A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) lançou hoje um sistema internacional para lutar contra a desinformação na internet, as “fake news” (notícias falsas), que visa certificar os media que respeitam os critérios de integridade e de deontologia.

Em discussão há quase um ano, o sistema “Journalism Trust Initiative” (JTI), que significa iniciativa para a confiança no jornalismo, foi concebido pela RSF em conjunto com a Agence France-Presse (AFP), a União Europeia de Radiodifusão (UER ou Eurovisão) e a Rede Mundial de Editores (Global Editors Network, GEN).

“Actualmente, as informações falsas circulam mais rápido que as verdadeiras”, lamentou o secretário-geral da RSF, Christophe Deloire, insistindo na necessidade de “inverter esta lógica”.

Até agora, as iniciativas desenvolvidas para contrariar a multiplicação de desinformação e notícias falsas nas redes sociais têm assentado no “fact checking” (verificação de factos) ou na elaboração de “listas negras” de sites ou contas que difundem informações falsas, explicou Deloire, na conferência de imprensa de apresentação da nova iniciativa em Paris.

Iniciativas úteis mas insuficientes, considerou, sobretudo porque intervêm quando as “fake news” já foram difundidas.

Para combater o fenómeno a montante, a RSF propõe um sistema de auto-regulação que passa por estabelecer colectivamente normas de referência e permitir aos órgãos de comunicação que as respeitem acederem a uma certificação, um “rótulo”, atestando a sua fiabilidade.

As normas, a que estão associados indicadores, permitirão, por exemplo, medir a transparência de um órgão em termos de accionistas ou de financiamento, a existência de cartas editoriais, a aplicação dos princípios jornalísticos pela redacção ou a capacidade de reconhecer e corrigir os erros.

Um grupo de trabalho encarregado de redigir essas normas reúne-se pela primeira vez a 23 de Maio e começará por promover uma concertação aberta aos media, associações e sindicatos de jornalistas, entidades de auto-regulação, plataformas digitais, anunciantes e representantes de associações de consumidores.

Os trabalhos devem terminar em meados de 2019 e serão seguidos do lançamento de processos de certificação dos media que cumpram os critérios.

“É um trabalho colectivo e europeu”, mas “o objectivo é alargá-lo” além Europa, disse Deloire, citando especificamente os media norte-americanos.

Para a RSF, que não vai estar envolvida na definição das regras nem na certificação dos media, esta iniciativa vai permitir favorecer os media que trabalham de maneira transparente e fiável.

Concretamente, redes sociais como o Facebook ou o Twitter e motores de busca poderão utilizar a certificação para dar prioridade, através de algoritmos, aos conteúdos produzidos por media certificados.

“Neste momento, as plataformas não são capazes de fazer a distinção entre informações produzidas da maneira mais honesta possível e informações que respondem a uma lógica de interesses. É uma importante mudança de paradigma para o debate público. As plataformas são cegas, mesmo que com a melhor boa vontade, quando se trata de saber como os conteúdos foram produzidos. Foi nomeadamente a esta questão que quisemos responder”, disse Deloire, acrescentando que a Google aceitou participar na iniciativa.

Também para os anunciantes, que não querem ver-se negativamente associados a “fake news”, podem privilegiar os media certificados para as suas campanhas publicitárias, acrescentou, referindo também que a iniciativa recebeu o apoio da Federação Mundial de Anunciantes (WFA).

Lusa

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