Angola foi o país do sul de África com mais investimento estrangeiro directo de 2000 até 2016, de acordo com dados compilados pela União Africana (UA) e Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Resultado? É imperativo (neste caso para óbvio gáudio de actual Presidente do partido que nos governa há 43 anos) falar-se do aumento da pobreza (20 milhões de pobres) e das iniquidades e assimetrias sociais.

No período de 16 anos analisado no relatório “Dinâmicas do Desenvolvimento em África – Crescimento, Emprego e Desigualdade 2018″, Angola registou 40% de investimento médio em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB).

Este registo médio, obtido no período da Presidência de José Eduardo dos Santos, foi superior em cerca de três pontos percentuais ao do Lesoto, enquanto a Zâmbia aproximou-se dos 37% e o Botsuana teve pouco mais de 32%.

Conjuntamente com Zimbabué e Sudão, Angola atraiu o maior número de projectos de investimento directo da China, entre o conjunto dos 54 países africanos.

Moçambique ficou muito perto dos 30% de investimento médio estrangeiro de 2000 a 2016 em percentagem do PIB, no sul de África, sub-região dividida pela UA e que integra ainda África do Sul, Malaui, Namíbia, Suazilândia e Zimbabué.

Nesse período de 16 anos, o investimento externo directo representou 21.200 milhões de dólares (18.500 milhões de euros) em 2016, o que reflecte um crescimento face a 2009, em que se ficou por 6.900 milhões de dólares (6.000 milhões de euros).

O estudo da UA e OCDE, realizado em 2018 pela primeira vez, constatou que o conjunto de 10 países do sul de África enfrentou “uma prematura desindustrialização” desde 2000 até 2016.

O processo de eliminação ou redução da capacidade ou actividade da indústria, em especial a pesada ou transformadora, desceu de 18,2% em percentagem do PIB, em 2000, para 12,6% em 2016, no sul de África.

O relatório, que analisa as políticas de desenvolvimento no continente, considera o sul de África a região mais aberta ao comércio no continente, tendo evoluído de 48% em percentagem do PIB desde o início da década de 1990 até 65%, em 2016, uma média de crescimento de 3% por ano, enquanto todo o continente cresceu 4,2%.

Na região sul do continente africano, o PIB cresceu 5,2% entre 2000 e 2008, mas abrandou para 2,6% entre 2009 e 2016, “fortemente afectado pela volatilidade dos preços e do investimento” no sector da extracção do petróleo.

Desde 1990 até ao ano passado, o PIB per capita no conjunto de dez países do sul de África duplicou, com um aumento muito significativo a partir de 2000.

Em 1990, o valor do PIB per capita fixou-se em 3.491 milhões de dólares (2.900 milhões de euros), enquanto em 2000 foi de 3.910 milhões de dólares (3.400 milhões de euros), fechando 2018 com 7.067 milhões de dólares (6.100 milhões de euros).

O estudo “Dinâmicas do Desenvolvimento em África – Crescimento, Emprego e Desigualdade 2018″ foi elaborado pela primeira vez, com o propósito de abordar as relações entre crescimento, emprego e desigualdade em África e as implicações nos quadros estratégicos.

Mais há mais… para pior

De acordo com o mesmo estudo, África cresceu mais do que América Latina e Caribe entre 2000 e 2017, mas esse crescimento económico não proporcionou emprego suficiente, tendo aumentado a desigualdade.

Além de considerar que “os empregos de qualidade permanecem escassos”, o relatório aponta que o continente africano “experimentou fortes taxas de crescimento económico” no período analisado, com a média de 4,7% ao ano.

O relatório apresenta a América Latina e o Caribe com 2,8% de crescimento económico, enquanto o registo de desenvolvimento da Ásia (sem a China) superou pouco mais de 7%.

No continente africano, as razões do crescimento fundaram-se na “subida dos preços das matérias-primas, a melhoria da gestão macroeconómica e as estratégias para diversificar as economias”.

Realça ainda o estudo que “muitos países investiram fortemente em infra-estrutura pública” e que alguns “diversificaram também as suas parcerias comerciais, em particular com a China, a Índia e outros parceiros emergentes.

Apesar do crescimento, o estudo salienta a necessidade de os pouco mais de 50 países africanos “precisarem de fortalecer os impulsionadores de crescimento a longo prazo”, uma vez que o desenvolvimento económico “tem sido altamente volátil”, a despeito “do forte processo de acumulação de capital e da aquisição de novos parceiros comerciais”.

Por isso, apenas se prevê que “três nações africanas possam cumprir a meta de crescimento da Agenda 2063 [da UA] de 7% ao ano, no período de 2016/2020″.

A UA e a OCDE consideram que “os mercados globais e regionais oferecem novos caminhos para melhor crescimento” e preconizam que “a diversificação das exportações pode ajudar a África a melhor se integrar na economia global”.

Para isso, “os governos africanos podem fazer mais” para que as pequenas e médias empresas e os empreendedores possam “alcançar a produtividade global, especialmente através da construção de ligações industriais e do desenvolvimento de capacidade”.

Com “mais recursos financeiros mobilizados para os países em desenvolvimento”, os governos em África “podem melhorar as políticas fiscais, a recolha de receitas e aumentar a eficácia das políticas públicas”.

O estudo, que refere não ter o crescimento correspondido ao aumento de bem-estar no continente, salienta que “alguns governos podem não ser capazes de manter os actuais níveis de investimento público”.

No período de 2000 a 2017, a pobreza, avaliada no critério base de 1,9 dólares/dia (1,6 euros) por pessoa, reduziu em 42 países africanos, entre os quais São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique.

Apesar da descida de 15,9% em 2017, comparativamente com 2016, Moçambique apresenta ainda índice alto (68,7%) entre os países do sul de África, como Maláui (70,9%), Zâmbia (64,4%) e Lesoto (59,7%).

Folha 8 com Lusa

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