O presidente do Sindicato dos Jornalistas de Angola, Teixeira Cândido, lamentou a actuação da polícia durante a manifestação de sábado em Luanda e informou que foram detidos seis jornalistas, um dos quais agredido pela polícia. Em rigor… nada de novo no reino.

Em declarações à Lusa, Teixeira Cândido repudiou os acontecimentos e afirmou que foram detidos três jornalistas da Radio Essencial, bem como o seu motorista, dois da TV Zimbo (um repórter e um operador de câmara) e um fotógrafo da agência de notícias francesa AFP.

Segundo Teixeira Cândido, a polícia obrigou o operador de câmara da TV Zimbo a apagar as imagens e agrediu o fotógrafo da AFP, apesar de este se ter identificado como jornalista. Mais uma vez… nada de novo no reino.

O responsável sindical salientou que a direcção do sindicato vai reunir-se para analisar os acontecimentos de sábado e irá tomar posição sobre a actuação da polícia.

“Há um ano, solicitámos um encontro ao comandante provincial da polícia de Luanda e saímos de lá com a garantia de que não haveria mais detenções nem agressões. Infelizmente, voltou a acontecer e com brutalidade”, criticou. Ora então, nada de novo no reino.

Como o Folha 8 ontem noticiou, um deputado da UNITA, Nelito Ekuikui, foi também agredido, tal como dezenas de activistas, que tiveram de ser assistidos no hospital.

A governadora de Luanda, Joana Lina, considerou a manifestação, que foi fortemente reprimida pela polícia, como “um acto de vandalismo e desacato às autoridades”, citada no Jornal de Angola.

Joana Lina lamentou as “cenas de violação das medidas contidas no Decreto Presidencial em vigor desde as primeiras horas de ontem” e sublinhou que são proibidos os ajuntamentos.

Afirmou ainda que não está em causa o impedimento ou limitação de direitos fundamentais, declarando que “é a própria Constituição que exige ponderação entre a liberdade de se manifestar e o dever de proteger a vida humana”.

Por outro lado, lamentou os “prejuízos incalculáveis” e apontou fins “inconfessos” de pessoas que tentam manipular os jovens. Joana Lina sabe que tem de dizer isso porque está nos manuais do MPLA, porque integra o ADN do seu partido e, sobretudo, porque sabe que tem do seu lado a razão da força, enquanto os manifestantes só têm a força da razão.

A marcha, convocada por activistas da sociedade civil, contou com a adesão da UNITA e outras forças da oposição e visava reivindicar melhores condições de vida, mais emprego e a realização das primeiras eleições autárquicas em Angola. Tudo questões que, reconheça-se, não têm razão de ser e que por isso constituem um crime contra a segurança do… reino.

O melhor que João Lourenço conseguiu, em matéria de liberdade de imprensa, foi mantê-la ligada a uma máquina de suporte de vida até que seja conveniente desligá-la e declarar o óbito.

O cenário actual é dramático, quando se esperava uma inversão, principalmente depois do Presidente da República ter idolatrado maior liberdade e pluralidade de informação, com a redução de meios de comunicação social, da esfera privada, mais jornalistas desempregados e, pasme-se, unanimismo informativo. TV Zimbo, TV Palanca, O País, Expansão, Rádio Mais, Rádio Global, agora convertidos à idolatria do DDT (Dono Disto Tudo). Como se isto não fosse bastante, eis que a Polícia educa os resistentes dando-lhes porrada de criar bicho.

Daí ser hora de voltar a perguntar: Que liberdade de imprensa e expressão quer, afinal, João Lourenço? Aquela que depois de ter chegado ao poder implanta uma política de expressão sem liberdade? Aquela que indicia que jornalista bom é jornalista morto? Aquela que impõe que os jornalistas devem (como acontece no seio dos sipaios do MPLA) ser amputados de coluna vertebral e fazerem a transferência do cérebro para os intestinos?

A gravidade da situação é… grave e o Sindicato dos Jornalistas, não deve ficar-se pelo verbo lamentar, mas liderar uma manifestação de resgate da Liberdade de Imprensa, cada vez mais amordaçada e a lançar, para o desemprego, centenas de jornalistas e profissionais de imprensa.

A visão absolutista do MPLA (fascismo; ditadura; monarquia absoluta; socialismo barroco), tenta impedir o contraditório informativo, a diversidade de opiniões, a livre indignação popular.

Daí se ter montada uma campanha de propaganda ruidosa, através de uma máquina de comunicação social pública controlada, capitaneada por agentes obcecados e ideologicamente ligados ao partido e líder dominante, cuja missão é desvirtuar o cenário, “vendendo ilusões e banha de cobra”, branqueando a incompetência ou má-gestão da coisa pública, nos mesmos índices do período anterior.

Os noticiários de todas as televisões, rádios e jornais controlados são miseráveis, face às vãs justificativas, do descalabro, continuar ancorado ao passado, caricatamente, praticados pela mesma família ideológica, que endemicamente, desvirtuando a acumulação primitiva do capital, criou uma selectiva e ideológica classe empresarial, que se enriqueceu pela locupletação do erário público, que não consegue, a grande maioria, justificar.

Com os constantes ataques de humilhação e discriminação, exibidos na imprensa, a boçalidade patológica da propaganda institucional, de exaltação com a prisão, arrestos dos bens imóveis dos adversários e a eliminação da imagem de José Eduardo dos Santos, das notas, dos quartéis, das sedes do MPLA e dos cartazes comemorativos dos 45 anos de independência, demonstram a conversão da imprensa angolana, tal como Hitler fez, em laboratórios do ódio e raiva, contra adversários políticos internos e externos.

Por esta razão é necessário que alguém, próximo, diga, hoje e agora, amanhã pode ser tarde, a João Lourenço, para saber ouvir, desistir da bajulação, eleger as liberdades, condenar a repressão policial e informativa, adoptar a democracia como bandeira plural, para não se transformar em aglutinador de contestações e o pai das grandes convulsões sociais, em função do desemprego, fome e miséria, enganado por uma comunicação social controlada, partidocratamente.

Um líder ao preferir ser “assassinado” pelo elogio, ao invés de salvo pela crítica é incompetente. João Lourenço já teve tempo de optar. Ontem, mais uma vez, mostrou que é mortalmente alérgico à crítica…