A embaixada portuguesa em Angola vai oferecer, quarta-feira, às autoridades angolanas, uma quantidade de equipamento de protecção individual sanitário e medicamentos, no âmbito da comemoração do Dia de Portugal. Agradecemos. Numa altura em que as balas (versão brasileira para rebuçados) estão a matar… é simpático.

Segundo uma nota da Embaixada portuguesa, a entrega do material é uma “expressão da gratidão dos portugueses face ao país que tão bem os acolhe”. Em bom rigor, acolhe tão bem os estrangeiros. Mas essa é outra história.

O acto simbólico, que terá lugar na Escola Portuguesa, com a presença do embaixador português, Pedro Pessoa e Costa, acontece no momento difícil que o país atravessa, realçou a nota, diferente dos outros anos, em que se junta a comunidade portuguesa para comemorar.

Esta iniciativa, ressaltou o documento, resulta do esforço combinado de um conjunto alargado de empresas portuguesas e luso-angolanas presentes no mercado angolano, nos mais diversos sectores de actividade económica.

Há uns anos, as comemorações do Dia de Portugal ficaram marcadas por uma expressão de Cavaco Silva. O Presidente da República disse então que estava a comemorar o «Dia da Raça».

Essa expressão era utilizada no tempo do Estado Novo para assinalar o 10 de Junho que, depois, passou a ser designado como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

E por falar em “raça”, os portugueses europeus são uma espécie em crescimento, enquanto os portugueses africanos estão em vias de extinção. Ou seja, proliferam os que têm sempre a porta fechada, vão acabando os que sempre a tiveram aberta.

A grande diferença é que os portugueses europeus, os que sempre viverem em Portugal, sempre consideraram (quiçá com razão) que até prova em contrário, talvez por uma questão de “raça”, todos os estranhos são culpados.

Já os portugueses africanos (esses não é por uma questão de “raça”), parte dos que deram luz ao mundo, entendem que até prova em contrário todos os estranhos são inocentes.

Em África, os portugueses aprenderam a amar a diferença e com ela se multiplicarem. Aprenderam a ser solidários com o seu semelhante, fosse ele preto, castanho, amarelo ou vermelho. Aprenderam a fazer sua uma vivência que não estava nas suas raízes. E não tardou que as raízes de misturassem numa simbiose perfeita.

Na Europa, os portugueses aprenderam (aqui creimos que por uma questão de “raça”) a desconfiar da diferença e a neutralizá-la sempre que possível. Aprenderam a ser individualistas mesquinhos e a só aceitar a diferença como exemplo raro das coisas do demónio.

Com o re(in)gresso de milhares de portugueses africanos ao Portugal europeu, a situação alterou-se momentaneamente. Tão momentaneamente que hoje, 45 anos depois da debandada africana, quase se contam pelos dedos de uma mão os que ainda são portugueses africanos.

Isto é, muitos dos portugueses europeus que vieram para África tornaram-se facilmente africanos. No entanto, ao re(in)gressarem às origens, à “raça”, ressuscitaram a velha mesquinhez de um país virado para o umbigo, de um país de portas fechadas. Voltaram a ser apenas europeus.

Nessa mesma leva vieram muitos portugueses africanos nascidos em África. Esses não re(in)gressaram em coisa alguma. Mantiveram-se fiéis às suas raízes mas, é claro, tiveram (e ainda têm) de sobreviver. Apesar disso, só olham para o umbigo de vez em quando e as suas portas só estão meias fechadas.

Acresce que muitos destes acabaram por constituir vida em Portugal, muitos casando com portugueses europeus, com iguais de outra “raça”. Por força das circunstâncias, passaram a olhar mais vezes para o umbigo e a porta fechou-se quase completamente.

Chega-se assim aos filhos, nados e criados como “bons” portugueses europeus. Estes só olham para o umbigo e trancaram a porta. Por muito que o pai, ou mãe, lhes digam que até prova em contrário todos (brancos, pretos, amarelos, castanhos ou vermelhos) são inocentes, eles já pouco, ou nada, querem saber disso.

Por força das circunstâncias, os portugueses africanos diluíram-se no deserto europeu, foram colonizados e só resistem alguns malucos que, por força dos seus ideais, ainda acreditam que se o presente de Portugal está na Europa (se é que está) o futuro estará certamente em África.

A não ser que o apelo da “raça” acabe por vingar…

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