O vice-Presidente de Angola, Manuel Vicente, mostrou hoje, embora de forma não assumida, o que é compreensível, as razões pelas quais o regime de sua majestade o rei, José Eduardo dos Santos, falhou nos principais vectores da nossa sociedade.

Manuel Vicente defendeu, em Luanda, que é preciso e urgente garantir as necessidades básicas das famílias para se alcançar a harmonia social, a reconciliação nacional e a consolidação da paz.

E se é preciso e urgente é porque, de facto, em 40 anos de independência (sempre sobre as ordens do mesmo regime – MPLA), 14 dos quais de paz total, o regime angolano falhou em toda a linha. É porque se preocupou apenas em dar mais milhões aos poucos que já tinham milhões, esquecendo-se dos milhões que têm pouco ou nada.

Manuel Vicente discursava na abertura da 17ª Assembleia Plenária de Bispos do Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (SECAM), que decorre na capital angolana até domingo.

O dirigente angolano (cada vez mais ostracizado pelo clã presidencial que ajudou a engordar dentro e fora do país) apontou a satisfação de necessidades material, espiritual, religiosa, cultural, moral, entre outros valores para que seja efectiva a harmonia social.

Tem razão. Mas não chega tê-la. É preciso lutar por ela. E Manuel Vicente, voluntariamente ou não, nunca se mostrou um lutador capaz de arriscar o mínimo que fosse por essa harmonia social.

“Em nosso entender, o Governo deve, juntamente com outros parceiros sociais, como a igreja, estudar as formas de cooperação que garantam a manutenção do papel da família como agente estruturante e estabilizador da sociedade”, referiu o vice-Presidente angolano.

O Governo deve fazer tudo o que Manuel Vicente apontou e, ainda, o que se esqueceu de dizer. O problema está que o deveria ter feito há anos, há muitos anos. Onde estava o vice-Presidente quando a equidade social foi mandada para o brejo? Quando a igualdade de oportunidades foi banida? Quando a justiça para todos foi enclausurada? Quando a liberdade foi detida sem culpa formada? Quando os direitos humanos foram decapitados? Quando o seu partido resolveu voltar a instituir o esclavagismo?

Estivesse onde estivesse (Sonangol, governo, presidência, etc.) tinha a obrigação moral de respeitar o Povo e a verdade. Não fez nada disso. Tal como muitos outros, refugiou-se no silêncio e no comodismo. Se calhar agora é tarde.

Para Manuel Vicente, os problemas sociais condicionam também as dinâmicas do relacionamento e a estrutura da família, mormente as questões da igualdade entre homens e mulheres, os direitos no âmbito do casamento, a violência doméstica, os maus-tratos às crianças e aos idosos.

Por sua vez, o presidente do SECAM e arcebispo do Lubango, Gabriel Mbilingue, disse que ao longo dos últimos decénios aquela organização cristã tem vindo a apelar aos governantes africanos para assumirem as suas responsabilidades como líderes dos seus países, através da promoção da paz e desenvolvimento, mediante o perdão e a reconciliação.

Gabriel Mbilingue manifestou-se preocupado com a constante ausência de paz e de reconciliação em vários países do continente africano.

Será que Manuel Vicente se recorda do que disseram os bispos angolanos, em Luanda, no dia 9 de Novembro de 2015?

Nós recordamos. Apelaram ao diálogo político e à luta contra a pobreza e o analfabetismo, contra toda a exclusão social e a especulação monetária descontrolada, que disseram estar a causar sofrimento ao povo.

A final, a fazer fé nos bispos, a pobreza, o analfabetismo, a exclusão social e a especulação monetária são chagas da nossa sociedade, 40 anos depois da independência. Isso não impediu, como bem sabe Manuel Vicente, que o pais tenha uma elite absurdamente milionária.

A posição dos bispos constou do comunicado final da II plenária ordinária dos bispos da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), que elegeu para presidente da instituição o arcebispo de Luanda, Filomeno do Nascimento Vieira Dias, em substituição de Gabriel Mbilingue, arcebispo do Lubango.

No documento, os bispos, que consideraram o actual momento do país marcado de alguma tensão social, agravada pela crise financeira, afirmaram a urgência de os políticos manterem “sempre abertas” as portas do diálogo, para que todos se sintam necessários e envolvidos no processo de transformação da sociedade angolana.

Apelaram igualmente para que as grandes decisões que afectam o Estado angolano sejam feitas e tomadas em consenso para o bem de todos, colocando deste modo “os interesses da pátria acima dos partidários”.

Os prelados, citando problemas de educação cívica que o país enfrenta, nomeadamente alcoolismo, focos de violência, violações sexuais e sinistralidade rodoviária, apelaram à conjugação de esforços de todos os angolanos para a manutenção do clima de paz e respeito pelos direitos constitucionalmente garantidos.

Numa nota pastoral dedicada aos 40 anos de independência, os bispos reiteraram o apelo a uma reflexão profunda sobre os desafios ainda existentes para se dignificar e se honrar a grande conquista dos angolanos, fazendo chegar os seus benefícios a todos.

Ainda sobre a independência, os bispos consideraram que a paz e a reconciliação nacional, depois de um longo período de guerra, era a componente que faltava para completar a alegria pela independência nacional.

Todavia, os bispos sublinharam que a paz e a reconciliação são um processo contínuo, por isso há necessidade de um trabalho com afinco na criação de condições para que todos os cidadãos “tenham o indispensável para uma vida dignamente humana”.

“Repartindo justamente por todos as mesmas oportunidades e os rendimentos que o país produz e assim diminuir o fosso profundo existente entre os extremamente ricos e os extremamente pobres, bem como despartidarizando o Estado e o emprego”, frisaram os bispos católicos.

Outros desafios para a Angola independente, segundo os bispos, estão ligados ao incremento e generalização das escolas de base, dos cursos técnicos profissionais e de alfabetização qualificados, “para que de uma vez por todas se vençam as trevas da ignorância e do obscurantismo, que mantêm comunidades inteiras aprisionadas nas suas crendices opressoras e atrofiantes”.

Na sua mensagem sobre a independência, defenderam a promoção do direito à liberdade de consciência, reunião, livre associação, manifestação, expressão e informação, constitucionalmente garantidos, para que haja “cidadãos devidamente actualizados e avisados sobre os acontecimentos do país e do mundo, podendo assim exercer uma cidadania consciente, responsável e participativa”.

A conferência que agora decorre em Luanda é subordinada ao tema “A Família em África, Ontem, Hoje e Amanhã: à Luz do Evangelho”, conta com a presença de 200 delegados e bispos de 37 conferências episcopais e oito regiões.

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