria o dirigente angolano: “Dizia-se que nos últimos tempos Neto passou a abusar do álcool, tentando fugir a disposições depressivas, que seria cada vez mais assaltado pela ideia de que o apoio da URSS e de Cuba não conduziriam à solução dos problemas angolanos. Com efeito ele, no fundo, já não tinha opção. Devido a uma proposta insensata do nosso embaixador, o cadáver de Neto ficou para embalsamar em Moscovo, enquanto os angolanos, de luto, despedindo-se do seu líder, não sabiam que a urna funerária enviada da capital da antiga URSS passava (em Luanda!) estava vazia”.

Este relato foi confirmado por um participante soviético que acompanhou esses acontecimentos de perto. Segundo ele, as autoridades soviéticas não queriam que Agostinho Neto fosse operado em Moscovo, pois sabiam do seu real estado de saúde, mas, por outro lado, não podiam recusar para “não afectar a credibilidade do país”.

A mesma fonte contou que a primeira urna enviada para Luanda ia vazia, pois o cadáver de Agostinho Neto ficou em Moscovo para ser embalsamado. Mas as “aventuras” continuaram: “o cadáver, depois de embalsamado, foi colocado numa urna de vidro hermeticamente fechada e transportado para Angola. Quando chegou a Luanda, os dirigentes angolanos deram conta de que Agostinho Neto vinha sem óculos e queixaram-se aos soviéticos de o cadáver não ser parecido com ele”.

“Tivemos – continua a nossa fonte – de trazer novamente o cadáver para Moscovo, abrir a urna de vidro e colocar os óculos no rosto do cadáver. Na Rússia e na União Soviética, não existe o costume de se sepultar os cadáveres com óculos!”. Isso é verdade, mas podemos encontrar na história do comunismo exemplos que confirmam a hipótese levantada por Eugénia Neto. José Estaline não só liquidava os seus adversários políticos, internos e externos, de forma aberta e cruel (como aconteceu com o assassinato de Leão Trotski), mas também durante o tratamento deles em hospitais soviéticos.

A construção do Mausoléu para Agostinho Neto é apresentada como um mau exemplo da forma como as autoridades soviéticas iam ao encontro da “gigantomania” de alguns dirigentes africanos. De facto, era uma espécie de tara, que foi gratuitamente legada ao presidente José Eduardo dos Santos, hoje gravemente atingido por uma “Folie des grandeurs” compulsiva que tem custado biliões de dólares aos cofres do Estado.

Segundo opinião de Piotr Evsiukov, antigo funcionário da Secção Internacional do PCUS e embaixador soviético em Moçambique e São Tomé e Príncipe, o projecto de Mausoléu em honra de Agostinho Neto foi feito para agradar à direcção local, de Luanda, “a nossa embaixada”, escreve ele nas suas Memórias, “foi ao encontro, de forma completamente infundada e míope, dos pedidos ambiciosos de construir, com meios soviéticos, um complexo memorial grandioso, excessivamente caro, em honra de Agostinho Neto, primeiro presidente de Angola. Foram reunidos meios artísticos, concedidos meios, fornecidos materiais de construção. Ignorando todas as críticas sobre a utilidade dos gastos, a nossa embaixada defendia afincadamente a ideia da construção. Em geral, é própria dos africanos (muitas vezes) a gigantomania à custa do alheio. Neste caso, a embaixada deixou-se claramente levar pelos angolanos. A esperança de que as despesas fossem compensadas era nula. Não sei como terminou a “estória do Memorial”, nem qual é a dívida actual de Angola à Rússia(sic)”.

A dívida da Rússia, é só perguntar ao Gaydamack, ao Falcone ou mesmo a José Eduardo dos Santos, eles sabem, mas quanto ao preço do Memorial, sabemos nós! Numa das nossas edição mostrámos como se pagou cerca de um bilião de dólares, digamos o preço de um “Ferrari” arquitectural, por uma espécie de pénis astronómico de 120 metros de altura, vazio por dentro, (o recheio, luxuoso, está todo nas suas dependências no rés-do-chão e no primeiro e único andar!), por aquilo que não é mais do que um Toyota “Galinha Rija”, comparado com Burj Kalifa de Dubai, um edifício monstro de 829,9 metros de altura, o mais alto do muno, mobilado e adornado desde as caves até ao 120º andar, cujo preço de construção anda à volta de 4,5 biliões de dólares!

Em suma, o Mausoléu, com todo o respeito que nos inspira a sua grandeza, pelo preço pago pela sua construção, é uma paródia de empreitada altamente “gasosificada” ao longo de 30 anos!

Partilhe este Artigo