Julho de 2012. Realizou-se, em Matosinhos (Porto), um Encontro Inter-Regional das Comunidades Angolanas Residentes nas Regiões Norte e Centro de Portugal. Foi uma iniciativa do Consulado Geral de Angola no Porto, tendo, segundo a Angop, participado mais de 1.200 pessoas.

Por Orlando Castro

Os organizadores disseram, entre outras coisas, que a realização do senso dos cidadãos angolanos residentes no estrangeiro iria permitir que “constem da estatística nacional e que o Governo faça um planeamento real e científico do desenvolvimento do país”.

Consultado, na altura, o site do Consulado organizador nada constava sobre o evento. Reconheçamos que isso também não era, como não é, importante. É que para se ser angolano é certamente preciso uma autorização especial de alguém, presumimos que do dono do país mediante proposta dos seus representantes em Portugal, no caso do Cônsul no Porto, Bento Salazar André, ou do Embaixador, José Marcos Barrica.

Mas a consulta ao site do Consulado, como se vê na imagem, até foi muito útil. Ficamos, por exemplo, a saber que a cidade do Huambo não é uma das principais cidades de Angola.

E não era, e não é, porque, calcula-se, foi lá que no dia 11 de Novembro de 1975 também a UNITA e a FNLA declararam uma outra independência. Ou será por ser uma zona em que há uma espécie menor de angolanos conhecida pelo regime como kwachas?

Também poderá ser porque, quando em Junho de 2009, o director-executivo do Comité Organizador do Campeonato Africano das Nações 2010 (COCAN) foi a Lisboa fazer a primeira apresentação da CAN 2010, lembrou que, “para quem conhece um pouco da história de Angola”, nos tempos dos portugueses “o Lubango era chamado de Nova Lisboa”.

Sem mais nem menos. António Mangueira, numa relevante demonstração dos seus conhecimentos da história de Angola, só faltou dizer que, se calhar, a cidade do Huambo era chamada para aí (deixa lá ver!) de Sá da Bandeira…

Este Encontro Inter-Regional das Comunidades Angolanas Residentes nas Regiões Norte e Centro de Portugal traz-nos à memória um episódio que data de 28 de Julho de 2007.

Nesse dia, na Faculdade de Economia do Porto realizou-se uma conferência sobre o processo eleitoral em Angola. Caetano de Sousa, presidente da Comissão Nacional Eleitoral (CNE), foi o orador principal do evento ao qual compareceram cerca de 200 angolanos de primeira e mais meia dúzia de segunda.

Com uma hora de atraso, o encontro começou com o aplauso da assistência à entrada do então Embaixador de Angola, Assunção Afonso Sousa dos Anjos, bem como das cônsules em Lisboa e no Porto, respectivamente Elisabeth Simbrão e Maria de Jesus dos Reis Ferreira, e ao orador convidado.

Por deficiências sonoras, que nada preocuparam a assistência, pouco se percebeu do que disse o Embaixador ou do que afirmou Caetano de Sousa. Também é certo que, diga-se em abono da verdade, abandonamos a sessão no início da intervenção do presidente da CNE.

E abandonamos a sessão porque descobrimos que, afinal, o nosso lugar não era ali. E descobrimos isso graças à oportuna explicação de gente ligada à organização, presumimos que do Consulado no Porto.

Explicamos. No meio dos tais 200 cidadãos presentes estavam pouco mais de meia dúzia de brancos, mesmo contando com o nosso velho amigo Ricardo Pereira que ali se encontrava a fotografar ao serviço do Consulado.

Durante a sessão, algumas pessoas foram distribuindo pela assistência um pequeno papel que, tempos depois recolhiam. Presumimos que se tratava de perguntas sobre o processo eleitoral e destinadas aos oradores.

Reparamos (talvez por deficiência profissional) que esses papéis não eram entregues aos cidadãos brancos que, se não eram angolanos eram, pelo menos, amigos de Angola. Não cremos que estivessem ali como penetras apenas para o faustoso beberete que estava a ser montado para o fim da festa.

Interpelamos então uma das pessoas que distribuía os ditos papéis, perguntando-lhe se não tínhamos direito a um deles.

A resposta foi clara e inequívoca:

“- Isto é só para angolanos”.

A tradução desta afirmação é fácil, já que nenhum dos 200 cidadãos presentes trazia qualquer rótulo a dizer: “Sou angolano”. Ou seja, queria dizer: “Isto é só para angolanos negros” ou, talvez”, “para nós os brancos não são angolanos”.

Assim sendo, e porque éramos angolanos… mas brancos, não tivemos outro remédio que não fosse abandonar a sala. Tristes, é certo. Magoados, é claro. Mas como nada podíamos fazer quanto ao local de nascimento, ao país que amamos, e muito menos quanto à nossa cor, a solução foi irmos embora.

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