O político angolano Raul Tati em declarações ao Folha 8, a propósito do marco histórico que pavimentou o caminho para a independência conquistada em 1975, o 4 de Fevereiro, fiz que há narrativas bastantes enviesadas e outras até marcadas por questões ideológicas dos próprios movimentos de libertação.
Por Laplaine Brito
Raul Tati diz que “às histórias que andamos a consumir nestes últimos tempos, desde há 50 anos de independência, é aquela contada pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA)”.
“Existem documentos, e até mesmo testemunhas deste acontecimento, que comprovam que o MPLA não tem autoria nenhuma. O partido no poder, naquela altura não era um movimento conhecido que tinha militantes prontos a participar do acto, e até diz se que como ninguém reivindicava aquele acontecimento, o partido a partir de Conacri, com Lúcio Lara entenderam que deveriam reivindicar a paternidade deste acto”.
“E deram-lhe toda essa importância como o principal acto de revolta dos angolanos contra a hegemonia português dando assim início à luta armada”, acrescentou.
Segundo Raul Tati, diz-se que foram patriotas angolanos que protagonizaram o acontecimento do 4 de Fevereiro, “e até mesmo os documentos, arquivos da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) e Direcção-Geral de Segurança (DGS), apontam o cónego Manuel das Neves como o mentor dos acontecimentos que se deram de 3 á 4 de Fevereiro de 1961”.
O político afirmou ainda que o 4 de Fevereiro foi um grande fiasco, “porque a reacção da polícia portuguesa foi brutal. Saudamos a coragem dos homens que decidiram avançar de peito aberto contra o exército português, mas a verdade é que foi um fiasco”, afirmou.
“O 15 de Março é de facto aquele acontecimento que teve o maior impacto, mas como isso estava ligado à UPA (FNLA), o MPLA entendeu ofuscar a data que nem sequer é feriado em Angola, e empurrou o 4 de Fevereiro. Nós aqui andamos a consumir uma história do MPLA”, explicou.
“É necessário despartidarizar a história, despolitizar a história e tirar essa carga ideológica que ganhou durante muito tempo, e deixar a história falar com os seus factos e com os seus protagonistas. É um trabalho importante que tem que se fazer, no sentido de se ir desconstruindo certas narrativas para deixar a história falar com os seus próprios factos. Pode levar tempo porque não é fácil”, concluiu Raul Tati.

