É preciso inaugurar um galinheiro? O Presidente José Eduardo dos Santos inaugura. Uma casa de banho, um fontanário, uma árvore, um posto de saúde (já inaugurado duas ou três vezes), seja o que for. Vale tudo. É o estertor do regime e do seu “querido líder”. Só falta mesmo inaugurar os dias da semana…

Hoje da preenchida agenda de sua majestade constaram várias infra-estruturas públicas na província de Luanda, à semelhança do que já vem acontecendo desde o início do mês, abrilhantando as cores da campanha eleitoral do MPLA para as eleições gerais de quarta-feira.

Igualmente líder do MPLA, partido no poder desde 1975, e Titular do Poder Executivo, para além de pai de Isabel dos Santos, José Eduardo dos Santos não concorre às eleições gerais, não fazendo igualmente parte da lista de candidatos a deputados à Assembleia Nacional, mas não poderia deixar o seu fraco substituto, João Lourenço, entregue às feras da oposição.

No início deste mês, o chefe de Estado, em funções há 38 anos (sem nunca ter sido nominalmente eleito), inaugurou a central hidroeléctrica de Laúca, na província de Malanje, bem como lançou a primeira pedra para a construção do projecto hidroeléctrico de Caculo Cabaça, na província do Cuanza Norte.

Já esta terça-feira, José Eduardo dos Santos inaugurou o viaduto da avenida Deolinda Rodrigues, eixo viário que liga o centro de Luanda e o município de Viana, visando a melhoria do acesso ao futuro novo aeroporto internacional da capital e a mobilidade rodoviária.

Nesse mesmo dia, o Presidente procedeu ao acto simbólico de lançamento da construção da Escola Nacional D. Alexandre do Nascimento, a ser erguida na zona do Morro Bento, arredores de Luanda.

Na jornada de hoje, o chefe de Estado cessante, que completa este mês 75 anos, inaugurou o Centro Integrado de Formação Tecnológica (CINFOTEC), os sistemas viários Boavista/Sambizanga, do Camama e da Avenida Fidel Castro, todos com novos viadutos para melhoria do trânsito nessas zonas da capital angolana.

José Eduardo dos Santos fez também hoje a entrega das chaves de apartamentos a 12 famílias beneficiárias do Projecto de Reconversão Habitacional da Marconi, que deverá acolher 2.800 famílias, que vão ocupar 468 apartamentos, de um total de 74 edifícios, dos quais 30 já estão construídos, no distrito urbano do Sambizanga.

O novo edifício sede do Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social foi igualmente hoje inaugurado pelo Presidente angolano, uma infra-estrutura com 18 pisos, construída numa área de 18.400 metros quadrados, que vai albergar os serviços centrais daquele departamento ministerial e o Instituto Nacional de Segurança Social.

MPLA faz de todos nós meros matumbos

A consolidação da paz e da democracia, desenvolvimento humano e bem-estar dos angolanos, bem como a edificação de uma economia diversificada são os supostos objectivos do programa de governação eleitoral do MPLA, partido no poder desde 1975, para os próximos cinco anos.

Consta também que com o MPLA e com João “Malandro” Lourenço no comando do país (embora com supervisão do Presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos) os anos passarão a ter 12 meses, que os rios passarão a nascer na… nascente e a correr para o mar e que Angola se situará em África.

O Programa de Governo do MPLA, com vista às eleições gerais de quarta-feira, para o período 2017-2022, baseado em quatro eixos – Angola da Inclusão, do Progresso e das Oportunidades; Angola Democrática e Socialmente Justa; Angola da Governação Moderna, Competente e Transparente; Angola Segura, Soberana e com protagonismo Internacional – está a ser apresentado como uma obra-prima do mestre Eduardo dos Santos quando, de facto, é mais a prima-do-mestre de obras.

Aliás, o programa mostra que o MPLA continua a pensar que somos todos matumbos. E se calhar até tem razão. Veremos se dia 23 se confirma, ou não, esta tese dos donos deste país esclavagista e corrupto.

No discurso de abertura da apresentação deste programa de venda de banha da cobra, o vice-presidente do MPLA, general, ministro da Defesa e cabeça-de-lista às eleições, João “Malandro” Lourenço, disse que o foco para os próximos cinco anos de governação “continuará a ser o combate à fome e à pobreza e o aumento da qualidade de vida do povo angolano”.

Mas afinal há fome e pobreza em Angola, depois de quase 42 anos de governação do MPLA, de 38 anos de presidência de José Eduardo dos Santos, de 15 anos de paz total e de completa submissão dos partidos da suposta oposição?

Estranho, não? É claro que a culpa é, continua a ser, dos colonialistas portugueses e dos angolanos que ainda não se renderam à tese oficial de que o MPLA é Angola e Angola é o MPLA. É isso, não é sua majestade rei José Eduardo dos Santos? É isso, não é senhor candidato do MPLA, João Lourenço?

João Lourenço, que vai obviamente (nesta altura e no quadro da transparência eleitoral o MPLA até já saberá a percentagem da vitória) suceder ao Presidente José Eduardo dos Santos, apontou objectivos “muito claros” a atingir entre 2017 e 2022, nos domínios político, económico e social, nomeadamente a consolidação da paz e da democracia, a preservação da unidade e coesão nacional, o reforço da cidadania e construção de uma sociedade cada vez mais inclusiva, a concretização da reforma e modernização do Estado, entre outras.

Apesar de serem objectivos repetidos até à exaustão ao longo dos anos e nunca cumpridos, há sempre quem acredite. No entanto, na óptica do MPLA, nem é importante acreditar nem sequer votar. Isto porque, no quadro da transparência eleitoral, a tecnologia internacional ao serviço do regime é tão sofisticada que converte em votos para o MPLA todos os boletins necessários, pondo até os mortos a votar e conseguindo – como noutras eleições – que apareçam mais votos do que votantes.

No domínio económico, João Lourenço aponta o desenvolvimento sustentável, com inclusão económica e social e redução das desigualdades, edificação de uma economia diversificada, competitiva, inclusiva e sustentável. Por muito que isso lhes custe, o MPLA está prometer fazer em 2017 o que os portugueses já faziam em 1974. É obra.

No plano social, João “Malandro” Lourenço destaca a expansão do capital humano e a criação de oportunidades de emprego qualificado e remunerador para os angolanos. Boa! Isso significará que, nestes últimos 42 anos, o emprego não era qualificado nem remunerado? É mesmo isso. Mais ou menos ao estilo de peixe podre, fuba podre, panos ruins e porrada se refilarmos.

Garantir a soberania e integridade territorial de Angola e a segurança dos seus cidadãos, reforçar o papel de Angola no contexto internacional e regional e desenvolver de forma harmoniosa o território nacional, promovendo a descentralização e municipalização são outros dos objectivos referidos por um partido mentiroso que, bem vistas as coisas, só sabe untar o umbigo, estando-se nas tintas para os que são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com… fome.

Nas medidas de política, o capítulo da estabilidade macroeconómica e sustentabilidade das finanças públicas dá destaque ao combate à inflação, o alargamento, se necessário, da aplicação do regime de preços vigiados, em defesa dos consumidores, sobretudo das camadas mais vulneráveis. É preciso ter lata e não ter vergonha de, mais uma vez, pensar que todos nós somos matumbos de pai e mãe.

Orientar a política monetária, com medidas que permitam assegurar a variação da base monetária dentro dos níveis programados, a concessão de crédito pelos bancos aos sectores produtivos, em particular aos que promovam diversificação económica e a exportações, e a definição de uma nova política cambial, com base num regime de taxa de câmbio flexível controlada, visando alcançar equilíbrio no mercado cambial são algumas das estratégias constantes do programa. Deste programa como de qualquer outro, seja do MPLA, do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte ou do Partido Democrático da Guiné Equatorial.

No campo da promoção do desenvolvimento humano e bem-estar dos angolanos, o MPLA programou para os cidadãos a definição de uma Política Nacional da População, a valorização dos jovens e a sua inclusão na vida económica e social, a protecção dos grupos mais vulneráveis da população e a sua reintegração social e produtiva.

O partido no poder em Angola desde 1975, ano da independência do país, promete melhorar o bem-estar dos antigos combatentes e apoiar a reintegração sócio-económica de ex-militares, incrementar o nível do desenvolvimento humano dos angolanos, aumentando a esperança de vida à nascença e o seu acesso aos bens e serviços essenciais, melhorar e alargar o sistema de educação, bem como reduzir as assimetrias sociais e erradicar a fome.

No seu programa o MPLA toma como condição necessária para a reforma do Estado, o aprofundamento do processo de desenvolvimento de Angola, sublinhando que tem consciência que “um dos factores fundamentais para o sucesso das nações é o bom funcionamento das instituições”.

“Podemos ter muito boas estratégias, muito boas políticas, mas se as instituições não funcionarem devidamente, tudo o resto fracassará”, lê-se no ponto relativo à garantia da reforma do Estado, boa governação e combate à corrupção.

Por ser uma enorme enciclopédia de mentiras, o programa do MPLA não foi totalmente divulgado. Consta que o mesmo promete que, nos próximos cinco anos, os rios passarão a nascer na nascente e a desaguar na foz, que cada ano terá 12 meses, que cada dia terá 24 horas…

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