Não sei se ter memória é, nos tempos que correm (e “nasceram” há mais de 50 anos), uma qualidade. Creio que não. Alguém disse que quem estiver sempre a falar do passado deve perder um olho. No entanto, acrescentou que quem o esquecer deve perder os dois… Eu não estou sempre a falar do passado. Enquanto não for feita justiça, o passado é, será sempre, Presente.
Por Orlando Castro
Tal como o Papa Bento XVI recordou na sua viagem a Luanda, perante quase um milhão de fiéis, as “consequências terríveis” dos 27 anos de guerra civil em Angola, lamentando que esta seja “uma realidade familiar”, apetece-me hoje recordar também algumas coisas.
Recordar, em homenagem às vítimas, o massacre de Luanda, perpetrado pelas forças militares e de defesa civil do MPLA, visando o aniquilamento da UNITA e cidadãos Ovimbundus e Bakongos, e que se saldou no assassinato de 50 mil angolanos, entre os quais o vice-presidente da UNITA Jeremias Kalandula Chitunda, o secretário-geral Adolosi Paulo Mango Alicerces, o representante na CCPM, Elias Salupeto Pena, e o chefe dos Serviços Administrativos em Luanda, Eliseu Sapitango Chimbili.
Recordar, em homenagem às vítimas, o massacre do Pica-Pau em que no dia 4 de Junho de 1975, perto de 300 crianças e jovens, na maioria órfãos, foram assassinados e os seus corpos mutilados pelo MPLA, no Comité de Paz da UNITA em Luanda.
Recordar, em homenagem às vítimas, o massacre da Ponte do rio Kwanza, em que no dia 12 de Julho de 1975, 700 militantes da UNITA foram barbaramente assassinados pelo MPLA, perto do Dondo (Província do Kwanza Norte), perante a passividade das forças militares portuguesas que garantiam a sua protecção.
Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de mais de 40.000 angolanos terem sido torturados e assassinados pelo MPLA em todo o país, depois dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, acusados de serem apoiantes de Nito Alves ou opositores ao regime.
Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de, entre 1978 e 1986, centenas de angolanos terem sido fuzilados publicamente pelo MPLA, nas praças e estádios das cidades de Angola, uma prática iniciada no dia 3 de Dezembro de 1978 na Praça da Revolução no Lobito, com o fuzilamento de 5 patriotas e que teve o seu auge a 25 de Agosto de 1980, com o fuzilamento de 15 angolanos no Campo da Revolução em Luanda.
Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de no dia 29 de Setembro de 1991, o MPLA ter assassinado em Malange, o secretário Provincial da UNITA naquela Província, Lourenço Pedro Makanga, a que se seguiram muitos outros na mesma cidade.
Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de nos dias 22 e 23 de Janeiro de 1993, o MPLA ter desencadeado em Luanda a perseguição aos cidadãos angolanos Bakongos, tendo assassinato perto de 300 civis.
Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de em Junho de 1994, a aviação do MPLA ter bombardeado e destruído a Escola de Waku Kungo (Província do Kwanza Sul), tendo morto mais de 150 crianças e professores.
Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de entre Janeiro de 1993 e Novembro de 1994, a aviação do MPLA ter bombardeado indiscriminadamente a cidade do Huambo, a Missão Evangélica do Kaluquembe e a Missão Católica do Kuvango, tendo morto mais de 3.000 civis.
Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de entre Abril de 1997 e Outubro de 1998, na extensão da Administração ao abrigo do protocolo de Lusaka, o MPLA ter assassinado mais de 1.200 responsáveis e dirigentes dos órgãos de Base da UNITA em todo o país.
Recordar. Recordar apenas, sujeitando-me a ficar sem um olho. Mas, mesmo assim, longe dos que pelo silêncio poderão perder os dois.
Em 1975 o MPLA tinha plena convicção de uma aceitação ao jogo limpo da democracia, proposto em Alvor, que perderia. A FNLA com mais implantação e um passado revolucionário de luta nacionalista contra as autoridades coloniais portuguesas, venceria.
Isso afrontaria o projecto do grande capital português (banca, comércio) e americano (Chevron-exploração de petróleo). Agostinho Neto, sub-repticiamente, que advogava, publicamente, o socialismo, foi ao Canadá negociar com a petrolífera imperialista, garantindo-lhe a continuidade nos blocos de Cabinda e Soyo, chegado ao poder… Consumou-se! A petrolífera terá “untado” os parceiros, ainda em 1974, com mais de 50 milhões de dólares…
Cuba para apoiar com militares recebeu 10 milhões e montante igual foi direccionado à Jugoslávia, para a venda de material bélico. A União Soviética foi completamente afastada da exploração das grandes riquezas.
Toda esta estratégia, visava a continuidade do colonialismo, por outras vias. Logo, afastar a FNLA e a UNITA das cidades, sabotando as primeiras eleições gerais, em 1975, constituiu o objectivo sacrossanto. Para a sua materialização, o MPLA e Agostinho Neto contou ainda com o indefectível e traiçoeiro apoio do Partido Comunista Português, que mobilizou militares do MFA (Movimento das Forças Armadas de Portugal), que lhe escancararam os quartéis com todo armamento e material, suficiente para armar e recrutar apoiantes para a causa de expulsar os demais subscritores…
No plano político, Agostinho Neto contou com Almeida Santos, do Partido Socialista português, velho amigo de Argel, que tratou de fazer monitoria internacional de desvalorização dos Acordos de Alvor, tratando-o como simples pedaço de papel, sem valor… Tudo porque a escolha já tinha sido tomada: deixar o poder nas mãos do MPLA: “eram negros assimilados, que gostavam da cultura, bacalhau, vinho e mulheres de Portugal”…
A grande estratégia era e ainda é a de continuar o colonialismo por outras vias. Este agora vem não de caravelas, mas de avião, como investidor, mas com o mesmo “modus operandi”… E, desta forma se traiu, se continua a trair, a revolução e o sonho de milhares de angolanos, que acreditaram num novo país…
Mas, também, quando internamente, Agostinho Neto foi confrontado, pelos seus camaradas, sobre as negociações secretas, realizadas com a Chevron americana à revelia do bureau político e Conselho da Revolução do MPLA, para continuar a explorar o petróleo, respondeu com violência. Engendrou o fantasma do 27 de Maio de 1977, de falso golpe de Estado, criou falsos cabecilhas: Nito Alves, Zé Van-Dúnen, Monstro Imortal, Sitta Valles, tudo para eliminar mais de 80 mil militantes e dirigentes do MPLA e da sociedade civil.
A acção sanguinária de Agostinho Neto e a sua cúpula visou destilar o medo na sociedade. Foi o dilúvio da barbárie… Os resquícios ainda andam por aí…
Têm seguidores. Novos. Que gostam de assassinar…
Daí a pergunta que calcorreia nas avenidas mentais de milhões: o que o MPLA e o presidente João Lourenço reservam para os angolanos em 2027, em plena era Donald Trump?


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