Jonas Savimbi, Holden Roberto e até Agostinho Neto deram voltas no caixão perante a desfaçatez de José Eduardo dos Santos. Foi em Abril de 2012. No regime já não se recordam. Mas nós estamos cá também para isso.

Por Orlando Castro

E ntão não é que o presidente angolano, não eleito e há 35 anos no poder, José Eduardo dos Santos, pediu na altura à directora-geral da Unesco, Irina Bokova, para que acompanhasse as políticas governamentais de combate à pobreza, justificando que em Angola muitas pessoas ainda “vivem mal”?

Irina Bokova, que realizara uma visita de quase 24 horas a Luanda, falava à imprensa no final de uma reunião no Ministério das Relações Exteriores, onde (e aqui vai mais uma pérola da Lusa) assinou com o Governo angolano, um protocolo verbal de cooperação. Não está mal. Assinar um acordo… verbal é obra!

Em frente. A directora-geral da Unesco foi recebida pelo Chefe de Estado angolano, com quem abordou a situação política e social de Angola e a cooperação existente entre aquela organização e o Estado angolano.

“Abordei com o Presidente da República e ele foi franco nas suas opiniões. Estava consciente de que ainda existem muitas pessoas que vivem mal no país, por isso pediu-me que a Unesco faça um acompanhamento das políticas, das actividades que o Governo tem desenvolvido para ultrapassar a pobreza e para ter uma sociedade mais justa, igual e mais inclusiva”, disse Irina Bokova.

Que Eduardo dos Santos julgue, e provavelmente tem razão, que “Irina Bokova” é matumba ainda vá que não vá. Que pense o mesmo do jornalista da Lusa, entre outros, ainda se aceita. Agora que pense o mesmo dos angolanos, essa não.

“Muitas pessoas que vivem mal”? 70% não são apenas muitas. Além disso, a taxa de mortalidade infantil é a terceira mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças; apenas 38% da população tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico; apenas um quarto da população tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade.

Além disso, 45% das crianças angolanas sofre de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos; 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros; mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população, 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem em Cabinda.

Além disso, o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

De acordo com Irina Bokova, em Angola “as desigualdades são visíveis”, apesar das suas “grandes atracções económicas”, por isso “é necessário trabalhar para diminuí-las”.

Não. O que é preciso é acabar com a ditadura do regime do MPLA, no poder desde 11 de Novembro de 1975, tornando Angola um Estado de Direito democrático. Acabar com os poucos que têm milhões, dando voz e – já agora – comida, aos milhões que têm pouco ou nada.

Ao contrário do que, provavelmente, pensava Irina Bokova, o regime de Eduardo dos Santos sabe bem que a melhor forma de exercer a sua “democracia” é mesmo ter 70% da população na miséria, é ter tirado a coluna vertebral à esmagadora maioria dos seus opositores políticos, a começar pela UNITA, é dizer ao povo que tem de escolher entre a liberdade e um saco de fuba.

José Eduardo dos Santos que tem, que ainda tem, a cobertura internacional (até mesmo da Unesco), sabe que pôr o povo a pensar com a barriga é a melhor forma de o manter calado e quieto.

De facto, defender a liberdade de expressão não é nada do outro mundo, mas é algo que o regime não quer. Tudo quanto envolva a liberdade (com excepção da liberdade para estar de acordo com o regime) é algo que causa alergias graves a Eduardo dos Santos.

Por tudo o que se tem passado em Angola estamos, sinceramente, de acordo com as teses do antigo ministro da Defesa, figura de destaque do MPLA, e um empresário de sucesso em áreas que vão da banca ao imobiliário, hotelaria, jogos, diamantes etc., governador do Huambo, Presidente da Assembleia Geral da Casa do FC Porto em Angola, de seu nome Kundy Paihama.

Se todos os angolanos que não são do MPLA, bem como Irina Bokova, levassem em conta as suas palavras, certamente que evitavam ter de comer peixe podre, fuba podre, e ter direito a 50 angolares e a porrada se refilarem.

Num dos seus (foram tantos) célebres e antológicos discursos, Kundy Paihama disse: “Não percam tempo a escutar as mensagens de promessas de certos Políticos”, acrescentando: “Trabalhem para serem ricos”.

Esta frase fez com que todos passássemos a venerar Kundy Paihama. A tal ponto vai a nossa veneração que até advogamos a tese de que as verdades “paihamistas” deveriam, no mínimo, fazer parte das enciclopédias políticas das universidades angolanas e, por que não?, de todo o mundo civilizado.

“Durmo bem, como bem e o que restar no meu prato dou aos meus cães e não aos pobres”, afirmou há uns tempos o então ministro da Defesa do MPLA. Não, não há engano. Reflectindo a filosofia basilar do MPLA, Kundy Paihama disse exactamente isso: o que sobra não vai para os pobres, vai para os coitados dos cães.

E por que é que não vai para os pobres?, perguntam os milhões que todos os dias passam fome. Não vai porque não há pobres em Angola. E se não há pobres, mas há cães…

“Eu semanalmente mando um avião para as minhas fazendas buscar duas cabeças de gado; uma para mim e filhos e outra para os cães”, explicou Kundy Paihama.

É claro que, embora reconhecendo a legitimidade que os cães de Kundy Paihama (bem como de todos os outros donos do país) têm para reivindicar uma boa alimentação, pensamos que os angolanos que são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome, não devem transformar-se em cães só para ter um prato de comida.

Embora tenham regressado pela mão do MPLA ao tempo do peixe podre, fuba podre, 50 angolares e porrada se refilares, devem continuar a lutar para ter direito a, pelo menos, comer como os cães de Kundy Paihama.

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