Um grupo de jovens angolanos deslocou-se à Embaixada de Portugal, em Luanda, para exigir uma indemnização de um quatrilhão de euros pelo colonialismo português. Num cartaz lia-se: “factura colonial pelos danos emergentes e pelos lucros cessantes dos crimes contra a humanidade praticados em Angola pelo regime esclavagista português”. O número, de uma dimensão absurda, será recebido com sarcasmo, mas o que ele revela não é ridículo: é o vazio político e moral que Portugal mantém sobre o seu passado colonial.
Por Carlos Narciso
duaslinhas.pt
Não estamos perante uma proposta real de indemnização, nem creio que o número apresentado represente um cálculo com base em metodologias reconhecidas de reparação histórica. Um quatrilhão é um número performativo. Serve para dizer que o dano é imenso. Ponto. Que a espoliação foi estrutural, prolongada e fundadora de desigualdades que persistem até hoje. É um gesto acusatório.
A escolha da linguagem jurídica “danos emergentes” e “lucros cessantes” apropria-se do vocabulário que os Estados e as empresas usam para exigir compensações. Mesmo se o chamado direito internacional não oferece um enquadramento que permita aplicar esses conceitos retroativamente ao colonialismo português, não invalida a pergunta política central: quem beneficiou com o colonialismo e quem pagou o custo da história?
Portugal prefere não responder. Refugia-se numa narrativa feita de lusotropicalismo reciclado e de um permanente “era assim naquele tempo”. Reconhece episódios isolados, evita o quadro geral e rejeita, à partida, qualquer debate sério sobre reparações, mesmo simbólicas. O que não impedirá que, no futuro, este tipo de manifestações se repitam.
Convém também dizer que o alvo real destas ações não é apenas Lisboa. Há, em Angola, uma geração jovem que interpela simultaneamente o passado colonial e o presente pós-colonial, marcado por elites que herdaram estruturas de poder, mas não redistribuíram justiça nem riqueza. A história colonial continua a ser um capital político incómodo para uns e ferramenta retórica, para outros.
O quatrilhão, no fundo, não é um número. É um espelho que reflete a incapacidade portuguesa de enfrentar o passado sem eufemismos, sem autoindulgência e sem medo das palavras.

