MULHERES (AFRICANAS) PARA TODOS OS GOSTOS

A participação na luta pela independência em África abriu as portas do poder a mulheres como a angolana Maria Mambo Café e a moçambicana Graça Machel, defende a historiadora britânica Paula Bartley.

As duas lusófonas estão entre as mulheres de 41 países retratadas no livro “Trailblazers: The First Women Elected to Government” (Pioneiras: As primeiras mulheres a serem eleitas para o Governo), publicado recentemente no Reino Unido.

“Se olharmos para o curso da história, vemos que, até à década de 1950, eram sobretudo as nações europeias de etnia branca que elegiam mulheres. Porquê? Porque a maioria dos outros países era governada por governos coloniais”, relata à agência Lusa.

Só depois da descolonização e independência é que países como Angola, Moçambique ou África do Sul puderam eleger os seus parlamentos e formar governos.

O convite a mulheres como Maria Mambo Café, Graça Machel e a sul-africana Winnie Mandela para integrarem os primeiros executivos foi a “recompensa” pelo envolvimento nos movimentos de luta pela independência.

“Portanto, é a descolonização que faz com que haja toda uma série de países africanos diferentes – mencionei apenas alguns no meu livro que obtiveram a independência – onde temos mulheres a entrar no Parlamento pela primeira vez”, acrescenta.

Bartley confessa que Graça Machel, que foi ministra da Educação de Moçambique e continua a ser activista pelos direitos das crianças e das mulheres, é uma das suas “heroínas”.

“Acho que é uma mulher absolutamente maravilhosa. E continua a lutar por questões internacionais, pela justiça, especialmente em prol das crianças que foram envolvidas em grupos de mercenários. É fantástica. E é incorruptível”, diz.

Já a economista angolana Maria Mambo Café tem uma história mais controversa. Durante uma década, entre  1977 e 1987, foi ministra de várias pastas e chegou a vice-primeira ministra.

Mas, ao longo deste período, também acumulou uma grande fortuna, levantando suspeitas de corrupção e desvio de fundos.

“Ela acumulou tanta riqueza. Era a mulher mais rica do país. Não era rica quando entrou no Parlamento”, comenta a historiadora, que lamenta: “A corrupção é endémica em muitos países, e penso que foi infelizmente isso que aconteceu em Angola”.

A “historiadora feminista” escreveu o livro focado no século XX e admite que teve de selecionar os países incluídos na obra por uma questão de espaço.

Além da Finlândia, Rússia, Estados Unidos ou Canadá, também incluiu Afeganistão, Bahamas, Zâmbia, Iraque ou Tuvalu.

Do Reino Unido, destacou Constance Markievicz, a primeira mulher a ser eleita para o parlamento britânico, apesar de ter estado presa por traição, porque lutou pela independência da Irlanda.

“Sempre achei isto incrivelmente surpreendente, tendo em conta o movimento sufragista que antecedeu a Primeira Guerra Mundial”, refere, lembrando que nenhuma das activistas foi eleita imediatamente.

Outra das suas figuras favoritas é a húngara Margit Slachta, uma freira católica feminista e a primeira a ser eleita para o parlamento do país.

“Ela tentou introduzir políticas feministas, mas eles não gostaram e mandaram-na embora. Ela voltou a ser freira e salvou milhares de judeus húngaros, ao emitir certidões de batismo falsas e providenciar um refúgio seguro no seu convento”, conta.

Nas curtas biografias, explica, tentou juntar o pessoal ao político, procurando tornar o livro “mais acessível, para atrair as mulheres jovens para a política”.

A historiadora espera inspirar mais pessoas a fazer carreira política, mas confessa que a perspetiva não a atrai devido às pressões e riscos que correm, incluindo de morte.

“Só espero que as pessoas não me deem ouvidos neste momento, mas que, na verdade, leiam o livro e pensem: ‘Estas mulheres surpreendentes, arriscaram as suas vidas, a ser torturadas, a ser presas, ao exílio, e isso aconteceu porque acreditavam na democracia’”, conclui.

Entretanto, segundo a Forbes, seis africanas constam entre as 100 mulheres mais poderosas do mundo em 2025. As seis mulheres africanas cujas conquistas estão a transformar o continente e o mundo, são:

Mary Vilakazi (África do Sul) é uma das principais executivas financeiras da África do Sul. Iniciou sua carreira na PwC, tornando-se uma das sócias mais jovens aos 27 anos, e posteriormente actuou como directora financeira do Grupo de Serviços Minerais.

Ingressou no FirstRand em 2018 como directora de operações do grupo e a 1 de Abril de 2024, tornou-se a primeira mulher e a primeira mulher negra a liderar o FirstRand Group, a maior empresa de serviços financeiros da África do Sul em valor de mercado.

Judith Suminwa Tuluka (República Democrática do Congo) tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeira-Ministra da República Democrática do Congo em Junho de 2024. Ex-funcionária do PNUD e economista, actuou anteriormente como ministra de Estado e Planeamento. A sua experiência abrange finanças públicas, orçamento, avaliação de programas e coordenação nacional.

Em 21 de Março de 2025, Netumbo Nandi-Ndaitwah (Namíbia) tomou posse como a primeira mulher presidente da Namíbia. Política veterana e ex-vice-presidente, ocupou cargos importantes no governo, incluindo o de ministra das Relações Exteriores e do Meio Ambiente. Desde que assumiu o cargo, ela tem se empenhado em reduzir a dívida do país e fortalecer as políticas nacionais.

Mpumi Madisa (África do Sula) é a primeira mulher negra a liderar uma empresa listada entre as 40 maiores da Bolsa de Valores de Joanesburgo. Assumiu o cargo de CEO da Bidvest em Outubro de 2020, após ascender em diversas funções nas áreas de vendas, marketing e assuntos corporativos. Sob sua liderança, a Bidvest expandiu-se globalmente, recuperou a lucratividade e administra cerca de 130.000 funcionários.

Ngozi Okonjo-Iweala (Nigéria), uma das economistas mais renomadas do mundo, actuou como captadora de recursos para o Banco Mundial, presidente da Gavi e copresidente da Comissão Global sobre Economia e Clima. Em 1 de Março de 2021, tornou-se a primeira mulher e a primeira africana a liderar a Organização Mundial do Comércio, sendo reconduzida ao cargo para um segundo mandato em 2024.

Mo Abudu (Nigéria) é uma empresária nigeriana do ramo da mídia e fundadora da EbonyLife Media, que molda a narrativa africana globalmente. Em 2025, a revista TIME a nomeou uma das “100 pessoas mais influentes do mundo”. Recentemente, lançou o Afro Film Fund, uma iniciativa para produzir filmes e séries de origem africana, e expandiu sua marca para o Reino Unido com o EbonyLife Place London.

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