Mais de um terço dos angolanos (Angola tem mais de 30 milhões de habitantes) ficaram privados de comida, água potável e assistência médica e medicamentosa, no ano passado, segundo um inquérito promovido pela organização Afrobarómetro. Nada de novo. Há 45 anos que os autóctones se habituaram a viver sem comer, sem ter assistência médica. Como nem todos têm acesso aos caixotes de lixo dos donos do país (o MPLA), muitos morreram.

No estudo, os autores sublinham que os dados deixam “a descoberto vulnerabilidades socioeconómicas profundas, que têm tornado extremamente penoso o cumprimento das medidas restritivas do estado de emergência, no âmbito das medidas de combate à Covid-19”.

Será caso, então, para agradecer à Covid-19 que veio mostrar o que muitos (o Folha 8 diz isso há 25 anos) dizem há décadas, sem que ninguém resolva a problema. Ou, melhor, resolvem a questão matando o mensageiro e varrendo a mensagem para debaixo do tapete dos gabinetes do Presidente do MPLA, do Presidente da República e do Titular do Poder Executivo.

De acordo com os dados recolhidos, mais de um terço de uma população total de 30 milhões sofreu situações de extrema pobreza, nos 12 meses anteriores ao estudo, ficando “muitas vezes” ou “sempre” privados de bens essenciais, incluindo salários ou outras formas de rendimentos.

O documento realça que Angola está a viver um longo período de estado de emergência, com isolamento social, desde o final de Março, para combater a propagação da pandemia e embora pareça haver um amplo acordo entre os decisores políticos e os cidadãos sobre a necessidade de se implementar estas medidas, o Governo e seus parceiros de desenvolvimento devem executar estratégias que possibilitem mitigar o impacto do cumprimento do confinamento pelas famílias mais carenciadas.

Em bom rigor, salvo alguns curtos períodos, o estado de emergência (que afecta sobretudo os nossos 20 milhões de pobres) não dura desde o final de Março. Já cá anda desde 11 de Novembro de 1975.

“Mais de um terço (35%) dos angolanos viveu em situação de “extrema pobreza” durante o ano anterior à pesquisa, o que significa que eles sofreram frequentemente com a escassez de alimentos, água potável, assistência médica e medicamentosa, combustível para cozinhar e de salário ou outros rendimentos”, aponta o estudo.

Reconheça-se, contudo, que para resolver esta catástrofe o Governo tem apostado em investimentos estratégicos que irão resolver a crise alimentar, a falta de estruturas de saúde, a falta de água etc.. Um bom exemplo é a construção de satélites!

Os dados apontam que aproximadamente a mesma proporção (34%) experimentou a “pobreza moderada” e apenas 7% relataram não ter vivido situações de escassez de bens essenciais, sendo as situações de “pobreza extrema” relatadas com maior frequência nas zonas rurais (46%, contra 30% nas áreas urbanas) e nas regiões leste (51%) e sul (41%).

No período em referência, indica o inquérito, mais de um terço dos angolanos (36%) ficou sem salários ou outros rendimentos “muitas vezes” ou “sempre” durante o ano anterior à pesquisa, além dos 32% que viveram esta situação “apenas uma ou duas vezes” ou “várias vezes”.

“Apenas um em cada quatro (26%) tiveram regularmente salários ou outros rendimentos”, refere o estudo, acrescentando que esta situação é mais comum nas áreas rurais (44%) do que nas cidades (38%) e é mais marcante na região centro (44%).

No que se refere à questão sobre alimentação, os dados apontam que dois terços (67%) dos angolanos ficaram sem comida suficiente pelo menos uma vez durante o ano de 2018, incluindo um em cada cinco (21%), que ficaram “muitas vezes” ou “sempre”, principalmente nas regiões leste (77%) e centro norte (70%).

Relativamente à assistência médica e medicamentosa, em 2018, cerca de oito (75%) em cada dez angolanos não beneficiaram dela, incluindo um terço (32%) que não tiveram atendimento médico “muitas vezes” ou “sempre”, destacando-se a região leste, com quase metade (45%) dos moradores sem esse direito a essa necessidade básica.

O primeiro inquérito de opinião pública em Angola da Afrobarómetro foi realizado junto de 2.400 angolanos adultos, entre 27 de Novembro e 27 de Dezembro de 2019, tendo uma margem de erro de cerca de dois pontos percentuais e um nível de confiança de 95%.

A Afrobarómetro é uma rede de pesquisa pan-africana e não partidária, que fornece dados quantitativos fiáveis sobre a vivência e avaliação dos africanos sobre a democracia, governação e qualidade de vida.

A organização já realizou sete rondas de pesquisas de opinião pública em 38 países, entre 1999 e 2018, estando a oitava ronda prevista em 35 países africanos, entre 2019/2020.

Por tudo o que se passa em Angola estamos, sinceramente, de acordo com as teses do antigo ministro da Defesa, figura de destaque na história do MPLA, empresário de sucesso em áreas que foram da banca ao imobiliário, hotelaria, jogos, diamantes etc., ex-governador do Huambo, de seu nome Kundy Paihama.

Se todos os angolanos que não são do MPLA levassem em conta as suas palavras, certamente que evitavam ter de comer peixe podre, fuba podre, e ter direito a 50 angolares e a porrada se refilarem.

Num dos seus (foram tantos) célebres e antológicos discursos, Kundy Paihama disse: “Não percam tempo a escutar as mensagens de promessas de certos políticos”, acrescentando: “Trabalhem para serem ricos”.

Esta frase fez com que muitos passassem a venerar Kundy Paihama. A tal ponto foi essa veneração que até se advoga a tese de que as verdades “paihamistas” deveriam, no mínimo, fazer parte das enciclopédias políticas das universidades angolanas e, porque não?, de todo o mundo civilizado.

Se tal tivesse acontecido evitava-se que o mundo continue a pensar que em Angola há pobres. “Durmo bem, como bem e o que restar no meu prato dou aos meus cães e não aos pobres”, afirmou há uns tempos o então ministro da Defesa do MPLA. Não, não há engano. Reflectindo a filosofia basilar do MPLA, Kundy Paihama disse exactamente isso: o que sobra não vai para os pobres, vai para os coitados dos cães.

Ora aí está. E por que não vai para os pobres?, perguntam os milhões que todos os dias passam fome. Não vai porque não há pobres em Angola. Simples. E se não há pobres, mas há cães…

“Eu semanalmente mando um avião para as minhas fazendas buscar duas cabeças de gado; uma para mim e filhos e outra para os cães”, explicou Kundy Paihama.

É claro que, embora reconhecendo a legitimidade que os cães de Kundy Paihama (bem como de todos os outros donos do país) têm para reivindicar uma boa alimentação, pensamos que os angolanos que são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome, não devem transformar-se em cães só para ter um prato de comida.

Embora tenham regressado pela mão do MPLA ao tempo do peixe podre, fuba podre, 50 angolares e porrada se refilarem, devem continuar a lutar pelo direito a, pelo menos, comer como os cães de Kundy Paihama… ou de João Lourenço.

Folha 8 com Lusa