A manhã deste dia 08.02, acordou diferente, nas principais artérias da cidade do Lubango e, principalmente, na periferia, lá onde o cacimbo castiga mais e o pobre se confronta com a falta de oportunidade. As conversas, nos mercados, nos candongueiros (táxis), nas igrejas e nas paragens dos kupapatas é o de exaltar o herismo destes mototaxistas terem enfrentado (como ontem o Folha 8 noticiou em primeira-mão) a colossal máquina de repressão do regime do MPLA, com a manifestação que durou mais tempo na rua, cerca de 38 horas de luta pelo direito ao trabalho.

Walter Tchipoya
No Lubango/Huíla

“O governo provincial não nos dá licenças de condução, não quer que conduzamos na cidade, para ganharmos o pão e sustentar as nossas famílias, mas também não nos arranja trabalho. Como ficamos? Morremos à fome? Temos de reivindicar e manifestarmo-nos pelos nossos direitos”, disse ao F8 o kupapata Jerónimo Umbila, que participou na manifestação.

O fogo nas ruas e o fumo dos pneus vai-se diluindo lentamente, com o vento, escrevendo no ar a palavra resistência, desde que os protagonistas os abandonaram quando eram cerca das 17h00 do dia 07.02, mas a revolta da insatisfação, continua a calcorrear no coração de cada kupapata e dos milhares de angolanos discriminados, na província da Huíla.

“Nós demos uma demonstração de estarmos dispostos a resistir às leis injustas, como o decreto do governador, que nos proíbe de trabalhar na cidade. Será que somos bichos, que só podemos trabalhar no mato? Ou a cidade é só para os ricos do MPLA?”, questiona Abel Pio, acrescentando, ter sido esta, “apenas uma pequena demonstração do que podemos fazer. Nós não podemos morrer à fome, sem trabalhar, quando dão trabalho aos chineses e a nós não. Os jovens da Huíla mostraram que não ameaçam como os da Luanda, nós saímos e estamos decididos a continuar se esta medida não for alterada, por esta razão pedimos aos partidos da oposição que se juntem a nós, para fazermos uma força maior contra as injustiças”.

O motim despoletou de 06 à 07.02.15, no Lubango, capital da província da Huíla, cessou, face à desproporcionalidade das forças no terreno: Kupapatas e Ninjas (Polícia de Intervenção Rápida), mais de 800 efectivos colocados na rua, polícia canina, jactos de água e helicópteros, num total de cerca de 1200 efectivos distribuídos, que continham, espancavam e sobrevoavam as zonas mais críticas, deixando uma marca não só de força, mas também de temor de que a manifestação se pudesse alastrar a outros sectores.

“Nós temos de garantir a ordem e tranquilidade pública face aos levantamentos de insurrectos que não querem cumprir a lei. Se o governo disse para eles não entrarem na cidade, porque são indisciplinados, então devem acatar e conduzir só nos bairros”, disse ao “F8 Online”, o sargento da Polícia provincial do Lubango, João Matias, para quem os kupapatas exageraram na sua reivindicação, “daí a polícia ter utilizado a força para repor a ordem e parar o vandalismo de destruição de propriedades e viaturas”.

Mas o kupapata Nunes Vemba diz que “a polícia fabricou tudo, começou a disparar e nós tivemos de reagir para nos defendermos e diante dos tiros e dos cães só nos restavam os pneus, para enfrentar esses filhos da mãe, que não têm sentimentos, mas um dia o seu reinado vai acabar”, asseverou.

Notícia em actualização

Partilhe este Artigo