A candidatura de sua majestade o rei de Angola, José Eduardo dos Santos, à sua própria sucessão como presidente do MPLA foi – num inequívoco exemplo de democracia interna – a única formalizada no partido até ao final do dia de quinta-feira, prazo limite para apresentação de listas.

Ainformação foi avançada por fonte da subcomissão de candidaturas do MPLA, seguindo-se a confirmação formal da mesma, em cerimónia pública, encomiástica e canina, nos próximos dias.

A eleição para presidente do partido decorrerá no VII congresso ordinário do MPLA, agendado para 17 a 20 de Agosto próximo, em Luanda, antecedendo as eleições gerais em Angola, previstas para 2017.

Contudo, José Eduardo dos Santos anunciou em Março que se retira da vida política activa (seja lá o que isso for) em 2018, quando completará 76 anos, mas não adiantou em que moldes.

A candidatura de José Eduardo dos Santos, igualmente chefe de Estado e Titular do Poder Executivo desde 1979, deu entrada nos órgãos do partido a 30 de Junho, pelas mãos do vice-presidente do MPLA, Roberto de Almeida, que a considerou como “a opção mais acertada” para os militantes.

“Longe de ser um privilégio, o cargo de presidente do MPLA acarreta um somatório de encargos e responsabilidades que exigem fortes qualidades de liderança, dedicação, inteligência, sentido de conciliação, tolerância e experiência partidária”, disse, na ocasião, Roberto de Almeida. Escapou a referência à sua capacidade divina (“escolhido de Deus”).

Entre outras questões, os 2.591 delegados ao próximo congresso – escolhidos (o MPLA chama-lhe “eleitos”) nas últimas semanas em todas as 18 províncias juntamente com os secretários provinciais do partido -, que se realiza em Luanda entre 17 e 20 de Agosto, vão confirmar (o partido chama “eleger”) o presidente do MPLA e o Comité Central, preparando as eleições gerais previstas para 2017.

José Eduardo dos Santos nomeou no início deste mês a filha mais velha e princesa herdeira do trono, Isabel dos Santos, para Presidente do Conselho de Administração da empresa do regime concessionária estatal do sector dos petróleos, Sonangol.

Isabel dos Santos assume-se publicamente como militante do MPLA desde 1992 e está a ser apontada em função de todas as evidências, desde logo a fidelidade canina e irracional a tudo quanto o rei quer, como possibilidade para entrar no Comité Central do partido e depois sucessora de José Eduardo dos Santos.

José Eduardo dos Santos é Presidente de Angola desde Setembro de 1979, nunca foi (nem será) nominalmente eleito, cargo que assumiu após a morte de Agostinho Neto, o primeiro Presidente angolano.

Um paradigma (pelo menos) mundial

Sua majestade o rei de Angola, José Eduardo dos Santos, reconheça-se, continua a querer transformar a Angola dele num país desenvolvido e de referência em África e no Mundo. Está no poder desde 1979, mas isso é muito pouco.

Como no seio da seita/partido começaram a aparecer, embora de forma ténue e muito tímida, pessoas a pensar que tinham direito de opinião, o rei deu ordens para que os estatutos do MPLA eliminassem a existência de correntes de opinião.

Isto porque, explicou o sipaio secretário-geral, Dino Matross, “estava a haver muita confusão”.

E, como se sabe, na seita/partido como no regime, só existe direito de ter uma única opinião, a de sua majestade o rei José Eduardo dos Santos.

Fazendo nossas as ideias do sipaio Julião Mateus Paulo “Dino Matross”, devidamente autenticadas pelo “escolhido de Deus”, a seita/partido precisa de mais uns 40 no poder para concretizar a luta pela escravidão total do Povo angolano. E se José Eduardo dos Santos não durar tanto, lá estarão os seus filhos para continuar a obra e preservar a monarquia.

Ficam, contudo, algumas dúvidas. Se a Angola (deles) é, por força da impoluta governação do MPLA que já dura desde 1975, uma referência em todo o Mundo e arredores, para onde quererá a seita/partido que o reino vá?

É que a Angola (deles) é mesmo uma nobre e incólume referência mundial, graças exclusivamente ao MPLA e à liderança do “querido líder” José Eduardo dos Santos que, por ser divina, já dura desde 1979 sem carecer de qualquer eleição nominal. Não fossem as instruções filantrópicas do rei, sempre atento aos seus escravos, e a seita/partido teria em todas as eleições mais de 100% dos votos.

Com 70% dos escravos afectados pela pobreza, com uma taxa de mortalidade infantil (nos escravos) que é a mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças, o reino de Angola é uma referência em África, no Mundo e – seguramente – arredores.

Mas há mais dados que revelam toda a capacidade que o reino de Angola tem, graças ao MPLA e ao seu líder – “o escolhido de Deus”- para ser um paradigma pelo menos africano e mundial.

Quem não se recorda de, em Agosto de 2012, por exemplo, os centros de saúde dos bairros Bula-Matady, Nabamby e o Hospital Municipal do Lubango, no bairro da Mitcha, na capital da província de Huíla, terem solicitado às parturientes que se fizessem acompanhar de velas para a sua assistência, devido às falhas de energia e falta de geradores?

O rei lembrou-se, recorde-se, de dizer que a aposta do Executivo é na diversificação da economia para que o país deixe de depender exclusivamente do petróleo e dos diamantes e, mais importante do que tudo isso, que a seita/partido, ao longo da sua trajectória, cumpriu os seus princípios ideológicos, enraizando-se no povo e tornou-se “numa força respeitada em Angola, em África e no Mundo”.

Em síntese. Antes de a seita/partido existir, o reino de Angola não existia.

Folha 8 com Lusa

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