A consultora Capital Economics considerou hoje que a Nigéria e Angola serão dois dos países que vão ser obrigados a desvalorizar as moedas, no seguimento da redução da actividade económica devido à pandemia da Covid-19. Por este andar, um dia destes o kwanza vai ser extinto ou… exonerado.

“P arece agora claro que a pandemia do novo coronavírus vai causar mais danos económicos do que aqueles que tínhamos previsto, quer globalmente, quer dentro de África”, escrevem os analistas numa actualização às previsões económicas para o continente.

Na actualização enviada aos clientes a Capital Economics nota que “a queda nas receitas de exportações e o sentimento pessimista sobre a evolução do preço das matérias-primas vão colocar pressão na política cambial, forçando Nigéria e Angola a desvalorizarem as suas moedas”.

Os analistas desta consultora britânica prevêem “uma redução do crescimento em toda a região, com a África do Sul e as economias dependentes do turismo, como as Ilhas Maurícias, por exemplo, a terem um declínio na produção este ano”.

A propagação do vírus, acrescentam, é influenciada pelas particularidades africanas: “Por um lado, os países africanos são menos urbanizados que os seus pares mais ricos na Europa ou na Ásia, onde a doença avançou mais depressa, e a população é mais jovem, mas por outro lado a maioria dos governos africanos não tem a capacidade administrativa para impor medidas restritivas do contacto social”.

Recorde-se, tal como Folha 8 revelou na terça-feira, que a Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA, na sigla em inglês) estima que Angola possa enfrentar uma quebra na actividade económica de 10,9% devido ao Covid-19 e aos preços baixos do petróleo.

De acordo com um relatório da UNECA essa recessão de 10,9% na actividade económica resulta também de uma quebra de 20% nas receitas petrolíferas, assumindo um preço médio do petróleo de 30 dólares durante o ano, a que se somam uma redução no turismo e nas actividades não petrolíferas.

“A situação na África Central é ainda pior do que no resto do continente porque infelizmente a percepção sobre a evolução económica, bem como a guerra de preços no petróleo, a que se junta uma queda do preço do petróleo de 60 para 30 dólares por barril, está a acontecer num ambiente em que vários países africanos já estão sob apoio do Fundo Monetário Internacional”, disse o director do departamento da UNECA para a África Central, António Pedro.

“Os nossos Estados-membros não terão o dinheiro de que precisam para reagir à pandemia, já que enfrentam um duplo perigo: por um lado são atacados pelo vírus e pelo abrandamento do crescimento económico, e depois não têm dinheiro para responder a um agravamento da situação da pandemia”, acrescentou o responsável.

Entretanto, os bispos católicos de Angola decidiram decretar a suspensão das celebrações comunitárias das missas e outras actividades da Igreja, nos próximos 15 dias, “diante da grave evolução” da pandemia do Covid-19.

A decisão entra em vigor este sábado e estende.se a “Missas semanais e dominicais, confissões, Via-sacra, retiros, peregrinações, visitas aos santuários, vigílias, ensaios de grupos corais, catequese e encontros de grupos e movimentos apostólicos tanto na Igreja como noutros locais”.

São suspensas, igualmente, as celebrações de funerais “com ajuntamento de fiéis”, bem como as aulas nas escolas católicas, creches e jardins de infância, além da Universidade Católica de Angola e nos Institutos Superiores Católicos.

Os bispos pedem que seja “mantido o regime de estrita quarentena nos seminários, internatos e casas de formação”.

As celebrações da Semana Santa vão acontecer, “em princípio”, à porta fechada, pelo que a Igreja Católica vai recorrer à rádio, televisão e redes sociais para a transmissão das celebrações.

Por outro lado, o cidadão chinês suspeito de estar infectado com o novo coronavírus morreu ontem, quinta-feira, no Hospital Geral de Benguela (HGB), disseram hoje fontes hospitalares.

O paciente, recentemente chegado da China, tal como confirmam as autoridades sanitárias, padecia de “pneumonia grave”.

Entretanto, a médica detida por ter divulgado um áudio a dizer que o teste ao paciente teria dado positivo, foi libertada sob medidas de coacção.

As suspeitas de coronavírus, alimentadas por “dificuldades respiratórias e gripe”, segundo médicos do HGB, foram desfeitas após os testes realizados em Luanda.

O director do Gabinete Provincial de Saúde, António Manuel Cabinda, reiterou, no rescaldo de uma visita ao cidadão, ao lado do governador Rui Falcão, que Benguela “não tem casos de coronavírus”.

“Todos os casos suspeitos, incluindo este (do chinês), deram negativo. O nosso sistema de vigilância epidemiológica está funcional”, assinala o também membro da comissão provincial que trata da prevenção. O cidadão morreu uma semana após ter dado entrada na maior unidade hospitalar da província.

Por outro lado, foi colocada em liberdade, ontem, sob termo de identidade e residência, a médica detida há três dias por ter divulgado, nas redes sociais, um áudio a confirmar um caso positivo de Covid-19.

Tal caso, conforme o áudio, é relativo precisamente ao chinês que acaba de falecer.

Manuela Adão, indiciada no crime de violação de segredo profissional, foi libertada após ter sido ouvida pelo Ministério Público, que aplicou a medida de coacção pessoal. O Sindicato Provincial dos Médicos denunciou “atropelos” e, ainda com a filiada em prisão, chegou a prometer manifestações e greve geral.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da Covid-19, já matou 10.080 pessoas, a maioria na Europa (4.932) e Ásia (3.431), segundo o último balanço.

Com 3.405 mortes, a Itália é o país mais afectado, à frente da China (3.248), o centro inicial de contágio, e do Irão (1.433).

Partilhe este artigo