“O congresso extraordinário do MPLA visou fortalecer as estruturas partidárias e encontrar as melhores soluções para promover as mudanças sociais, políticas e económicas que permitam a inclusão social, a cidadania e o desenvolvimento económico”.

Por Orlando Castro

FFicou, portanto, a saber-se que “a inclusão social, a cidadania e o desenvolvimento económico” ainda precisam de soluções. Se é o MPLA que o diz…

“Mais de três milhões de angolanos participam activamente na sociedade através da militância activa no partido, que nas sucessivas eleições democráticas, livres, justas e transparentes tem conseguido vitórias indiscutíveis e incontestáveis.”

Só três milhões participam activamente? E então os outros 18 milhões? Seja. Se é o MPLA que o diz…

“O presidente do partido propôs aos delegados do congresso a adopção de um código ético que torne mais transparente a actividade partidária. Esta proposta é um desafio que extravasa largamente o MPLA, porque a falência de valores é transversal à sociedade angolana e urge recuperá-los, antes que se institucionalize a lógica do vale tudo e as pessoas e os seus direitos deixem de estar no centro da acção política. O MPLA cumpriu sempre os acordos que assinou. Em alguns casos, como o Acordo de Alvor, foi o único que se manteve fiel, até ao fim, ao seu espírito e letra, quando os outros signatários debandaram numa tentativa criminosa de balcanizar Angola. Cumpriu especialmente o acordado em Bicesse, mesmo quando Savimbi rasgou o documento e partiu para uma guerra particularmente mortífera e destruidora. Apesar de tão graves violações, foi tolerante e promoveu o Governo de Unidade e Reconciliação Nacional, mesmo tendo maioria absoluta na Assembleia Nacional.”

Bem nos parecia que a culpa teria de ser de Jonas Savimbi. Catorze anos depois da sua morte, ele continua a ser o bode expiatório para os sipaios do regime. Se é o MPLA que o diz…

“As cedências feitas em nome de valores essenciais, como a paz, a unidade e a reconciliação foram vistas como fraquezas e levaram os seus parceiros de governo a um desastre eleitoral de proporções inimagináveis. O eleitorado castigou a fraude e a deslealdade, dando ao MPLA uma maioria qualificada. Apesar disso, o respeito pelos valores éticos por parte dos seus militantes e dirigentes conduziu Angola a um clima de autêntica paz e reconciliação. A política com valores produz tolerância, respeito pelos adversários, uma visão abrangente da sociedade.”

Por outras palavras, o mundo que se prepare. Nas próximas eleições o MPLA vai bater todos os recordes. Possivelmente terá mais de 100% dos votos. Se é o MPLA que o diz…

“A política sem valores arrasta-nos para o pântano da calúnia, o oportunismo sem barreiras, o ódio e o ressentimento. Quem não é capaz de respeitar o jogo democrático, nunca será capaz de compreender que no mundo da política não há inimigos, apenas adversários. E que em democracia ninguém ganha tudo, mas também ninguém perde tudo.”

Importa, é claro, saber as regras desse jogo dito democrático. Oficialmente as regras são as das democracias normais. Um cidadão, um voto. Mas, na verdade, por cá vigoram as regras da democracia da Coreia do Norte onde até os mortos votam. É por isso que nas urnas aparecem mais votos do que eleitores inscritos. Se é o MPLA que o diz…

“Quem quiser concorrer a eleições transparentes e democráticas pelo menos tem que saber esta lição. E sobretudo tem de confiar na infinita sabedoria do eleitorado. É um insulto aos milhões de angolanos que têm participado nos actos eleitorais, dizer que o MPLA ganha eleições porque os órgãos de comunicação social do sector empresarial do Estado manipulam a opinião pública.”

Os boletins oficiais do regime (Jornal de Angola, RNA, TPA, Angop) não manipulam. Limitam-se a passar as verdades oficiais. Quem manipula é o próprio regime. Se é o MPLA que o diz…

“Quem deve muito à inteligência não reconhece nos outros, seres inteligentes e livres, que votam em quem lhes apresenta o melhor programa e dá mais confiança. Em democracia, triunfam os políticos em quem os eleitores confiam.”

– Nem mais. Os eleitores votam em quem querem. Mas como os votos propriamente ditos são feitos de papel inteligente, escolhem eles próprios o seu candidato. Se é o MPLA que o diz…

“O código de ética que o presidente do MPLA propôs, em primeira linha para os seus camaradas de partido, faz falta a todos os partidos, a todas as organizações cívicas, a todas as instituições públicas ou privadas. A vida sem ética torna-se uma aventura perigosa. Uma sociedade sem valores corre a passos largos para a decadência e a servidão. Promove tiranos e ditadores. E disso, os angolanos já tiveram a sua conta.”

Crê-se, inclusive, que todos os elementos das forças de segurança do regime padecem desse enfermidade chamada ética. Eles bem querem que os cassetetes se mantenham calmos, mas como estes não têm ética… sai porrada. O mesmo se passa com os jacarés. Se é o MPLA que o diz…

“Mas ainda não se viram livres do pântano da mentira e da calúnia onde os inimigos da democracia fizeram ninho e tentam a todo o custo arrastar toda a sociedade para o lodo. O presidente José Eduardo dos Santos pediu aos seus camaradas, no encerramento do congresso, que sejam os primeiros a combater a calúnia e a mentira. Mas também este apelo extravasa as estruturas partidárias e obriga todos os cidadãos.”

Os sucessivos pedidos do “querido líder” têm dado bons resultados. Basta ver a lisura e a ética dos mercenários do Jornal de Angola. Caluniar, ofender e mentir não é com eles. Se é o MPLA que o diz…

“A sociedade não pode continuar a tolerar no seu seio os que se servem da tolerância e das amplas liberdades democráticas para assassinatos de carácter, atentados à honra e ao bom-nome dos cidadãos, acusações sem provas, julgamentos e condenações no circo mediático montado por aqueles que nunca desistiram de abocanhar as riquezas de Angola e submeter o Povo Angolano.”

Pois é. E como não podem permitir, ou tolerar, tais práticas, o melhor mesmo é mandar a ética para a sanita e apelar aos bons ofícios da Polícia Nacional (do regime) para continuar a alimentar os jacarés. Se é o MPLA que o diz…

“As calúnias e as mentiras partem muitas vezes de políticos da Oposição, sem escrúpulos, que pensam ser esta a melhor via para conquistarem o poder. Não é por acaso que o líder do maior partido da Oposição, sempre que sai de Angola vai sozinho e nunca convidou os órgãos públicos de comunicação social. Assim diz o que quer para a sua corte de Lisboa, Paris ou Bruxelas sem ser questionado por ninguém. O presidente do MPLA tem razão: é urgente um código de ética e os seus militantes não podem permitir que a mentira faça figura de verdade inquestionável.”

É curiosa e motivadora esta afirmação. Ficamos a saber que, nas próximas deslocações ao estrangeiro, o Presidente do MPLA vai convidar o Folha 8 a acompanhá-lo. Se é o MPLA que o diz…

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