O presidente da UNITA, Adalberto da Costa Júnior, afirma que Portugal “foi usado” (provavelmente uma referência às monumentais lavandarias de Lisboa) por governantes angolanos e defendeu que o relacionamento recíproco entre os dois países poderia ser mais vantajoso do que é actualmente… soubesse Portugal manter aquilo que raramente considerou essencial: a equidistância.

Em declarações à Agência Lusa, Adalberto da Costa Júnior que viveu vários anos e se formou em Portugal, sobretudo na região do Porto, afirmou que a relação entre os dois países “nem sempre foi formatada por razões de valores”, existindo em algumas ocasiões um grande uso político.

“Embora pareça que Portugal tem sido beneficiado acho que também foi vítima, em determinada altura, do uso que os governantes angolanos fizeram desta especificidade portuguesa”, assinalou Adalberto da Costa Júnior.

Foi por Portugal que “passou boa parte da fuga de capitais” e o país foi usado como destino, ao nível bancário, de uma forma que deixou dúvidas sobre os benefícios daí resultantes, considerou o dirigente da UNITA, usando uma linguagem benevolente sobre a bajulação e servilismo da maioria dos governos lusos em relação ao MPLA.

“Alguma da decepção de hoje [de empresários em Angola] é consequência dessa realidade”, admitiu Adalberto da Costa Júnior, mais uma vez dourando a “pílula” das relações portugueses com o partido que governa Angola desde 1975.

O líder da UNITA lembrou o relacionamento e a proximidade histórica entre os dois países que faz com que Portugal não tenha “um competidor igual” apontando também os factores de identificação cultural, como a língua oficial angolana, mas também algumas dificuldades de uma relação que “nem sempre foi estável” e que foi sobretudo (dizemos nós) de manifesta subserviência perante o MPLA, partido a quem Portugal entregou Angola, violando todos os acordos assinados.

Adalberto da Costa Júnior entende que “o relacionamento que se tem hoje não é o que se poderia ter”, e que “com mais abrangência, com mais perspicácia” o relacionamento recíproco poderia ser muito mais vantajoso do que o de hoje.

E explica como: “Acabando com os interesses pequenos e olhando para os interesses grandes que são os dos cidadãos e os dos Estados”. No seu entender, os interesses partidários são limitativos e condicionam relações estáveis.

“Nós somos um país grande, com potencialidades extraordinárias que podiam oferecer ao mercado dos investidores portugueses oportunidades muito particulares que hoje não são reconhecidas”, vincou o dirigente do partido fundado por Jonas Savimbi, apontando os “riscos de investimento como um factor de afastamento.

Outros capítulos da bajulação portuguesa

Marcelo Rebelo de Sousa, presidente (nominalmente eleito) de Portugal encontrou-se no dia 5 de Agosto de 2016, no Brasil, com o vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, e com o ministro das Relações Exteriores de Angola, Georges Chikoti, e o embaixador de Angola no Brasil, Nelson Cosme.

Como se sabe e como, aliás, já aqui foi escrito, Marcelo Rebelo de Sousa é o político português mais habilitado (a par do primeiro-ministro António Costa) para não só cimentar como também alargar as relações de bajulação e servilismo com o regime de Angola. Marcelo sabe que – do ponto de vista oficial – Angola (ainda) é o MPLA, e que o MPLA (ainda) é Angola. Portanto… Siga a fanfarra.

Angola é, por exemplo, um dos países lusófonos com uma das maiores taxas de mortalidade infantil e materna e de gravidez na adolescência, segundo as Nações Unidas. Mas o que é que isso importa aos políticos portugueses? Importante é saber que o regime (com José Eduardo dos Santos ou João Lourenço) é um dos mais corruptos do mundo.

Aliás, muitos dos angolanos (70% da população vive na miséria) que raramente sabem o que é uma refeição, poderão certamente alimentar-se com o facto de terem assistido, ao vivo e a cores, ao beija-mão de Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e (quase) todos os outros políticos portugueses, ao “querido líder” Eduardo dos Santos e ao seu sucessor, João Lourenço.

Os pobres em Angola estão todos os dias a aumentar e a diminuir. Aumentam porque o desemprego aumenta, diminuem porque vão morrendo. Mas a verdade é que esses angolanos não contam para Marcelo Rebelo de Sousa, tal como não contam para António Costa, tal como não contaram para Passos Coelho ou José Sócrates, entre outros.

É claro que, segundo a bitola dos políticos portugueses, continua a haver bons e maus ditadores. Muammar Kadhafi passou a ser mau e Eduardo dos Santos também. Bastou para isso terem deixado o Poder.

Portugal continua de cócoras perante o regime esclavagista de Luanda, tal como estava em relação a Muammar Kadhafi que, citando José Sócrates, era “um líder carismático”. Talvez um dia Portugal chegue à conclusão de que não há jacarés vegetarianos.

Será que alguém vai perguntar a António Costa, Rui Rio, Assunção Cristas, Jerónimo de Sousa ou Cataria Martins, o que pensam dessa farsa a que se chama democracia e Estado de Direito em Angola? Não. Basta ver que, mesmo antes de ser declarado vencedor das “eleições” do dia 23 de Agosto de 2017, já João Lourenço era felicitado pelo Presidente da República de Portugal…

Certo será que, nesta matéria, os principais políticos portugueses continuam a pensar da mesma forma, dizendo todos que Angola nunca esteve tão bem, mesmo tendo 70% dos angolanos na miséria.

De facto, os portugueses só estão mal informados porque querem, ou porque têm interesses eventualmente legítimos mas pouco ortodoxos e muito menos humanitários.

Custa a crer, mas é verdade que os políticos portugueses fazem um esforço tremendo (certamente bem remunerado) para procurar legitimar o que se passa de mais errado com as autoridades angolanas, as tais que estão no poder desde 1975.

Portugal sempre submisso às ditaduras

No dia 27 de Novembro de 2015, o secretário-geral do MPLA, Julião Mateus Paulo “Dino Matrosse”, disse em entrevista/recado/encomenda à agência Lusa, esperar que o novo Governo socialista português “mantenha relações boas” entre os dois estados.

O dirigente angolano falava à margem da reunião anual da Internacional Socialista, em Luanda, encontro em que a comitiva portuguesa do PS foi aplaudida pelos restantes representantes da IS.

“As nossas relações entre povos, estados, não podem ser perturbadas, seja qual for a situação. Seja quem vier, quem estiver lá em Portugal a dirigir, nós teremos sempre as melhores relações com o Estado, Governo ou com o povo português”, afirmou Julião Mateus Paulo “Dino Matrosse”.

O então secretário-geral do MPLA, partido no poder em Angola desde 1975, sublinhou que as relações com o PS “nunca foram más”, apesar da acção de algumas “alas”, mas algo que “já pertence ao passado”.

“Nós não damos muita importância àquilo que dizem contra nós. O que nós queremos é que quem estiver em Portugal tenha e mantenha relações boas com Angola. Existem relações entre nós, até quase familiares”, insistiu o dirigente do MPLA.

“Que haja um ou outro a querer problemas com Angola, nós não ligámos muito. O que importa a Angola é manter as mesmas relações que tivemos desde a nossa independência com Portugal. Seja quem estiver lá no Governo, que mantenha as melhores relações connosco”, enfatizou.

Questionado sobre a preocupação que algumas figuras do regime angolano tinham demonstrado, publicamente, com a influência do Bloco de Esquerda, o secretário-geral do MPLA desvalorizou.

Em síntese, o MPLA quer que Portugal mantenha, ou aumente, o nível de bajulação ao “querido líder”, seja ele quem for. E isso aconteceu, acontecerá sempre. O Parlamento português tem, no caso das relações com o regime do MPLA, uma esmagadora maioria de invertebrados bajuladores. PSD, CDS, PS e PCP e agora também o BE fazem desse misto de sabujice e bajulação um modo de vida, uma forma de subsistência.

Folha 8 com Lusa

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