Perante o fiasco eleitoral da marioneta (João Lourenço) que escolheu para fazer o que lhe manda, José Eduardo dos Santos apareceu hoje, pela primeira vez em campanha, ao lado do cabeça-de-lista do MPLA às eleições gerais angolanas de quarta-feira, procurando passar a mensagem que o MPLA continua a ser Angola e que Angola continua a ser o MPLA. Marcaram presença também Marcolino Moco e Fernando Heitor.

Numa intervenção de poucos minutos, e depois de ambos entrarem lado a lado no comício que hoje encerra os grandes actos de massa da campanha eleitoral do regime/Estado/MPLA, José Eduardo dos Santos, chefe de Estado, Titular do Poder Executivo e presidente do partido, justificou a presença com o objectivo de “reiterar” o “apoio pessoal” a João Lourenço, a convicção na vitória eleitoral e apelando ao voto.

“Será eleito o próximo Presidente da República de Angola”, afirmou José Eduardo dos Santos, sobre João Lourenço, numa breve intervenção e não ficando na tribuna para assistir ao discurso que se seguiu do cabeça-de-lista e candidato à sua sucessão.

“É grande a responsabilidade que me colocam sobre os ombros”, disse, por seu turno, João Lourenço, na mesma intervenção, perante (segundo a Lusa) dezenas de milhares de pessoas, dirigindo-se ao chefe de Estado, desde 1979, e presidente do MPLA.

“Digam ao nosso líder que estamos com ele para sempre”, ouvia-se, pouco depois, pela voz do speaker de serviço, incentivado o público presente na zona do Camama, arredores de Luanda.

Após meses de especulações sobre a sucessão, o chefe de Estado e presidente do partido anunciou a 3 de Fevereiro de 2017, em reunião do Comité Central do MPLA, que não seria recandidato ao cargo nas eleições gerais deste ano, que entretanto convocou para 23 de Agosto, deixando assim o poder ao fim de 38 anos de um consulado para o qual nunca foi nominalmente eleito.

Nessa reunião, José Eduardo dos Santos anunciou que tinham sido aprovados pelo partido os nomes dos generais e ministros João Lourenço, para cabeça-de-lista do partido e concorrendo assim ao cargo de Presidente da República, e Bornito de Sousa, como número dois e candidato à eleição para vice-Presidente.

“A nossa marca de campanha estará no boletim de voto, como foi no passado: É a bandeira do MPLA e a cara do nosso candidato a Presidente da República. Estes símbolos devem ter uma grande divulgação no seio do povo, rumo à nossa vitória”, declarou ainda José Eduardo dos Santos, referindo-se a João Lourenço, também vice-presidente do partido, então oficializado como cabeça-de-lista.

Na pré-campanha que João Lourenço iniciou de seguida, ainda em Fevereiro e com ponto de partida no Lubango, província da Huíla, José Eduardo dos Santos não marcou presença em qualquer acto com o candidato do MPLA, o mesmo acontecendo na campanha eleitoral que já decorre desde 23 de Julho, com excepção deste comício

Desde 3 de Fevereiro, e por entre algumas deslocações a Barcelona, Espanha, onde segundo o ministro das Relações Exteriores, Georges Chikoti, recebe habitualmente tratamento médico, José Eduardo dos Santos não mais se referiu, publicamente e de qualquer forma a João Lourenço.

A única excepção aconteceu a 25 de Julho, apenas para o chefe de Estado conceder, por despacho, dispensa de serviço, enquanto ministros e candidatos a Presidente e vice-Presidente e conforme decorre da lei eleitoral, a João Lourenço e Bornito de Sousa.

Nem Marcolino Moco faltou…

E porque José Eduardo dos Santos estava presente neste comício, por lá apareceram velhos e novos convertidos ao regime, casos de Marcolino Moco (que certamente não vai novamente dizer que “caiu como um patinho”) e Fernando Heitor, um ex-UNITA que graças ao excelente olfacto que tem cheirou um novo tacho na mesa do MPLA.

O MPLA está no poder desde 1975 e por lá vai ficar. Com o poder absoluto que tem nas mãos (é também o presidente do MPLA e chefe do Governo), José Eduardo dos Santos foi/é um dos ditadores ou, na melhor das hipóteses, um presidente autocrático, há mais tempo em exercício.

Nada, mesmo nada, abona do ponto de vista democrático, humano e civilizacional a seu favor. Sabe todo o mundo, mas sobretudo e mais uma vez África, que se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. É o caso em Angola.

Só em ditadura, mesmo que legitimada pelos votos comprados a um povo que quase sempre pensa com a barriga (vazia) e não com a cabeça, é possível estar tantos anos no poder. Em qualquer estado de direito democrático tal não seria possível.

Aliás, e Angola não foge infelizmente à regra, África é um alfobre constante e habitual de conflitos armados porque a falta de democraticidade obriga a que a alternância política seja conquistada pela linguagem das armas. Há obviamente outras razões, mas quando se julga que eleições são só por si sinónimo de democracia está-se a caminhar para a ditadura.

Com Eduardo dos Santos passou-se exactamente isso. A guerra legitimou tudo o que se consegue imaginar de mau. Permitiu ao actual presidente perpetuar-se no poder, tal como como permitiu que a UNITA dissesse que essa era (e pelo que se vai vendo até parece que tinha razão) a única via para mudar de dono do país.

É claro que, é sempre assim nas ditaduras, o povo foi sempre e continua a ser (as eleições não alteraram a génese da ditadura, apenas a maquilharam) carne para canhão.

Por outro lado, a típica hipocrisia das grandes potências ocidentais, nomeadamente EUA e União Europeia, ajudou a dotar José Eduardo dos Santos com o rótulo de grande estadista. Rótulo que não corresponde ao produto. Essa opção estratégica de norte-americanos e europeus tem, reconheça-se, razão de ser sobretudo no âmbito económico.

É muito mais fácil negociar com um regime ditatorial do que com um que seja democrático. É muito mais fácil negociar com alguém que, à partida, se sabe que irá estar na cadeira do poder durante toda a vida, do que com alguém que pode ao fim de um par de anos ser substituído pela livre escolha popular.

É, como acontece com José Eduardo dos Santos, muito mais fácil negociar com o líder de um clã que representa quase 100 por cento do Produto Interno Bruto, do que com alguém que não seja dono do país mas apenas, como acontece nas democracias, representante temporário do povo soberano.

Bem visível no caso angolano é o facto de, como em qualquer outra ditadura, quanto mais se tem mais se quer ter, seja no país ou noutro qualquer sítio. Por muito pequeno que seja o ditador, o que não é o caso de José Eduardo dos Santo, a História mostra-nos que tem sempre apreciável fortuna espalhada pelo mundo, seja em bens imobiliários (como era tradição) ou mais modernamente nos paraísos fiscais.

Reconheça-se, entretanto, a estatura política de José Eduardo dos Santos, visível sobretudo a partir do momento em que deixou de poder contar com Jonas Savimbi como bode expiatório para tudo o que de mal se passava em Angola.

Desde 2002, o presidente de Angola tem conseguido fingir que democratiza o país e, mais do que isso, conseguiu (embora não por mérito seu mas, isso sim, por demérito da UNITA) domesticar completamente todos aqueles que lhe poderiam fazer frente.

Ninguém acredita que, até pelo facto de o país ter estado em guerra dezenas de anos, José Eduardo dos Santos tenha as mãos limpas de sangue. Aliás, nenhuma ditador com 38 anos de permanência seguida no poder, tem as mãos limpas.

Mas essa também não é uma preocupação. Quando se tem milhões, pouco importa como estão as mãos. Aliás, esses milhões servem também para branquear, para limpar, para transplantar, para comprar (quase) tudo e (quase) todos.

Tudo isto é possível com alguma facilidade quando se é dono de um país rico e, dessa forma, se consegue tudo o que se quer. E quando aparecem pessoas que não estão à venda mas incomodam e ameaçam o trono, há sempre forma de as fazer chocar com uma bala.

Acresce, e nisso os angolanos não são diferentes de qualquer outro povo, que continua válida a tese de que “se não consegues vencê-los junta-te a eles”. Não admira por isso que José Eduardo dos Santos tenha enquanto detentor do poder cada vez mais fiéis seguidores, sejam militares, políticos, empresários e até (supostos) jornalistas.

É claro que, enquanto isso, o Povo continua a ser gerado com fome, a nascer com fome, e a morrer pouco depois… com fome. E a fome, a miséria, as doenças, as assimetrias sociais são chagas imputáveis ao Poder. E quem está no poder há 38 anos é sempre o mesmo, José Eduardo dos Santos.

Até um dia, como é óbvio. E esse dia não é 23 de Agosto de 2017. Aí vão apenas mudar algumas moscas. Esse dia será quando José Eduardo dos Santos for julgado pelos crimes cometidos e quando Angola for o que nunca conseguiu ser nestes 42 anos: uma democracia e um Estado Direito e, a partir daí, decidir o que fazer com este ditador.

Folha 8 com Lusa

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