Se seguirmos o raciocínio do professor universitário e cronista Moita Flores, chegaremos sem dúvida à conclusão de que os vendedores de sonhos da democracia aos imigrantes que se aventuraram a ir viver em França, na sua esmagadora maioria nem sequer liam o Charlie Hebdo antes da tragédia desta passada quarta-feira do 7 de Janeiro em Paris, um pouco do mesmo modo como «os assassinos islamitas que nunca viram o Corão, ainda menos o estudavam, matam em nome do profeta».

Por António Setas

M as pouco importa para o caso, grande número desses camelots da ideologia política ocidental deslocaram-se a Paris, em força, no passado domingo, 11 de Janeiro, a fim de participar na grandiosa marcha que juntou cerca um milhão e meio de pessoas em honra e da liberdade de expressão.

A esses ícones democráticos juntaram-se personagens estranhos, sob variados pontos de vista, gente da extrema-direita, alguns marxistas, anarquistas e pesos pesados da política africana que, na sua maioria, desprezam soberanamente ou fingem ignorar o que isso é, a liberdade de expressão.

Presentes na opulenta cerimónia estavam, pois, os presidentes, gabonês Ali Bongo Ondimba, do Benim Boni Yayi, togolê Faure Gnassingbé, nigeriano Goodluck Jonathan (?) , senegalês Macky Sall, e o maliano Ibrahim Boubacar Keïta… a fazer de conta que estavam juntos.

Mas passemos, há mais grave do que esse «faz-de-conta» e estamos agora a nos referir à presença nesta marcha do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, que ordenou, segundo noticiou a imprensa internacional, bombardeamentos que causaram a morte de 2,2 mil pessoas, entre mais velhos, mulheres e crianças (513 no total), durante a última ofensiva do exército de Israel contra Gaza. Foi a marcha dos três hinos, o primeiro ao cinismo, o segundo à hipocrisia e o último ao oportunismo.

E esse respeito, o analista angolano, Nello de Carvalho, comentou este exibicionismo dizendo que «Mais de metade dos participantes desta marcha são racistas (…) A meu ver é a marcha da hipocrisia da dita culta Europa que, em boa verdade, nunca saiu do seu estado de atraso».

Entretanto, o Benim, que não mexeu uma palha e nem sequer propôs que se fizesse um minuto de silêncio em homenagem a milhares de pessoas massacradas na Nigéria, decretou Luto Nacional em memória do Charlie; o Papa Francisco tranquilizou o mundo prometendo que rezaria pelas almas dos jornalistas assassinados; dirigentes do Qatar, país no qual os desenhadores do Charlie teriam mais ou menos duas horas e meia de esperança de vida se fossem apanhados lá (Alex Vizorek), declararam a sua tristeza.

Mas… pensando bem, no meio desta tragicomédia dantesca quantos destes ícones do poder político ocidental ouviram os gritos dos nigerianos, sírios, iraquianos e outros por esse mundo fora a começar pelo choro das crianças da Palestina, dizimadas pelos bombardeamentos do exército de Israel ?

Por outro lado, não podemos esquecer que em França o terrorismo, sobretudo o muçulmano, neste caso como em muitos outros de origem argelina, está ligado a um nome : o colonialismo. A França ainda não conseguiu libertar-se dos seus fantasmas. Será sempre possível invocar nomes como o ISIS, Al Qaeda, radicalismo islâmico ou a imigração, para sacudir a água ensanguentada do capote colonial, em todo o caso, do colonialismo é que nunca se falará. Como sempre será varrido da conversa e empurrado para debaixo do tapete.

Seja como for, evitemos de cair no fosso nauseabundo do racismo e da intolerância. Recordemos um homem de quem ninguém falou, Ahmed. Ele era polícia, francês e segurança do Charlie Hebdo. Foi morto a tiro nesta encruzilhada da vida. Ahmed era muçulmano… vamos simplificar e gritar, forte, bem forte, EU SOU AHMEH !

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