O líder da UNITA, o maior partido da oposição que o MPLA a muito custo ainda permite em Angola, defendeu hoje o debate sobre a alternância, através do pacto de estabilidade, para “retirar os medos que ainda existem na sociedade” sobre os riscos do pós-eleitoral. Ainda não é Natal, mas Adalberto Costa Júnior não perde tempo a declarar que acredita no Pai… Natal.
Adalberto Costa Júnior, que falava à saída da audiência com o Presidente do MPLA, neste caso nas vestes – por inerência – de Presidente da República, João Lourenço, avançou que a UNITA tomou a iniciativa de trazer a debate na sociedade o tema de estabilidade democrática, um documento elaborado desde Março e remetido ao chefe de Estado angolano.
Segundo o líder da UNITA, o documento chegou a ter outros nomes ao longo do tempo em que foi sendo aprofundado o conteúdo, mas hoje é ponto assente que “a relevância do nome não é o mais importante”, mas sim “os conteúdos do documento em si próprio”.
A audiência concedida por iniciativa de João Lourenço visou abordar o Pacto para a Estabilidade e Reconciliação Nacional, salientou o líder da UNITA.
“Deixou-me satisfeito e tivemos de facto a oportunidade de nos debruçarmos com bastante profundidade ao debate dos conteúdos deste documento e este é um elemento que é positivo para o país”, destacou.
De acordo com Adalberto Costa Júnior, a UNITA entende que o país precisa de, através dos seus actores, passar para fora a imagem e a prática de que os angolanos sabem dialogar em permanência, que é preciso “retirar os medos que ainda existem na sociedade de que o processo eleitoral deve ser abordado sem risco do dia pós-eleitoral, onde quem estiver hoje a participar não deve ter receio, mesmo ocorrendo a alternância (…) do dia de amanhã”.
“A sociedade cada vez que aborda eleições, aborda-as com preocupação e esta é uma realidade partilhada dentro e fora do país”, referiu.
Para Adalberto Costa Júnior, “Angola precisa efectivamente de um melhor ambiente político, de um elemento de aprofundamento democrático”, de algo para uma melhor abordagem de um processo que nos outros países é regular, é normal, mas que para os angolanos ainda não é.
Em 50 anos de independência, a alternância do poder político em Angola nunca aconteceu, frisou Adalberto Costa Júnior, sublinhando que, por isso, “ainda é um problema abordar esse tipo de cenários e de ambiente”.
Neste diálogo de estabilidade consta também a preocupação sobre a absoluta necessidade de haver no processo eleitoral uma observação internacional presente, “que não tem sido comum”.
“Não é consensual esta posição, (…) temos apenas convidado quem é conveniente, não convidamos quem é independente no seu posicionamento, esta é uma realidade”, vincou.
A UNITA não está preocupada em liderar este debate, sublinhou Adalberto Costa Júnior, considerando que a liderança pode ser feita por quem ofereça confiança para o poder fazer. Contudo, o facto de hoje se abordar o assunto “é uma grande conquista”, acrescentou.
“Saio daqui certamente com a satisfação de ver que há uma dinâmica, efetivamente com perspetivas positivas”, frisou.
O Pacto para a Estabilidade e Reconciliação Nacional é uma proposta política da UNITA, entregue à Presidência da República em abril deste ano, que entre os seus temas integra aspetos de revisão, de reformas, de algumas leis necessárias “que tragam a realização do país nos níveis de desenvolvimento”.
“Não se exclui neste documento a possibilidade de nós criarmos condições do debate para um processo posterior de reforma da Constituição, também é um dos elementos que está inerente a este conteúdo”, disse o político.
Parafraseando mais ou menos o Namoro de Viriato da Cruz e a hipotética carta que Adalberto poderia ter enviado ao João:
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse que ele tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas
Sua pele macia – era sumaúma…
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce – como o maboque…
Seus lábios, laranjas – laranjas do Loje
seus dentes… – marfim…
Mandei-lhe essa carta
e ele disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
“Por ti sofre o meu coração”
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO
E ele o canto do NÃO dobrou
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro…
E ele disse que não.
Levei à Avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nele nascesse um amor como o meu…
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, á porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos…
falei-lhe de amor… e ele disse que não.
Andei barbudo, sujo e descalço,
como um monangamba.
Procuraram por mim
“-Não viu… não viu o Adalberto?”
E perdido me deram no morro da Samba.
Para me distrair
levaram-me ao baile do Senhor Januário
mas ele lá estava num canto a rir
contando o meu caso
aos camaradas do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba – dancei com ele
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: “Aí Adalberto!”
Olhei-o nos olhos – sorriu para mim
pedi-lhe um abraço – e ele disse que sim.

