JOÃO TALONE E O… MARCENEIRO!

O engenheiro João Talone (falecido em Junho de 2016), entre 1947 e 1972 esteve ligado à expansão da Indústria Cervejeira, quer à CUPF – Companhia União Fabril Portuense, hoje UNICER (Super Bock Group), e à CUCA (Companhia União de Cervejas de Angola), com Manuel Vinhas, líder do sector cervejeiro em Angola.

Por Orlando Castro

O meu pai, que esteve na construção da segunda fábrica da CUCA, em Nova Lisboa, e por lá ficou até 1975, citava muitas vezes João Talone, sobretudo quanto à equidade (igualdade, rectidão, imparcialidade, justiça e direitos de cada um) entre todos os trabalhadores…

Do meu conhecimento pessoal e dos diversos depoimentos recolhidos sobre o engenheiro João Talone ressalta a sua postura austera mas humana e a sua tese de que as empresas só avançavam se apostassem tudo no capital humano, no primado da competência e na equidade. Dizia até que qualquer indício de subserviência seria banido à nascença.

Manuel Vinhas contava que João Talone gostava de um bom contraditório e tinha um gosto especial em ouvir todas as opiniões, sobretudo as que fossem contrárias às suas. “Ele preferia ser salvo pela crítica do que assassinado pelo elogio”, contava Manuel Vinhas.

Procurei saber se as teses de João Talone terão feito escola na Super Bock Group. Fiz alguns contactos, com actuais e ex-trabalhadores do grupo, e para meu espanto (reconheço que esperava algo totalmente diferente) a conclusão é lapidar: Quando os dirigentes preferem ser assassinados pelo elogio do que salvos pela crítica, o que conta é a subserviência e não a competência.

Na altura da construção da CUCA de Nova Lisboa surgiu um problema. Acabara de chegar um “monstro” para a linha de enchimento e que tinha de ser levado para um piso superior ao nível do solo. Solução? Construir uma rampa em betão armado bem reforçado tal era o peso do “monstro”.

No entanto, construir a rampa em betão armado levaria vários dias, para além de ser uma obra que seria demolida logo a seguir. Foi então que João Talone mandou chamar o Loureiro, o marceneiro. Os outros engenheiros da CUCA, incrédulos, reagiram: Mas o Loureiro é simplesmente marceneiro, nem sequer é pedreiro.

Independentemente do cepticismo geral, chamaram o marceneiro. Colocaram-lhe o problema da rampa e pediram-lhe a sua opinião.

“O melhor mesmo é construir uma rampa em madeira, utilizando troncos de eucalipto como pilares de suporte. É uma obra rápida de fazer e segura. Depois de a máquina estar lá em cima, retira-se a madeira e o projecto continua”, disse o marceneiro.

E é seguro?, perguntarem alguns dos presentes. O Loureiro respondeu: “Mais seguro não há. Quando a máquina começar a subir eu vou para debaixo do tabuleiro…”

Fez-se silêncio. O Loureiro pediu licença para se retirar. “Onde é que você vai? Temos uma rampa em madeira para construir. Comece a obra”, disse João Talone.

E assim aconteceu, com êxito total. A única diferença foi que o marceneiro não foi autorizado a ficar debaixo do tabuleiro durante a operação.

Formado em Engenharia pelo Instituto Superior Técnico, tendo concluído o mestrado em indústria cervejeira na Universidade de Lovaina, na Bélgica, a sua actividade como empresário está intimamente ligada à história do sector cervejeiro em Portugal através da CUFP – Companhia União Fabril Portuense, depois UNICER, onde exerceu funções de director técnico, administrador delegado e presidente do conselho de administração.

João Talone exerceu também funções de administrador executivo do Banco Português do Atlântico (BPA) entre 1972 e a nacionalização do mesmo, tendo a seu cargo a gestão das participadas industriais do banco.

Em 1976, e na sequência da nacionalização do sector cervejeiro, João Talone participou na Comissão de Reestruturação do Sector Cervejeiro, desligando-se da actividade cervejeira em Portugal, e passou a integrar a direcção da empresa Belga, Stella Artois, até 1979, onde foi o responsável pelo seu desenvolvimento internacional.

Foi administrador da SPI desde 1981, tendo transitado para o BPI, onde permaneceu até 2004. Regressou mais tarde, como conselheiro e a convite dos então accionistas, à CUFP/UNICER, onde foi presidente honorário.

Em Janeiro de 2006 foi agraciado pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, com a Grande Cruz da Ordem de Mérito Industrial.

No pós-guerra, a recomposição accionista, decorrente da compra de vários milhares de acções da CUFP por investidores ligados à Sociedade Central de Cervejas, traduziu-se no controlo da empresa pelo consórcio do Sul, com a entrada de novos administradores, como Augusto Seguro Ferreira e João Talone.

Porém, a estratégia dos novos accionistas respeitou a identidade regional da cervejeira portuense, ao mesmo tempo que investiu no seu desenvolvimento. No final dos anos 40 e na década seguinte, a Fábrica de Júlio Dinis sofreu profundas obras de expansão e reapetrechamento tecnológico, reflectindo-se no crescimento da produção e das vendas, o que permitiu direccionar investimentos para outros negócios, com participações expressivas em empresas vocacionadas para actividades industriais nas então colónias portuguesas de África.

Logo em 1949, a CUFP participou com 60% no capital da Cuca – Companhia União de Cervejas de Angola, cujas fábricas de cerveja de Luanda e de Nova Lisboa foram construídas sob a direcção técnica também de João Talone. Neste período, decorreram novos aumentos de capital: em 1952, duplicando para 10,2 mil contos, por incorporação de reservas; e, em 1962, para 20,4 mil contos.

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