“(…) Lembrei-me, de um discurso do saudoso Presidente Fundador, Jonas Malheiro Savimbi, feito num período similar, em que se referia ao facto de que, o fim ou o início do ano é altura de fazer balanços e ver se a “loja” que gerimos fez lucros ou se fez prejuízos; se ela pode ainda continuar aberta ou se é o momento de fechá-la”, recordou o presidente da UNITA, no seu balanço de fim do ano.

D eixando para cada um o balanço das diferentes “lojas”, Isaías Samakuva falou em termos gerais:

“No plano da paz e da segurança mundial, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), grupo extremista que controla vastas áreas da Síria e do Iraque, declarou no dia 29 de Junho a instauração de um califado islâmico, enquanto que na Nigéria um grupo radical islâmico raptou mais de 200 meninas.

Na Ucrânia, o Parlamento destituiu do poder o presidente Victor Yanukovich. O governo russo não reconheceu o novo governo ucraniano e decidiu invadir a Crimeia, formalizando depois o processo de anexação da Crimeia à Rússia.

Na Europa Ocidental, a Escócia disse não à independência do Reino Unido em referendo nacional, enquanto que na Península Ibérica 80% dos catalães votaram pela independência numa consulta informal.

Entretanto, vários governos da União Europeia reconheceram o Estado palestino.

O Prémio Nobel da Paz 2014 foi para as mãos de Malala Yousafzai, uma jovem paquistanesa que chamou a atenção do mundo para o direito à educação, e de Kailash Satyarthi, um activista indiano pelos direitos das crianças.

A agência de refugiados da ONU anunciou que o número de pessoas forçadas a deixar suas casas devido a guerras ou perseguição superou a marca de 50 milhões em 2013 pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.

Enquanto isso, os Estados Unidos resolveram restabelecer relações diplomáticas com Cuba, depois de 53 anos de bloqueios e incompreensões.

No domínio da saúde, o mundo viu surgir a epidemia de ébola, que, segundo o último relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) publicado no passado dia 7, ceifou 6.113 vidas em vários países, dos 17.256 casos detectados em menos de um ano. A ONG Médicos Sem Fronteiras declarou a epidemia como “sem precedentes” tanto em casos de mortes quanto em termos de expansão geográfica.

No campo religioso, quatro acontecimentos merecem destaque: a canonização do Papa João XXIII e do Papa João Paulo II; a beatificação do Papa Paulo VI; e a nomeação, na Inglaterra, da primeira mulher para o cargo de Bispo da Igreja Anglicana.

No que diz a calamidades, o ano também conheceu desastres aéreos, dos quais destacamos dois: em Março, um avião B777-200 com 239 passageiros, da Malaysia Airlines, desapareceu sem deixar rasto na rota Kuala Lumpur – Pequim. Em Julho, o voo MH17, também da Malaysia Airlines, que voava de Amsterdão a Kuala Lumpur, foi abatido por um míssil disparado na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia por um sistema antiaéreo, fazendo 298 vítimas.

No mundo dos negócios, a empresa Facebook comprou o WhatsApp por 16 mil milhões de dólares, a Microsoft integrou a Nokia e encerrou o suporte ao Windows XP e ao Office 2003, dando-os como mortos. Enquanto isso, cresceram os ataques focados em sistemas de point-of-sale (POS) para roubar informações de cartões de consumidores.

Em Portugal, o império Espírito Santo ruiu com impacto ainda não completamente descortinado para Angola. Das cinzas do BES nasceram dois novos bancos: o “Novo Banco” para garantir os depositantes desta instituição em grave crise ao passo que os investidores ficam inseridos num “banco mau”.

O ex-primeiro-ministro do Governo português, José Sócrates, foi detido em Novembro, à chegada ao aeroporto de Lisboa, no âmbito de um processo em que se investigam crimes de fraude fiscal branqueamento de capitais e corrupção.

No mundo das artes, o ano que agora finda registou as mortes de Eusébio da Silva Ferreira, lendário do futebol português e mundial, do escritor colombiano Gabriel García Márquez, o “pai do realismo mágico” e do actor norte americano, Robin Williams. Entretanto, o nosso Barceló de Carvalho, Bonga, foi condecorado pelo Governo Francês ante o olhar indiferente do seu próprio país!

A Alemanha venceu o Mundial de futebol de 2014, ao derrotar a Argentina na final por 1-0 e depois de cilindrar o anfitrião Brasil por 7-1 nas meias-finais.”

Quanto à “loja” interna, Isaías Samakuva disse;

“Aqui, entre nós, durante o ano de 2014, consolidou-se o regime autoritário de matriz sultânica. A supremacia da Constituição continuou a ser substituída pela vontade de um só homem. A democracia tornou-se uma miragem e a reconciliação nacional uma quimera.

Consolidou-se a ideia de que um grupo de predadores que se confunde com o Estado agride os direitos fundamentais dos angolanos e utiliza o sistema financeiro nacional para executar operações ilícitas de branqueamento de capitais, enriquecimento ilícito e corrupção, dentro e fora de Angola, perante um sistema de justiça que se mostra incapaz de investigar e julgar tais crimes.

A exclusão social continuou e o sofrimento do nosso Povo é cada vez mais visível.”

E continuou:

“Se o ano de 2014 foi marcante para o mundo em geral, o ano de 2015 será particularmente marcante para o nosso país. Por razões políticas, económicas e sociais.

A queda nos preços do petróleo, a corrupção e a má governação irão agravar a inflação, o desemprego e a já fraca qualidade dos serviços públicos. O défice poderá disparar para 14 por cento, quase o dobro do desequilíbrio orçamental de 7,6% previsto pelo Executivo. Isto poderá levar o país para uma recessão no próximo ano segundo estimam alguns peritos na matéria (Capital Economics).

Por tudo o que sabemos, podemos afirmar que o ano 2015 reserva-nos grandes desafios. Não escondemos a dimensão e a urgência dos desafios que se nos colocam, mas também não os receamos.

Vamos confrontar os grandes problemas do nosso país com os olhos bem abertos e afugentar o medo paralisante. Temos de confrontá-los com serenidade, patriotismo e realismo.

Em política, resposta realista aos grandes problemas consiste na procura e concretização de soluções adequadas à dimensão dos problemas que nos afligem e que temos o dever de não permitir que nos levem novamente à situação de escravos.

Temos de nos posicionar para o futuro agora, porque a gravidade da situação do país, exige de todos nós, medidas concertadas e ousadas que nos permitam resgatar a dignidade da nossa cidadania e construir o futuro.”

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