A falta de exemplo de sucesso a partir da agricultura em Angola inibe a aposta do sector financeiro, considerou, em Luanda, o ministro da Agricultura e Florestas, Isaac dos Anjos. Dizer que “o MPLA fez mais em 50 anos do que os portugueses em 500” não enche barriga.
Por Orlando Castro
Diz o ministro: “Sem voltas e sem curvas, para se chegar a um banco, tens de ir de fato, gravata e ficar seis meses a pensar como é que não vou pagar as contas. Portanto, afinar-se mais na mentira para obter o crédito do que propriamente convencê-lo que aquilo é a verdade”.
O governante do MPLA, partido que está no Poder desde a independência e cujo Presidente, general João Lourenço, diz que “o MPLA fez mais em 50 anos do que os portugueses em 500”, sustentou que, infelizmente, tem estado a bater no sector financeiro, que apresenta uma pauta de negações que começa pela segurança jurídica, evocando o título da terra, numa altura em que a tecnologia na agricultura é encarada como um vector multidirecional de trabalho no agronegócio.
Isaac dos Anjos argumentou que, em segundo lugar, os bancos não consideram o ciclo de rotação, não impõe o recurso no momento e preferem investir na parte industrial, mas depois não dão o capital de maneio (recursos de curto prazo utilizados para financiar as operações correntes de uma empresa).
“A pessoa que sem capital de maneio morre na praia. Então, a maior parte dos nossos créditos e dividas de quem se dedica à agricultura são consequências de não terem o capital de maneioˮ, referiu Isaac dos Anjos, que falava no Fórum do Agronegócio Angola – Brasil.
O ministro da Agricultura e Florestas entende que não é possível que, com a experiência do Brasil, Angola não consiga ter uma indústria de cana-de-açúcar rentável, que sustente e gere negócios.
“Não podemos continuar a dizer que estamos felizes com a Biocom, a maior produtora de açúcar, etanol e energia eléctrica. Estamos a mentir-nos. Se não começarmos a tocar nisso, não vamos lá. Temos condições para fazer grandes pecuárias, experimentamos, metemos no caminho algum amadorismo e perdemos manadas. Houve fazendas que perderam mil cabeçasˮ, assegurou.
MPLA PÕE ISAAC DOS ANJOS A VENDER ILUSÕES
Em 2023, Isaac dos Anjos, então secretário do Presidente de Angola (general João Lourenço) para o Sector Produtivo, reforçou, na província do Bié, a aposta do Governo no sector da agricultura, tal como o MPLA promete há 50 anos. O milho começou logo a crescer de forma vertiginosa…
Isaac dos Anjos, que antes disso já fora ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural, em 1994, num governo de José Eduardo dos Santos, referiu também que o objectivo do Executivo é “acabar com a importação de alimentos nos próximos tempos” (talvez antes de o MPLA completar 100 anos de governação ininterrupta), essencialmente milho, arroz, batata-rena, trigo, mandioca, soja, entre outros produtos que podem ser produzidos nas terras férteis do país.
Isaac dos Anjos visitou, também, os polígonos florestais da Ganga, no Chinguar e do Belchior, em Catabola, projectos sob alçada do Instituto de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas.
Recorde-se que em 13 de Abril de 2023, Isaac dos Anjos afirmou que Angola dispõe de condições favoráveis para deixar de importar milho e outros cereais até 2024. Os portugueses já tinham descoberto isso há mais de 50 anos, mas…
Por sua vez, em Fevereiro de 2023, o director nacional da Agricultura e Pecuária do Ministério da Agricultura, Manuel Dias, explicou que a produção angolana de trigo, arroz e cevada registava um défice de 80%, sendo a oferta insuficiente para atender à procura de mercado. Por mera curiosidade registe-se que, enquanto província ultramarina de Portugal, até 1974, Angola era auto-suficiente em termos agrícolas, entre outros.
Manuel Dias foi orador no painel “O Desafio da Auto-suficiência”, apresentando o tema “Planagrão e Planapecuária”, no 1.º Fórum Nacional da Indústria e Comércio, organizado pelo Ministério do Comércio e Indústria.
Segundo Manuel Dias, a produção de trigo, arroz e cevada atingia as 30 mil toneladas, sendo a importação superior, representando um “défice enorme” para o país. “Quer o trigo, quer o arroz, quer a cevada, o défice anda por volta de 80%, quer dizer, o que nós produzimos não chega, 10 mil toneladas não é nada”, frisou.
O responsável salientou que face a este quadro, o Governo pensou (pelos vistos a equipa de João Lourenço… pensa) na produção em grande escala, com uma maior produtividade, com maior profissionalismo.
“As necessidades são imensas, nós temos desafios, temos choques da pandemia, climáticos, e precisamos de avançar o mais rapidamente possível”, frisou o responsável, indicando que 80% da farinha usada para a produção de pão é importada.
Por sua vez, o moderador do debate, Fernando Pacheco, considerou que o que está previsto no Planagrão 2023-2027 para o trigo “é inviável”: “Não há nenhuma hipótese de nós atingirmos essa meta, porque nós não temos experiência suficiente de produção de trigo, que nos permita atingir essa meta. O Brasil que está muito mais adiantado que nós – não há comparação sequer -, só agora começa a ter resultados na produção de trigo, de modo a acabar com a importação nos próximos anos”.
“Nós dificilmente conseguiríamos fazer isso e, na minha opinião, o esforço quer técnico quer financeiro a fazer no trigo deveria ser dado à produção de milho e arroz”, opinou Fernando Pacheco.
De acordo com o Planagrão, a produção de milho entre 2017 e 2021 terá aumentado 25%, já o arroz teve uma produção, em 2017, de 8 mil toneladas, ficando um pouco abaixo deste valor em 2021.
Na sua apresentação, Manuel Dias destacou que a importação de milho, nos últimos quatro anos, registou uma taxa de redução de 25%, por outro lado, o arroz, o trigo e a soja verificaram aumento.
Em 2021, Angola gastou cerca de 73 milhões de dólares (67 milhões de euros) na aquisição de milho, 263 milhões de dólares (241,7 milhões de euros) para importar arroz, 305 milhões de dólares (280,3 milhões de euros) para o trigo e 149 milhões de dólares (136,9 milhões de euros) para a compra de soja.
Manuel Dias informou ainda que o défice de milho, na campanha agrícola 2020/2021, situou-se em 16%, de arroz 89%, trigo 81% e soja 84%.
Relativamente ao Planapecuária 2023-2027, Angola tem um efectivo bovino de cerca de três milhões, seis milhões para o caprino, dois milhões de suínos e três milhões de aves de capoeira.
O executivo aprovou em 2022, o Plano Nacional de Fomento da Produção de Grãos em Angola (Planagrão) para o aumento significativo de arroz, trigo, soja e milho sobretudo nas províncias do leste do país, prevendo recursos avaliados mais de três mil milhões de dólares (2,7 mil milhões de euros).
Também foi aprovado o Plano Nacional de Fomento da Pecuária (Planapecuária), que visa o aumento da produção nacional de carne bovina, caprina, suína e a produção de ovos e leite, no valor de cerca de 300 milhões de dólares (275,7 milhões de euros).
UM ÓASIS MADE IN…. PORTUGAL
Por mera curiosidade registe-se que, enquanto província ultramarina de Portugal, até 1974, Angola era auto-suficiente, face à diversificação da economia.
Era o segundo produtor mundial de café Arábico; primeiro produtor mundial de bananas, através da província de Benguela, nos municípios da Ganda, Cubal, Cavaco e Tchongoroy. Só nesta região produzia-se tanta banana que alimentou, designadamente a Bélgica, Espanha e a Metrópole (Portugal) para além das colónias da época Cabo-Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.
Era igualmente o primeiro produtor africano de arroz através das regiões do (Luso) Moxico, Cacolo Manaquimbundo na Lunda Sul, Kanzar no Nordeste Lunda Norte e Bié.
Ainda no Leste, nas localidades de Luaco, Malude e Kossa, a “Diamang” (Companhia de Diamantes de Angola) tinha mais 80 mil cabeças de gado, desde bovino, suíno, lanígero e caprino, com uma abundante produção de ovos, leite, queijo e manteiga.
Na região da Baixa de Kassangue, havia a maior zona de produção de algodão, com a fábrica da Cotonang, que transformava o algodão, para além de produzir, óleo de soja, sabão e bagaço.
Na região de Moçâmedes, nas localidades do Tombwa, Lucira e Bentiaba, havia grandes extensões de salga de peixe onde se produzia, também enormes quantidades de “farinha de peixe”, exportada para a China e o Japão.
Assim, Angola em 1974 era o terceiro maior produtor mundial de café; o quarto maior produtor mundial de algodão; era o primeiro exportador africano de carne bovina; era o segundo exportador africano de sisal; era o segundo maior exportador mundial de farinha de peixe; por via do Grémio do Milho tinha a melhor rede de silos de África;
Assim, Angola em 1974 tinha o CFB – Caminho de Ferro de Benguela, do Lobito ao Dilolo-RDC, o CFM – Caminho de Ferro de Moçâmedes, do Namibe até Menongue, o CFA – Caminho de Ferro de Angola, de Luanda até Malange e o CFA – Caminho de Ferro do Amboim, de Porto Amboim até à Gabela;
Angola em 1974 tinha no Lobito estaleiros de construção naval da SOREFAME; tinha pelo menos três fábricas de salchicharia; tinha quatro empresas produtoras de cerveja, de proprietários diferentes; tinha pelo menos quatro fábricas diferentes de tintas; tinha pelo menos duas fábricas independentes de fabricação ou montagem de motorizadas e bicicletas; tinha pelo menos seis fábricas independentes de refrigerantes, nomeadamente da Coca-Cola, Pepsi-Cola e Canada-Dry, bebidas alcoólicas à base de ananás ou de laranja. E havia ainda a SBEL, Sociedades de Bebidas Espirituosas do Lobito;
Angola em 1974 tinha a fábrica de pneus da Mabor; tinha três fábricas de açúcar, a da Tentativa, a da Catumbela e a do Dombe Grande; era o maior exportador mundial de banana, graças ao Vale do Cavaco.
E falta falar da linha de montagem da Hitachi, dos óleos alimentares da Algodoeira Agrícola de Angola, e da portentosa indústria pesqueira da Baía Farta e de Moçâmedes, e da EPAL, fábrica de conservas de sardinha e de atum, e…, e….
