A Guiné-Bissau está a receber cerca de mil refugiados por dia, em fuga da Gâmbia, disse hoje Ayigan Kossi, coordenador humanitário do sistema das Nações Unidas em solo guineense: “Não há pontos de concentração, estão todos a distribuir-se por casas de familiares e amigos, mas há uma sobrecarga destes agregados familiares que requer apoios, nomeadamente ao nível da alimentação”.

A crise na Gâmbia começou em Dezembro, depois de o Presidente Yahya Jammeh (foto) rejeitar os resultados eleitorais, e desde essa altura entraram na Guiné-Bissau 4.300 refugiados (a maioria mulheres e crianças), 3.300 dos quais esta semana, entre domingo e quarta-feira, de acordo com dados das Nações Unidas.

A Guiné-Bissau fica cerca de 100 quilómetros a sul da Gâmbia, com o Senegal pelo meio, havendo relações históricas entre a população dos dois países, parte da qual partilha raízes étnicas, caso dos flupes e djolas, cimentando redes familiares e de amizade.

O governo da Guiné-Bissau solicitou oficialmente a colaboração dos parceiros internacionais e foi constituída uma comissão técnica que junta todas as organizações para avaliar as necessidades e mobilizar recursos.

Tibna Na Uana, secretário-executivo da Comissão Nacional de Refugiados, considera ser urgente “a entrega de alimentos” às famílias de acolhimento, para poderem suportar este fluxo nas próximas semanas, sem que haja necessidade de criar campos de refugiados.

“Um agregado familiar guineense tem cinco a seis pessoas, mas na quarta-feira visitamos um que agora está a tomar conta de 22 crianças da Gâmbia”, exemplificou Ayigan Kossi para ilustrar a necessidade de apoios.

O sistema das Nações Unidas prevê que nas próximas quatro a cinco semanas a Guiné-Bissau possa receber mais cinco a 10 mil refugiados, “tudo depende de como evoluir a situação”, acrescenta – mas é esta estimativa que está em cima da mesa da comissão técnica que vai mobilizar recursos.

Kossi destaca também a necessidade de haver tradutores, uma vez que os refugiados falam sobretudo inglês, língua oficial da Gâmbia, mas praticamente desconhecida na Guiné-Bissau.

Adama Barrow, Presidente eleito da Gâmbia, venceu as presidenciais de Dezembro, mas o presidente Yahya Jammeh, no poder há mais de duas décadas, recusa abandonar o cargo e pediu ao Supremo Tribunal a anulação das eleições, alegando irregularidades.

O mandato de Jammeh expirou à meia-noite e tropas do Senegal e de outros países da África Ocidental estão posicionadas nas fronteiras da Gâmbia (um enclave no território do Senegal com acesso ao oceano Atlântico) com a intenção de forçar o presidente cessante a ceder o poder.

Na terça-feira à noite, o Parlamento da Gâmbia aprovou o estado de emergência declarado no mesmo dia por Jammeh, autorizando-o a ficar mais três meses no poder.

A 1 de Dezembro, depois de contados os votos das eleições presidenciais, o mundo ouviu com surpresa Yahya Jammeh dizer que aceitava a derrota nas urnas, depois de 22 anos no poder. Jammeh tinha subido à presidência na sequência de um golpe militar e, desde então, deu vários sinais de pretender eternizar-se no poder.

No entanto, Jammeh voltou atrás e disse não aceitar os resultados de umas eleições que afinal considera “fraudulentas”. O candidato vencedor, Adama Barrow, apelou a Jammeh para que aceite transferir o poder. Depois disso a tensão no país foi crescendo registando-se intervenções militares e confrontos.

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