O discurso de qualquer Presidente de uma República, principalmente se democrática, mobiliza a geografia intelectual do país, com análises dos mais variados quadrantes. Uns aplaudem, outros bajulam e outros, ainda, repudiam de acordo com a visão ideológica ou académica que cobre cada interveniente.

Por William Tonet

É mister reconhecer não haver diferença sem que os contrários se atraiam, tanto na física; negativo versus positivo, como nas relações humanas, enquanto motor de uma comunidade gregária. No último discurso de José Eduardo dos Santos, enquanto presidente vitalício de Angola, de cuja força intelectual muitos duvidam, possa seguir as peugadas de Bento XVI, que face à insustentável situação económica e de reputabilidade do Vaticano, aliada ao peso de uma idade debilitada, renunciou ao cargo, uma voz política se destacou das demais, pela ousadia, de o considerar incoerente e perigoso.

Esta contundência, saiu do baú intelectual de um ex-muita coisa: ex-dirigente do MPLA, ex-governador, ex-secretário-geral do MPLA, ex-primeiro-ministro, ex-primeiro “bailundo” a ser vaiado, publicamente, pelo Movimento Nacional Espontâneo (ala associativa Kimbundu de defesa e inspirada em Dos Santos, seu patrono), ex-secretário executivo da CPLP, Marcolino Moco, que do pedestal da sua independência intelectual abraçou a causa colectiva, contra os que adormecem nos sofás das mordomias eduardistas.

Pese não ter renegado o seu partido, reconheceu, acopulando outras visões democráticas, face aos muitos jogos de bastidores políticos, que uns denominaram de “bailundamente-utilizado”, nada haver de melhor quando um homem é livre na sua opinião e voz, penso eu, pois no caso vertente, em que Dos Santos fala sobre o 27 de Maio de 1977, quando foi um dos seus responsáveis, quer pelas omissões do relatório, como de não ter ouvido nenhum dos que vieram a morrer, mandou-lhe ter noção de responsabilidade e de história.

Politicamente correcto, Moco apontou o dedo a José Eduardo dos Santos para que este deixe de navegar em águas turvas de sangue “em busca de passados e futuros culpados”, numa clara alusão à ingénua e “criminosa imputação criminal”, a 15 jovens de tentativa de golpe de Estado.

Quando cheguei a esta citação de Marcolino rememorei o livro “A Alegoria da Caverna de Platão” onde a dado passo se lê: “Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. As suas pernas e os seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para a frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior. A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros – no exterior, portanto – há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas”.

Angola foi, de uns tempos a esta parte, convertida, também, numa caverna, onde a maioria dos autóctones são alvo de um colonialismo político atroz, sendo poucos os que o denunciam. Daí que, ainda parafraseando Platão, “é esta força que mantém sempre a opinião justa e legítima sobre o que é necessário temer e não temer, que chamo e defino coragem” e, eu, obviamente, reconhecendo a frontalidade e ousadia de Marcolino Moco, indiferente que a poderosa máquina de Eduardo dos Santos, lhe confisque as acções num banco comercial e outras empresas, reconheça valor no que se segue: “O Senhor Presidente, agora nem mais cuida de se distanciar do que pensávamos ser um aparente zelo dos órgãos securitários de um cada vez mais musculado Estado angolano, que volta a meter medo a muita gente.”

E isso por estar descontextualizada a tese presidencial, sobre a verdade do 27 de Maio, quando vinda de alguém que é considerado, por muitas vitimas como um dos mais importantes algozes, que nunca proporcionou aos alegados vencidos, mesmo sendo do mesmo partido, o direito à voz, à palavra. Esta alusão foi desleal, criminosa e mentirosa. Falar hoje do 27 de Maio deve ser um acto de responsabilidade em memória das vítimas e não de humilhação a milhares de assassinados enterrados em valas comuns, cujos filhos, não podem ostentar apelidos dos pais nem registos de nascimentos condignos, tão pouco as viúvas, beneficiam de algum estatuto, para não falar dos sobreviventes, precisamente, da parte de quem, ousa escamotear a verdade, sobre o maior GENOCÍDIO cometido no pós independência.

E, neste quesito, para desgraça dos bajuladores do tempo, Dos Santos não se pode eximir de responsabilidades, ainda que Marcolino Moco, prefira começar com alusões das escritoras brasileiras Rita Chaves e Tânia Macedo, num trabalho de análise à obra do escritor Pepetela (ele também membro da famosa Comissão das Lágrimas criada por Neto, para ouvir e extorquir depoimentos incriminadores dos lesados).

“Portanto …”, Senhor Presidente, agora nem mais cuida de se distanciar do que pensávamos ser um aparente zelo dos órgãos securitários de um cada vez mais musculado Estado angolano, que volta a meter medo a muita gente. E as invocações vão até ao 27 de Maio de 1977, para que os temores nos dilacerem ainda mais. É bom, por um lado, porque o “pau” está a ser exibido por quem “mata a cobra”. Mas muito mau porque atemorizar só cansa, exacerba e descontrola.

Na melhor (ou pior?) das hipóteses só adia. Na minha ideia, como já o afirmei várias vezes, o 27 de Maio e outros factos anómalos que tiveram lugar muito antes daquilo que esperei vir a ser uma viragem congregadora de todos os angolanos, deviam ser pacífica e calmamente esclarecidos, sobretudo aos mais jovens, sem pôr acento tónico na culpabilidade, porque tudo aconteceu em tempos de enorme descontrolo político e emocional. Tentar-se-ia, no entanto, remediar as consequências sobre os descendentes ou vítimas sobreviventes.

É um tema hoje muito tratado, lá onde se pretende defender uma verdadeira reconciliação nacional, depois de graves conflitos, com a designação de “Justiça de transição”, in obra citada.

E, pegando na deixa Marcolino Moco, demonstrando temer apenas Deus, parece estender a Bíblia a Dos Santos, que ostenta não se sabe se orgulhosamente, 36 anos de um violento, ininterrupto, ilegítimo e inconstitucional poder (violou n.º 3 do art.º 114.º da sua própria Constituição, pois não tomou posse, nem renunciou o mandato como deputado), pois nunca foi nominalmente eleito, deveria, nesta fase ter uma visão politicamente mais responsável, evitando destilar as farpas dos ódios incubados, das vinganças e do revanche.

É preciso ser politicamente educado e humilde, enquanto se é líder, porquanto a pequenez ideológica, repousa nos corredores de uma bajulação perversa, comum em todas ditaduras.

Daí que o ex mais corajoso da tribo indígena tenha avançado, “e “Portanto …”, o Senhor Presidente, infelizmente, continua a fazer a invocação do 27 de Maio, em sentido diverso. Em busca de passados e futuros culpados. E, pior, no sentido de que quem não ganhou eleições, não importa como, será sempre coagido a aceitar todas as decisões dos eleitos, por mais inaceitáveis que elas sejam. “Portanto” é preciso rever as posições. “Portanto” é preciso libertar os presos políticos, num país dirigido por um antigo combatente da liberdade.

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