A ex-eurodeputada, socialista e portuguesa, Ana Gomes afirma que vai apresentar na Justiça “todos os elementos” que possui, envolvendo as dúvidas que tem lançado à origem dos investimentos da empresária angolana Isabel dos Santos, caso seja levada a tribunal. “De dúvidas estão também cheios os socialistas portugueses quanto às razões que levam Ana Gomes a atacar Isabel dos Santos”, disse ao Folha 8 um ex-dirigente do PS.

Em entrevista à Lusa, a antiga diplomata portuguesa afirmou que mantém todas as acusações feitas recentemente e que já levaram o banco EuroBic a anunciar que a vai processar, por ter dito que a instituição faz parte de um esquema de “lavagem de dinheiro” envolvendo Isabel dos Santos.

A empresária angolana, por sua vez, entre várias críticas e acusações, afirmou que Ana Gomes não faz prova das denúncias que tem assumido publicamente e, se for caso de o assunto chegar a Tribunal, Isabel dos Santos poderá arrolar como testemunhas altos dignitários do próprio Partido Socialista que, apurou o Folha 8, já lhe manifestaram total disponibilidade para testemunhar.

“Eu mantenho tudo aquilo que disse. E disse que tenho fornecido a várias instâncias, europeias e nacionais, muita informação que deveria levar a questionar a idoneidade da senhora dona Isabel dos Santos”, afirmou Ana Gomes que, segundo outras fontes socialistas, “curiosamente se rendeu aos encantos de João Lourenço, branqueando facto de o actual Presidente ter sido vice-presidente do MPLA, ministro de José Eduardo dos Santos, ter sido escolhido pelo ex-Presidente e, inclusive, ter estado solidário – enquanto ministro – com as decisões que agora considera erradas e prejudiciais”.

Para Ana Gomes, a queixa anunciada pelo EuroBic, liderado por Teixeira dos Santos e no qual a empresária Isabel dos Santos é accionista principal (grupo angolano BIC), será uma forma de responder com os elementos que afirma possuir e que “só não vê quem não quer”.

Comentando estas declarações, um antigo deputado socialista garante que esta tese de “só não vê quem não quer” revela que Ana Gomes “não tem provas e se baseia na sua habitual estratégia de querer estar na ribalta – agora que o seu protagonismo tende a esfumar-se – a qualquer preço, mesmo que isso prejudique o seu próprio partido”.

“Aí eu terei o ensejo de responder em detalhe a uma e a outra nota [processo EuroBic e críticas de Isabel dos Santos]. Mas mantenho tudo o que disse”, afirmou a ex-eurodeputada socialista, que há vários anos crítica a liderança de José Eduardo dos Santos em Angola (Presidente da República entre 1979 e 2017) e pai de Isabel dos Santos e que agora se rendeu ao “novo” MPLA.

“Eu não estou nada preocupada com a senhora engenheira Isabel dos Santos. Eu estou, e desde há muito tempo, é preocupada com as facilidades e as cumplicidades que a senhora engenheira encontrou para investir em Portugal”, com “dinheiro que obviamente pertencia, pertence, ao povo angolano”, disse ainda Ana Gomes

Em comunicado de 31 Outubro, o banco liderado por Teixeira dos Santos queixou-se das “afirmações e insinuações” de Ana Gomes, dias antes, na SIC Notícias, por lesarem o “bom-nome e a reputação do EuroBic, pelo que decidiu avançar com os “procedimentos judiciais adequados com vista à salvaguarda dos seus direitos”.

Para além de considerar as afirmações de Ana Gomes “falsas”, o banco apontou também como não verdadeiro que a socialista “tenha apresentado provas destas suas alegações, ao contrário do que referiu no mesmo programa”.

O EuroBic afirma que o que Ana Gomes apresentou foram apenas “cartas por si assinadas” sem sustentação probatória.

Essa mesma argumentação foi utilizada num extenso direito de resposta publicado por Isabel dos Santos, terça-feira, também no canal SIC Notícias, em resposta às posições de Ana Gomes, insistindo que as mesmas são feitas publicamente sem provas e sem o devido contexto, entre outras.

Na origem da polémica está a entrevista de Isabel dos Santos à Lusa, no dia 14 de Outubro, que então garantiu que as recorrentes dúvidas sobre a origem dos seus investimentos resultam da “narrativa negativa”, alegando que se tem endividado, para poder investir, sem recorrer ao erário público angolano. Acresce que o próprio Governo de João Lourenço se remeteu ao silêncio, não confirmando nem desmentindo a tese de Isabel dos Santos.

Questionada sobre as recorrentes dúvidas sobre a origem dos seus investimentos, Isabel dos Santos afirmou que está habituada a passar por complexos processos de avaliação de idoneidade, até tendo em conta as relações, nos negócios, com parceiros internacionais.

Enquanto afirma ficar a “aguardar os próximos capítulos” deste caso, Ana Gomes aponta ainda um processo que, no seu entender, não tem sido devidamente divulgado em Portugal. Recorda que “depois de um ano e meio de inquérito”, que incluiu convocatórias a Isabel dos Santos “a que ela entendeu nunca responder”, a Procuradoria-Geral da República de Angola instaurou-lhe um processo-crime, pela transferência de 38 milhões de dólares (34 milhões de euros) da Sonangol, concretizada após ter sido exonerada da presidência da petrolífera estatal angolana.

Na mesma entrevista, cinco dias antes de divulgado este processo-crime em Angola, a empresária angolana afirmou que aceitou liderar a Sonangol (numa decisão corroborada pelo Governo do seu pai, onde pontificava – acrescente-se – João Lourenço) porque era “preciso salvar” a petrolífera e não para “resolver problemas financeiros” seus ou da família, negando e provando com documentos ter ordenado qualquer transferência depois de afastada de funções.

De facto, na entrevista, Isabel dos Santos voltou a revelar a cópia de um comprovativo da ordem de pagamento para a transferência da Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol) a favor da Mater Business Solutions, nos Emiratos Árabes Unidos, efectivada com data de 15 de Novembro de 2017 e ordenada antes de ser exonerada.

“Eu acho que houve um aproveitamento e má-fé por parte do meu sucessor [na Sonangol, Carlos Saturnino – entretanto exonerado], que quis em algum momento, por razões muito próprias suas, eu acho que foram razões pessoais não foram razões empresariais, criar um clima de desconfiança sobre a anterior gestão”, criticou Isabel dos Santos, garantindo que apesar de efectivada naquele dia, a transferência internacional não foi imediata, tendo a ordem sido dada a “13 ou 14 de Novembro”, ficando em processamento até ao dia 15 de Novembro, dia em que foi afastada.

“E nós não tínhamos a mínima ideia que não haveríamos de continuar na Sonangol, e em que data seria dada ordem de exoneração. Aliás, fomos apanhados de surpresa. Não era de não esperar, porque sabíamos que talvez, possivelmente, teríamos perdido a confiança do accionista e que o novo Governo podia ter outros planos para a Sonangol”, recordou.

Em 28 de Fevereiro de 2018, Carlos Saturnino, então presidente do Conselho de Administração da Sonangol, denunciou a existência de uma transferência de 38 milhões de dólares (34,4 milhões de euros) feita pela administração cessante, liderada por Isabel dos Santos, após a sua exoneração.

Em causa naquela transferência, assegura Isabel dos Santos, estavam trabalhos de consultoria encomendados no âmbito da reestruturação da Sonangol.

Folha 8 com Lusa

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