No dia 8 de Setembro de 2008, o primeiro-ministro das ocidentais praias lusitanas a norte de Marrocos, José Sócrates, afirmou-se “profundamente satisfeito” com a forma “transparente, livre e democrática” como decorreram as eleições legislativas em Angola, e saudou as autoridades de Luanda pela conclusão deste processo em “paz” e “liberdade”.

Por Orlando Castro

E , de bajulação em bajulação, lá foi o governo de Portugal combatendo o défice. A ajuda do MPLA (via Sonangol e similares) foi vital para que os portugueses sobrevivessem e José Sócrates vivesse filosoficamente como um abastado parisiense, até ontem.

“As eleições são da maior importância para o prestígio internacional de Angola, para a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e também para Portugal na sua relação com este país. Por isso, quero felicitar desde logo o povo angolano, já que sei bem o que estas eleições representam enquanto instrumento de institucionalização da vontade popular nas decisões do seu país”, disse na altura o bestial camarada de Eduardo dos Santos, hoje certamente mais um que corre o risco de passar ao rol das bestas do regime angolano.

Pelo menos até ontem, José Sócrates gozou à grande e à francesa com a chipala dos portugueses e dos angolanos, mormente com a daqueles 68% que passam fome? Ou será que esses não são angolanos? Se calhar é isso. Adiante.

“Estas eleições representam a passagem de Angola para o conjunto dos países democráticos, que resolvem os seus problemas com eleições. Como disseram os observadores europeus, estas eleições foram feitas com transparência, foram um passo no sentido da democracia e da paz e os eleitores votaram com total liberdade”, salientou o então chefe do Governo português.

Sabe-se que José Sócrates trouxe da última viagem a Luanda um manual do MPLA autografado pelo seu presidente. Sabe-se, por isso, que o então primeiro-ministro de Portugal não ouviu nem leu o que disse na altura o também observador da União Europeia, Richard Howitt.

Não ouviu, nem leu, aquela parte em que Richard Howitt disse: “Após uma tortuosa jornada, encontrámos uma situação estranha, onde havia tendas, macas, camas e comida ao desbarato para cerca de 1500 pessoas. Cinco pessoas que entrevistámos apresentaram provas de que tudo tinha sido financiado pelo governo”.

Também não ouviu, nem leu, Richard Howitt dizer: “Vi representantes do partido do poder não só à frente das assembleias, mas junto às mesas onde as pessoas estavam a votar”.

“Estas eleições foram livres, justas, tiveram problemas organizativos naturalmente, mas que serão corrigidos certamente nos próximos actos eleitorais”, corroborou José Sócrates.

Lamentavelmente, José Sócrates não enviou a Angola alguns dos seus principais assessores para aprenderem com o MPLA a fórmula para se ganhar eleições, obviamente democráticas e livres, com mais de 80% dos votos. Lamentável para ele. Para o camarada Eduardo dos Santos, a chegada de Passos Coelho revelou-se um verdadeiro achado.

“Quero que o Governo de Angola saiba que temos confiança no povo angolano, que temos confiança em Angola, temos confiança no Governo angolano e no trabalho que tem desenvolvido”, sublinhava assiduamente José Sócrates, só faltando ajoelhar-se e beijar os sapatos de design italiano de Eduardo dos Santos. Só faltava… se é que faltou.

De acordo com o primeiro-ministro que ontem entrou para a história de Justiça portuguesa, esse trabalho tem “permitido que Angola tenha hoje um prestígio internacional, que tenha subido na consciência internacional e que seja hoje um dos países mais falados e mais reputados”.

Alguns destes elogios foram feitos horas depois de duas organizações não governamentais apresentaram uma queixa ao Ministério Público de Paris, contra vários chefes de Estado africanos, entre os quais o de Angola, acusados de corrupção e desvios de fundos públicos, dos quais uma boa parte “é reciclada” em França.

O até ontem considerado por Luanda como “líder carismático” dos socialistas lusos, Sócrates disse também que “cada vez que Angola progride, evolui e melhora, isso enche de orgulho qualquer português”.

Espera-se agora que José Eduardo dos Santos, ou não fosse o mais lídimo, impoluto e honorável representante de Deus na terra, tenha compaixão do seu velho camarada José Sócrates.

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