Rafael Marques, activistas, jornalistas e “inimigo” de estimação do regime, foi hoje distinguido com o Prémio Allard para a Integridade Internacional, no Canadá, revelou o próprio.

O jornalista e activista recebeu hoje o Prémio Allard para a Integridade Internacional, instituído em 2013 pela Universidade canadiana de British Columbia (UBC) e considerado como uma das maiores distinções mundiais para o reconhecimento dos esforços no combate à corrupção e na defesa dos direitos humanos.

Na cerimónia da atribuição do prémio, Rafael Marques denunciou a existência de presos políticos e abusos aos direitos humanos para alertar para a existência de uma situação totalitária em Angola.

“Tem ganhado força em Angola uma nova forma de fascismo, concebida com o propósito específico de prolongar os já 36 anos do Presidente José Eduardo dos Santos no poder e os 40 anos de governação do seu MPLA”, disse Rafael Marques, referindo-se concretamente ao caso de Marcos Mavungo, preso em Março, em Cabinda, e condenado por um “pseudo-tribunal” a seis anos de prisão, pelo crime de rebelião.

“Pouco depois, em Abril, a polícia e as forças militares massacraram mais de mil peregrinos de uma seita religiosa na província do Huambo. As Nações Unidas mal se fizeram ouvir quando pediram uma investigação internacional. O massacre tornou-se mera nota de rodapé”, denunciou Rafael Marques sobre o “Massacre do Monte Sume”, tendo igualmente pedido a liberdade dos 15 jovens detidos em Junho e acusados a 16 de Setembro de tentativa de golpe de Estado.

Durante o discurso, na Universidade de British Columbia, Rafael Marques denunciou também as formas de silenciamento e de intimidação que atribui ao regime angolano.

“Se há algo que funciona bem em Angola, é a política de diminuir aqueles que levantam vozes críticas, humilhando-os, transformando-os em seres humanos inferiores ou completamente apartados da normatividade medíocre imposta pelo regime. A título de exemplo, em 2013, dentro do Quartel-General da Polícia de Intervenção Rápida, um dos seus comandantes pisoteou-me nas costas com as suas botas enquanto os seus subordinados filmavam o ato, demonstrando assim que eu podia ser esmagado pelo regime com total impunidade”, recordou Rafael Marques.

O activista disse ainda que em Angola as pessoas são frequentemente levadas a “abdicar da sua auto-estima e do seu sentido de cidadania” em troca de militância partidária ou do silêncio para a obtenção de “certos privilégios” ou como uma forma de “mitigar” o receio de perseguição política e social e de exclusão económica.

Segundo Rafael Marques, é a corrupção que permite ao Governo manter uma “corte de beneficiários” que, uma vez manietados pela existência de claras leis anticorrupção, se vêm forçados a manter “obediência” aos poderes estabelecidos, garantindo imunidade.

“No meu país, a cleptocracia é lei e a corrupção quotidiana uma forma de vida. Como tal, ser homenageado por enfrentar essa praga e por manter a integridade é uma prova de que podemos contribuir para mudar pontos de vista e promover valores morais fundamentais para a manutenção de um Estado de Direito”, afirmou.

O activista acrescentou que a queda abrupta dos preços do petróleo está a provocar uma grave crise económica que afecta a população angolana em geral, “enquanto as figuras se mantêm resguardadas”.

“Praticamente dispensados de fiscalização, a família presidencial e o seu círculo mais próximo de privilegiados, juntamente com a companhia petrolífera nacional Sonangol — a sua arca do tesouro –, confundem recursos públicos com as suas próprias bolsas”, acusou.

“No passado mês de Abril, expus o caso de José Filomeno dos Santos, filho do presidente da República e presidente do Fundo Soberano de Angola, que no mês de Janeiro desviou cem milhões de dólares deste Fundo através de um esquema amador”, frisou Rafael Marques, no discurso proferido em Vancouver em que se compromete a continuar a defender a causa dos direitos humanos e a denúncia da corrupção.

“E digo-vos a todos vós que aqui estão esta noite e que apoiam os meus esforços que continuarei a lutar como jornalista de investigação, defensor dos direitos humanos e, simplesmente, como cidadão do meu país sitiado” concluiu Rafael Marques, que na próxima semana tem encontros agendados com a Administração Obama, em Washington, EUA.

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