No novo álbum, Paulo Flores critica a falta de liberdade em Angola e põe o público a dançar e a pensar “sobre as coisas sérias do país”. E é bom que nos ponha a todos a pensar. A pensar pela nossa cabeça e não, como agora acontece, pela cabeça de sua majestade o rei de Angola, José Eduardo dos Santos.

O músico Paulo Flores lança amanhã, quarta-feira, o 15.º álbum da carreira, “Bolo de Aniversário”, imperando, ao lado de “temas mais dançantes”, a crítica política e social ao regime de Luanda, cujo “endurecimento da repressão” o surpreende.

Em declarações à agência Lusa, Paulo Flores, que apresenta em Portugal o novo disco num espectáculo a realizar no Casino Estoril, arredores de Lisboa, mostrou-se “preocupado” com o futuro de Angola, face à “postura de endurecimento” do regime e pelo “exagero nos atropelos aos Direitos Humanos” no país.

“Neste momento, fiquei um pouco surpreendido pelo endurecimento da postura (das autoridades angolanas). Numa altura em que se esperava que houvesse uma maior abertura e construção, com todos incluídos, acabo por perceber que endureceu-se bastante a posição e parece-me, pelo que sei e pelo que observo, um exagero e um atropelo aos direitos humanos. É preocupante e já falo nisso há algum tempo”, afirmou.

“Este tipo de postura não é tolerável. As pessoas consideram logo que estamos contra o próprio país. Isso deixa-me muito preocupado”, frisou Paulo Flores.

O músico angolano, natural de Cazenga, Luanda, onde nasceu a 1 de Julho de 1972 (43 anos), salienta que, ao criticar, nada mais faz do que “exercer a cidadania”, algo que, frisou, “nada tem a ver com partidos políticos”.

“Às vezes tenho de explicar às pessoas em Angola, que ficam muito chateadas comigo quando tomo certas posições ou escrevo certas músicas, que, para mim, no fundo, é exercer a minha cidadania, não tem rigorosamente nada a ver com partidos políticos”, sublinhou.

Lembrando que, no passado, tem defendido alterações ao regime – “defendi um país onde pensar diferente não seja um crime”, tal como no vídeo de apoio aos “revus” -, Paulo Flores insistiu na aposta de dar aos angolanos “maior acesso à informação, à educação e à memória”.

“Enquanto não houver esse interesse numa partilha que seja, de facto, efectiva para todos, vai ser muito difícil”, sustentou, defendendo também a necessidade de se dar, “de facto”, voz à sociedade civil.

Em relação a “Bolo de Aniversário”, o 15.º álbum da carreira, simboliza, disse, “um pouco o direito das pessoas celebrarem, de continuarem a ter esperança, apesar de todas as dificuldades”, pelo que é “mais festivo”, logo, “mais dançante”.

“Tem muitas músicas para dançar, mas voltando um pouco a uma receita que usava no início, que era pôr as pessoas a pensar e a falar sobre nós. Só conseguia passar a mensagem se dançassem primeiro (a música). Este disco tem um pouco essa abordagem, de dançarmos sobre coisas sérias do nosso país”, disse.

Para Paulo Flores, em Angola, muitas situações acabam por ser politizadas e muitas vezes é-se apanhado nesse meio.

“Mas a minha intenção é sempre criativa, falar das pessoas, da generosidade das pessoas, e da capacidade que têm. Quando falo da falta de acesso à educação, ou dos problemas mais básicos, a coisa acaba por se tornar, por vezes, política. Mas a intenção é sempre de contabilizar as pessoas, que, muitas vezes, são postas de parte”, sublinhou.

“Com o novo disco, pretendo obrigá-las a pensar e fazê-las sentir que têm esse direito. Espero que cada fatia desse “Bolo” seja um pouco um renovar de identidade, de carácter e de vontade de fazer parte de uma coisa que seja melhor para todos”, enfatizou.

Antes de “Bolo de Aniversário”, Paulo Flores lançou “Kapuete” (1988), “Sassasa” (1990), “Coração Farrapo e Cherry” (1991), “Brincadeira Tem Hora” (1993), “Inocente” (1995), “Perto do Fim” (1998), “Recompasso” “2001”, “Quintal do Semba” (2002), “Xé Povo” (2003), “The Best” (2003), “Ao Vivo” (2004), “Ex-combatentes” (2009), “Ex-combatentes Remix” (2012) e “O País Que Nasceu Meu Pai” (2013).

“Bolo de Aniversário” conta com 11 canções, com a participação de quase duas dezenas de músicos, entre angolanos, portugueses, brasileiros, cabo-verdianos e guineenses, e tem, disse Paulo Flores, “muitas influências do que se tocava no final dos anos 1980”, vindas do Haiti, Cuba, Congo, algumas kizombas, semba e afro mais electrónica.

“Uma mistura de estilos, mas todos mais dançantes”, concluiu, lembrando que o novo disco será apresentado, na íntegra, na primeira parte do espectáculo no Casino Estoril, com a segunda a relembrar “alguns dos êxitos” do passado.

Folha 8 com Lusa

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