João Lourenço, Presidente da República (não nominalmente eleito), também Presidente do MPLA (partido no Poder há 44 anos) e Titular do Poder Executivo, condecorou hoje mais de 70 personalidades e instituições que – segundo a sua análise – se destacaram nos ramos das artes, cultura, ciência, empreendedorismo, desporto e activismo social.

No seu discurso, João Lourenço destacou a figura do jornalista e activista Rafael Marques como “alguém que desde muito cedo teve a coragem de se bater contra a corrupção crescente que acabou por se enraizar na nossa sociedade”.

Rafael Marques, que se manifestou agradecido pala distinção presidencial, assegurou que vai continuar a dar o seu melhor na luta contra a corrupção: “Continuaremos com este estímulo presidencial a ser mais acutilantes e a fazer melhor o nosso trabalho”.

João Lourenço reconheceu, no entanto, que “este reconhecimento tem leituras e reacções díspares a julgar pelos estereótipos criados ao longo do tempo quando a corrupção era encarada como algo normal em função de quem a praticava”.

Entretanto, ele disse sentir-se confortado ao “saber que encontrará da grande maioria da opinião pública nacional e internacional muita e melhor aceitação”.

Outra personalidade distinguida foi o jornalista e escritor Sousa Jamba, uma figura ligada à UNITA e que se manifestou “surpreso com a condecoração”.

O músico Eduardo Paim também fez parte da distinção presidencial, feita para assinalar mais um aniversário da Independência de Angola.

Entre outros condecorados estão a bióloga Adjany Costa, que recentemente venceu o prémio da ONU Jovens Campeões da Terra, os vencedores das medalhas de ouro de vela em África, a campeã africana de xadrez, Luzia Pires, os empresários Víctor Alves e Carlos Cunha e as cantoras Clara Monteiro e Lourdes Van-Dúnem, esta última a título póstumo.

Esta é a segunda vez que João Lourenço condecora “distintas” personalidades, entre civis e militares, a título póstumo e em vida, num gesto descrito como sendo de reconhecimento pelo seu contributo na conquista e preservação da independência nacional e da paz e democracia.

Na cerimónia de condecoração, o Chefe de Estado sublinhou que na luta contra a corrupção a garantia da vitória reside na unidade de acção entre as diferentes forças vivas da Nação.

No acto, que decorreu no Palácio Presidencial, João Lourenço afirmou que nenhuma instituição é suficientemente forte para sozinha vencer essa batalha, “nem o Executivo, nem os órgãos de investigação criminal, nem o Ministério Público, nem os órgãos da Justiça, se não tiverem o concurso da sociedade civil”.

Sublinhou também que, depois de difíceis anos do conflito armado e de reconhecimento a políticos e militares (do MPLA) que se distinguiam nas frentes de batalha, se homenageia um grupo de cidadãos que constitui exemplo aos que enveredam para o empreendedorismo, contribuindo para o aumento da produção nacional de bens e de serviços, assim como de empregos.

“Bravos são aqueles que ao invés de se lamentarem internamente das dificuldades existentes fazem delas oportunidades para vencer na vida, arregaçam as mangas e vão à luta pelo pão para as suas famílias sem dependerem necessariamente de um patrão”, salientou.

Para o Chefe de Estado, Angola está a mudar para melhor em muitos domínios, como o do respeito aos direitos e liberdades fundamentais do cidadão, combate ao nepotismo, à impunidade e à corrupção.

Enalteceu o papel de quem “desde muito cedo teve a coragem de se bater contra a corrupção crescente, que acabou por se enraizar na nossa sociedade porque a super-estrutura dava mau exemplo e, por isso, não tinha moral para combater o monstro que ela própria criou e do qual se alimentava”.

O Presidente João Lourenço admitiu a possibilidade deste reconhecimento vir a ter “leitura e reacções díspares, a julgar pelos estereótipos criados ao longo do tempo, quando a corrupção era encarada como algo normal” para quem a praticava e, acrescente-se, para quem lhe dava cobertura, como foi o caso do vice-presidente do MPLA e ministro da Defesa, de seu nome João Lourenço.

Alguém disse que “nós somos filhos e agentes de uma civilização milenária que tem vindo a elevar e converter os povos à concepção superior da própria vida, a fazer homens pelo domínio do espírito sobre a matéria, pelos domínios da razão sobre os instintos”.

Com a chegada (por escolha pessoal de José Eduardo dos Santos) de João Lourenço ao Poder, é razoável pensar que são cada vez mais os instintos e cada vez menos as razões. De um lado e do outro residem argumentos válidos, tão válidos quanto se sabe (é da História) que para os senhores do poder (hoje terroristas, amanhã heróis – ou ao contrário) o importante é a sociedade que tem de ser destruída e não aquela que tem de ser criada.

É isso que pensam ou pensaram, por exemplo, George W. Bush, Osama bin Laden, Saddan Hussein, Tony Blair, Robert Mwgabe e José Eduardo dos Santos. Aliás, G. Geffroy dizia pura e simplesmente que o importante é avançar por avançar, agir por agir, pois em qualquer dos casos alguns resultados hão-de aparecer.

Com João Lourenço hoje, tal como com José Eduardo dos Santos ontem, estão uma série de personalidades (ou personagens), nem todos de forma sincera. Talvez não seja o caso dos hoje condecorados mas é, com certeza, o caso de muitos outros que, com medo do cão raivoso, aceitaram (mesmo que contrariados) a ajuda do leão.

Quando se aperceberem (alguns já se aperceberam), o leão derrotou o cão e prepara-se para os comer a eles. Aliás, os homens de João Lourenço são especialistas em criar leões onde mais lhes convém.

O mesmo se aplica em relação aos agora chamados de marimbondos. Mas, como os instintos ultrapassam a razão, ambos estão convencidos que são donos e senhores da verdade absoluta. O confronto foi, é e será, por isso, inevitável.

Por inabilidade de João Lourenço, os agora marimbondos poderão não ter, hoje, a mesma capacidade “bélica” de outrora. Estão a ser humilhados. São as leis da razão? Não. São as leis dos instintos. Instintos que vão muito além das leis da sobrevivência. Entram claramente na lei da selva em que o mais forte é, durante algum tempo mas nunca durante todo o tempo, o grande vencedor.

É claro que, transitoriamente, alguns admitiram aliar-se a João Lourenço. Inclusive aceitam a corda fornecida pelo actual detentor do Poder mas, na melhor oportunidade, vão enforcar os seus “amigos” de agora, vão cuspir no prato que os alimenta. Foi, aliás, isso mesmo que fez João Lourenço.

Então? Então é preciso ir em frente. Sem medo. Olho por olho, dente por dente. No fim, o último a sair – cego e desdentado – que feche a porta e apague a luz…

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