Por que razão escreveria um texto a tentar morder os calcanhares da dimensão de Nvunda Tonet? Coloco-me esta questão como a desafiar a grandeza de alguém que foi realmente grande.
Por António Quino
Jornal de Angola
Muito jovem, sereno, lúcido e equilibrado, parecia destinado a uma missão breve: repor humanidade onde ela escasseava, entrar em vidas alheias sem estrondo e reorganizar pacientemente os móveis psico emocionais da mente. Alguém que não se limitava a escutar, alguém que abre janelas numa casa abafada, permitindo que o ar fresco da esperança circule. Cada encontro com ele tornava-se reconstrução interior, cada palavra um tijolo na arquitetura emocional de quem o procurava.
Docente, psicólogo clínico e jornalista, foi sobretudo cultor da mente, comprometido com o seu tempo. Compreendeu que cultura não é ornamento nem luxo, mas alimento da alma, ferramenta de consciência e instrumento de transformação social. Pensava, escrevia, partilhava e agia com essa convicção. No geral, os seus actos e gestos eram terapias silenciosas: um incentivo que funcionava como analgésico contra a dúvida, uma revisão de texto que se tornava exercício de rigor mental, um evento cultural que operava como catarse colectiva. O Nvunda Tonet sabia que a mente precisa de alimento tanto quanto o corpo, e que a cultura é esse sustento invisível que fortalece, equilibra e cura.
Evocar a sua memória é reconhecer que foi mais do que psicólogo, professor ou jornalista. Foi terapeuta da sua sociedade, alguém que diagnosticou carências de humanidade e prescreveu cultura, esperança e solidariedade como remédios. A sua vida foi clínica aberta ao mundo, onde cada consulta se transformava em tratamento e cada palavra em cura.
No jornalismo, herdado como tradição familiar — do chefe indígena William Tonet (pai) ao Paulo Tonet (tio) — encontrou forma privilegiada de intervir no espaço público. Não se limitou a observar: escreveu, incentivou, produziu e provocou reflexão. A sua palavra era firme sem ser agressiva, sensível sem ser ingénua. Nos textos, artigos, conversas e convites, havia sempre apelo à responsabilidade intelectual e ética. Quando me dizia “Tio Quino, não acha…”, abria porta para diálogos provocadores, herança de uma família que fez da palavra e da consciência crítica instrumentos de resistência e construção.
O Nvunda assim me tratava, “tio Quino”, talvez por nos conhecer-mos desde a sua adolescência, altura em que trabalhei primeiro como professor na escola do seu avô, o nacionalista Ngalula Tonet, e depois ao iniciar-me no jornalismo apadrinhado pelo seu pai, no Folha 8. Essa sua forma de diálogo respeitoso não era casual: era herança de uma família que fez da palavra e da consciência crítica instrumentos de resistência e de construção.
Boa semente
O percurso familiar é chave para compreender a densidade da sua vida. Cresceu entre histórias de luta e disciplina, onde o rigor da educação era prática quotidiana de dignidade. Transmitiram lhe que pensar é um acto de libertação. Ensinaram-lhe que a palavra pode ser arma contra a injustiça e ponte para a cidadania. Ensinaram-lhe a respeitar o próximo, mesmo nas discordâncias.
Esse entrecruzar de culturas, nomeadamente tradição nacionalista, vivência jornalística, formação académica e contacto com universos diversos, compôs-lhe uma matriz única. Da fusão nasceu o seu carácter: firme mas sereno, crítico mas generoso, disciplinado mas aberto ao diálogo. A missão que cumpriu (educar, curar, reconciliar) não foi improviso, mas consequência de linhagem que lhe deu ferramentas para transformar o mundo.
Como boa semente, o Nvunda foi cultivado em solo fértil de nacionalismo, cultura e rigor educativo, germinando em frutos de consciência e humanidade. Deixou embriões que ultrapassam o tempo imediato. Educar os filhos sem bater tornou-se manifesto pedagógico, referência educativa e de coragem num contexto ainda marcado pela normalização da violência.
Dialogava com engraxadores, roboteiros, motoqueiros, actores, encenadores, escritores, professores e jovens criadores, apoiando iniciativas, estimulando debates e abrindo caminhos. Nos palcos, nas universidades, nas revistas e nos grupos de What¬sapp, levava postura rara: humildade do saber aliada à generosidade de partilhar. Provocava com subtileza, conhecendo o caminho da reposição da harmonia. Mas provocava mesmo!
O Nvunda Tonet acreditava na educação como frente de combate, na psicologia como instrumento de cura e na cultura como ponte de reconciliação. Incentivava colegas, acolhia estudantes, revisava textos, organizava eventos e fazia da sua vida exercício permanente de esperança. Preocupava-se com as três refeições de cada angolano, mas também com a elevação estética, ética e espiritual da sociedade.
Foi boa semente. “A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a entende; este dá fruto e produz cem, sessenta e trinta por um” (Mateus 13:23). A sua vida foi precisamente isso: terra fértil onde germinaram frutos de justiça, cultura e solidariedade. Era, como no Salmo 1, “árvore plantada junto às águas, que dá fruto na estação própria e cuja folha não murcha”.
Cultura e Cura
Há vidas que se revelam como missões. A tradição teológica lembra-nos que Deus envia cada ser humano à Terra para cumprir um propósito: uns constroem, outros ensinam, outros curam. Há ainda aqueles que, como anjos bons, não se anunciam com trombetas nem se impõem com poder, mas deixam marcas silenciosas que nos tornam mais humanos no sentido mais profundo da palavra. São presenças discretas que iluminam, corrigem e reconciliam, como se fossem mediadores entre o divino e o quotidiano. A sua passagem não se mede em anos, mas na intensidade com que conseguem despertar consciência, cultivar esperança e semear humanidade.
A minha razão para morder os calcanhares da dimensão de Nvunda Tonet está encontrada no homem de cultura que ele foi. De um homem de cultura espera-se que seja guardião do conhecimento, mediador entre tradição e inovação, agente de transformação social. Não acumula saberes apenas: partilha os com humildade, inspira consciência crítica e promove dignidade humana através da educação, das artes e da palavra.
Entre a missão divina que confere sentido à vida e a vocação cultural que molda consciências, ergue se a figura de Nvunda Tonet como síntese rara. Ele foi desses enviados que, sem alarde, cumpriram a missão de botar átomos no projecto de humanizar o humano, tornando a esperança prática quotidiana e a cultura instrumento de cura. Também transformava. E transformava porque compreendia que a missão espiritual e a missão cultural se entrelaçam, pois ambas exigem humildade, ambas pedem entrega, ambas se realizam no serviço aos outros.
Assim, Nvunda Tonet mostrou que ser homem de cultura é também ser mensageiro de humanidade, mediador entre o divino e o quotidiano, guardião de uma missão que transcende o tempo e permanece como legado.
Espera se que a sua vida viva em nós fruto da consciência e humanidade capaz de nos elevar e timbrar marcas duradouras na memória colectiva. A sua voz, que se calou fisicamente, continuará a ecoar nos livros, nas aulas, nos palcos e nas consciências que tocou. A ausência dói, mas o legado permanece como chama acesa, exemplo e responsabilidade que nos cabe honrar.
Nvunda Tonet foi homem de cultura no sentido mais amplo. Participava activamente do espaço público como pensador, comentador e estimulador de debates. Nos media, nos auditórios, nos painéis e nas conversas informais, promovia diálogo, combatia o obscurantismo e defendia a educação como caminho estruturante da sociedade. Herdou a palavra crítica, mas construiu voz própria: serena, fundamentada e independente.
Há vidas que, mesmo interrompidas, continuam a palpitar no coração dos que ficaram. Nvunda Tonet não se apagou: transformou-se em presença difusa, memória que nos visita nos corredores da universidade, nas páginas dos jornais, nos palcos da cultura e nas conversas íntimas entre amigos. A sua ausência é paradoxalmente forma de presença, porque cada gesto deixou raízes que agora florescem em nós. É como se tivesse semeado humanidade em tantos terrenos que, mesmo sem ele, a colheita prossegue.
Neste momento de dor, é à família que se dirige o consolo: ao pai e à mãe, à esposa, às filhas, aos irmãos, aos tios e aos amigos que partilharam com Nvunda Tonet a intimidade dos dias. Que compreendam que ele partiu porque foi requisitado de volta ao céu, chamado para outra missão divina à qual, como sempre, não soube dizer não. A sua vida foi marcada pela entrega e pela obediência ao sentido maior da existência, e também agora, na partida, permanece fiel a esse chamamento.
É nesse prolongamento invisível que reside a sua eternidade: não no número de anos vividos, mas na intensidade com que soube tocar, curar e elevar os outros. A sua partida empobrece-nos: empobrece a academia, a psicologia, o debate público e uma geração inteira. Ficam livros, textos, aulas, ideias e debates, mas fica sobretudo a saudade de quem ainda tinha tanto por dar.
Enfim. Deus lá sabe o porquê, mas o Nvunda Tonet partiu cedo demais…

