TRÊS VISITAS PAPAIS, UM REGIME E UM POVO MISERAVELMENTE CRISTÃO

Para aqueles que acreditam no poder do Espírito, como eu, há razões para dizer que Angola é um país abençoado por Deus. Mas de que Deus estamos a falar? Creio que receber a visita de três papas em cinquenta anos é uma bênção para um povo cristão e para as autoridades que têm fé e sabem ouvir. Mas é preciso reconhecer que o partido e o regime que governam Angola desde a sua independência, em 1975, há meio século, não acreditam no Deus…. do Vaticano.

Por Osvaldo Franque Buela (*)

João Paulo II foi o primeiro papa a visitar Angola em 1992 e veio num momento que descreveria como de esperança frágil, logo após os acordos de paz e antes das primeiras eleições. Infelizmente, ninguém acreditou nem prestou atenção na sua mensagem e pouco depois da sua partida, o país mergulhou novamente numa guerra civil ainda mais violenta. Foi uma visita de intercessão.

Bento XVI veio em Angola em 2009, o país estava em plena reconstrução pós-guerra e vivia o “boom” do petróleo. O foco do regime era a justiça social, o combate à pobreza extrema e a consolidação da paz, e era um objectivo que coincidia com a mensagem do Papa, embora o regime, infelizmente, tivesse encetado uma corrida pela acumulação primitiva de capital e pela eliminação de Joanas Savimbi a todo o custo, ofereceu-nos exactamente o contrário mas, de uma perspectiva histórica, foi uma visita de exortação.

Desta vez, o Papa Leão XIV chega numa altura em que a paz militar está quase consolidada, mas, tal como em 1992, a paz de espírito está longe de ser uma conquista social, a educação é de má qualidade, o clima político é extremamente tenso, os recursos do país estão a ser desperdiçados e há miséria generalizada em todas as famílias, excepto nas da elite.

Papa Leão XIV acaba de dirigir uma mensagem a toda a nação; será que as autoridades o vão ouvir?

Para alguns observadores políticos astutos, a mensagem do Papa, que terá ressonância entre os jovens e as populações empobrecidas, não terá o mesmo efeito sobre as autoridades do regime autoritário e incompetente do MPLA, dado que conhecemos algumas das respostas de João Lourenço às questões inteligentemente levantadas pelo Papa.

No seu primeiro discurso às autoridades e à sociedade civil, o Papa denunciou a “lógica da exploração” dos abundantes recursos naturais da região, em particular os diamantes e o petróleo. Falou da riqueza material que poderosos interesses apropriam, inclusive dentro do próprio país. “Quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais são provocadas por esta lógica de exploração!”, exclamou. “Mas, depois da poderosa mão dos estrangeiros sobre as nossas riquezas, o próximo grupo a apropriar-se dos recursos são as elites do regime do MPLA, e têm-no feito com total impunidade há cinquenta anos.”

O Papa exortou ainda as autoridades do país a acreditarem na diversidade e na riqueza do seu país, dominado pelo mesmo partido no poder, o MPLA, desde a independência em 1975, e onde os jovens com menos de 24 anos representam dois terços da população. Acrescentou: “Não tenham medo da dissidência, não sufoquem as visões dos jovens e os sonhos dos mais velhos”. Mas quem não sabe que o regime teme a dissidência, que considera e trata como inimiga? A única visão dos jovens que por vezes tenta concretizar, através da corrupção das consciências, é a da juventude lisonjeira do MPLA. E os sonhos dos mais velhos que importam a Lourenço são os sonhos dos anciãos do MPLA que lhe são subservientes e que o veneram num culto de personalidade.

O Papa pode dizer o que pensa, mas João Lourenço já nos deixou claro que a fome é relativa, que a pobreza e a corrupção são males importados e impostos pelo colonizador português, que herdou e pelos quais não é responsável. Mesmo para tentar erradicá-los, é preciso recorrer a especialistas estrangeiros, porque nem a voz do povo nem as propostas construtivas da oposição para melhorar o país contam.

Eleito em Maio de 2025, o chefe da Igreja Católica, até então mais discreto e comedido do que o seu antecessor, abandonou recentemente a sua contenção para adotar um estilo mais assertivo e direto em relação a líderes políticos mundiais, como Donald Trump.

Enquanto nos Camarões, no território separatista de Bamenda, o Papa Leão XIV se manifestou contra as injustiças sociais, atacando “aqueles que, em nome do lucro, continuam a apoderar-se do continente africano para o explorar e saquear”, ele não pisará a terra de Cabinda, ao contrário dos desejos do movimento independentista de Cabinda, a FLEC.

Contudo, os angolanos sentem como se Deus estivesse muito perto deles, acolheram-no de braços abertos.

A África agradece, Angola agradece e isto tem um significado imenso, mas após a sua partida, a realidade rapidamente nos alcançará a cada um no seu próprio canto, na sua própria miséria e com a sua própria cruz para carregar.

Para os cristãos de Cabinda, isto é vivido com grande frustração, e a sensação é como se Deus os tivesse ignorado, sem sequer olhar na sua direção. Mas é também uma questão de geopolítica, e acredito que um povo determinado a libertar-se nunca deve desistir, independentemente das circunstâncias ou da aparente ausência do olhar de Deus.

A união faz a força, e venceremos, pois a nossa causa é justa.
Que Deus abençoe o Papa pelas suas palavras em defesa dos oprimidos.

(*) Escritor pan-africanista, refugiado político em França.

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