O deputado da UNITA Nelito Ekuikui foi hoje agredido pela Polícia do MPLA (e não angolana), numa manifestação em Luanda. “Disseram que a manifestação não podia ocorrer porque viola o decreto presidencial [que actualiza a situação de calamidade pública e entrou em vigor este sábado], mas estão a violar a Constituição”, afirmou o deputado.

“C laramente, este decreto foi forjado para impedir a manifestação”, acusou Nelito Ekuikui, criticando a presença das forças armadas nas ruas de Luanda e aconselhando o Governo a recorrer ao diálogo porque os protestos “não vão parar”.

Também Ginga Sakaita Savimbi, filha do fundador da UNITA (terrorista segundo o MPLA) Jonas Savimbi, que estava ao lado de Nelito Ekuikui, na altura em que este foi agredido, disse à Lusa que não houve explicações por parte da polícia. “Estamos no Santa Ana, com um absurdo aparato policial para uma manifestação pacífica. Agrediram um deputado que veio manifestar-se pacificamente”, afirmou, acusando o MPLA (partido no poder há 45 anos) de ser “um regime fascista”.

João Lourenço tem tudo para se perpetuar no Poder. Para além de Presidente do MPLA também é Presidente (não nominalmente eleito) da República e Titular do Poder Executivo. Acresce que tem (ao que parece) todas as sucursais do MPLA prontinhas a cumprir as suas ordens, como hoje foi o caso da Polícia dita Nacional. A Comissão Nacional Eleitoral está pronta para transformar os votos dos outros partidos em votos no MPLA, os tribunais já trabalham para assassinar os adversários mais perigosos.

Se a isso juntar a pandemia da Covid-19, a crise do petróleo e a catástrofe económica com o Produto Interno Bruto a furar o fundo, João Lourenço pode fazer o que bem entender: adiar todas as eleições, suspender a Constituição, meter a suposta democracia numa gaveta, adiar “sine die” os direitos civis (liberdade de expressão etc.), pôr as Forças Armadas (ainda mais) nas ruas, colocar em coma (induzido) o Estado de Direito e assim reduzir a pó todos os que pensam de forme diferente.

Em Maio, o “governo-sombra” da UNITA condenou o que considerava ser (e que era de facto) um uso excessivo e desproporcionado de força das autoridades angolanas (Polícias e Forças Armadas) contra os cidadãos. Enquanto o Povo sí está armado com a força da razão, o Governo de João Lourenço dispõe de uma letal razão da força.

Num comunicado divulgado em 18 de Maio, o “governo-sombra” do principal partido da oposição que o MPLA ainda permite que exista em Angola tece diversas críticas à actuação do Governo liderado por João Lourenço desde o início do Estado de Emergência decretado a 27 de Março.

A UNITA chamou a atenção dos angolanos (da comunidade internacional não vale a pena) para não se distraírem “pois, o MPLA [partido do poder há 45 anos] e o seu executivo pretendem desviar o foco dos cidadãos, tentando levá-los a concentrar todas as suas atenções na Covid-19 e a esquecerem-se da fome, da saúde precária, da péssima qualidade de educação no país, das faltas gritantes e inadmissíveis de água e luz, das degradadas vias de comunicação que dificultam a circulação de pessoas e bens”.

A UNITA constatou que muitas famílias enfrentavam sérias dificuldades, aumentando exponencialmente as que já são antigas e endémicas, incluindo a fome (o governo chama-lhe má-nutrição), o que obriga muitos angolanos a recorrerem à caça aos ratos e aos contentores de lixo, na busca de alimentos, pior (muito pior) do que no tempo da escravatura e não menos pior do que no tempo colonial do peixe podre, fuba podre e da porrada se refilassem (para além dos panos ruins e dos 50 na angolares).

“Os anúncios feitos no sentido de se apoiar as populações mais necessitadas com a cesta básica não foram efectivados de forma satisfatória, a julgar pelas informações e constatações, na medida em que a campanha em causa enferma de vícios, o que agrava cada vez mais a condição de vida de cidadãos vulneráveis que ficam sem saber se morrem em casa confinados com a fome ou saem à rua à procura de mantimentos para mitigar a fome, enquanto a Covid-19 não lhes bate à porta”, criticava o “governo-sombra” do partido do “Galo Negro”.

A UNITA alertava que com o surgimento da Covid-19, o Governo “esquece-se ou finge esquecer-se de outras doenças que são a maior causa de morte”, apontando as mortes por tuberculose, diabetes, insuficiência renal e outras doenças crónicas, mas sobretudo de malária, e os relatos sobre o surgimento de um surto de síndrome febril ictérico e febres hemorrágicas.

“O Governo Sombra da UNITA entende que a situação do novo coronavírus não devia fazer com que os hospitais tivessem os seus serviços condicionados, porquanto o executivo deveria construir hospitais de campanha e criar alas nos hospitais existentes para o tratamento de pacientes da Covid-19”, referia o comunicado, apelando ao Ministério da Saúde para rever “tais medidas atentatórias da dignidade da pessoa humana e permita que os cidadãos sejam atendidos”.

Criticam ainda o executivo de João Lourenço que, contudo, tem o apoio declarado e assumido do presidente do MPLA e do Presidente da República, “por continuar a brindar a sociedade com escândalos derivados da corrupção que se diz combater, da má gestão financeira, do peculato, do compadrio, do tráfico de influências, enquanto os cidadãos morrem de falta de tudo”.

Em causa estava o anúncio de aquisição por parte do Governo do condomínio Ngombe, uma área infra-estruturada com 200 residências, na comuna de Calumbo (município de Viana, província de Luanda) para servir de centro de tratamento de pandemias, pelo valor de 25 milhões de dólares (23 milhões de euros).

“Cada residência vai custar aos nossos bolsos USD 124.880,94 [cerca de 115 mil euros]”, criticou a UNITA, questionando o que está a ser feito com os imóveis arrestados nos últimos meses e afirmando que as casas em questão são de baixa renda e o seu valor real de mercado é de apenas 13 mil euros. É claro que os generais e similares do regime, tal como lhes foi ensinado nos últimos 45 anos, fazem outras contas. Por alguma razão são generais e dirigentes de um partido que está no poder desde 1975.

“O mais grave é que informações que chegam aos ouvidos de todos os cidadãos revelam que as referidas casas pertencem ao assessor do ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente da República que é, como todos sabemos, coordenador da comissão intersectorial de luta contra a Covid-19”, diz a UNITA, acrescentando que enviou técnicos ao local “onde estão construídas essas casas milionárias”, verificando que estão em avançado estado de degradação.

Mas, afinal, onde está a novidade? De que é que a UNITA se espanta? De ver um corrupto a ser líder da suposta luta contra a corrupção? De termos um presidente (do MPLA) que reconhece que viu roubar, ajudou a roubar, beneficiou do roubo mas que não é… ladrão?

Esta UNITA deveria saber que existiu em Angola um homem (pelos vistos era espécie única) que disse “vocês é que estão a dormir… por isso é que o MPLA está a aldrabar-vos”. Também foi ele que afirmou “Ise okufa, etombo livala” (prefiro antes a morte, do que a escravatura), tendo Povo respondido quando ele morreu: “Sekulu wafa, kalye wendi k’ondalatu! v’ukanoli o café k’imbo lyamale!”. Ou seja, morreu o mais velho, agora ireis apanhar café em terras do norte como contratados, ou ser escravos na terra que ajudaram a, supostamente, libertar.

A UNITA questionou igualmente os gastos com os 244 médicos cubanos contratados para apoiar o combate contra a Covid-19, admitindo que o custo possa ascender aos 17,6 milhões de dólares por ano (16,1 milhões de euros).

“Quantos médicos angolanos o Estado poderia pagar com o salário de cada médico cubano? Quantos angolanos, o Estado poderia tirar do desemprego, com empregos directos e indirectos?”, perguntava o governo sombra da UNITA, liderado pelo antigo vice-presidente do partido Raúl Danda.

O MPLA tem medo que Nelito Ekuikui também prefira ser livre com a barriga vazia do que escravo com ele cheia. Recorde-se que o deputado da UNITA afirmou recentemente que o Governo de João Lourenço está a “asfixiar” a imprensa angolana e não duvida que as empresas confiscadas, por terem sido criadas com dinheiro do Estado (tal como foi criado e amamentado o próprio MPLA), vão ser usadas a favor do MPLA.

“É uma grande ameaça à liberdade de imprensa porque eles querem controlar tudo e todos. Tudo começa pela Unitel, que o Governo já está a controlar, estamos a falar de telecomunicações, de uma ou outra forma vão interferir na difusão de conteúdos via internet no país. Às tantas vamos começar a ver a ‘internet’ lenta e não vamos sequer conseguir usar as redes sociais, vamos depois para estes órgãos de comunicação social para depois jogar tudo a seu favor. Portanto, é um grande risco de limitação da informação”, disse o político.

Nelito Ekuikui defende que se realizem concursos públicos para a venda dessas empresas. O estado tem que suportar custos desnecessários, o peso financeiro para as contas do Estado, segundo Ekuikui, é enorme. Por outro lado, o deputado apela à sociedade civil que force a saída do Governo do MPLA da gestão dos media confiscados recentemente.

O deputado fala em providências cautelares: “Isso qualquer cidadão pode fazer para acautelar o mal que isso pode fazer aos partidos políticos que representam a cidadania de uma forma geral. Quando falo de partidos políticos, falo inclusive do próprio MPLA que pretende beneficiar disso. Há também outras formas que a Constituição prevê como as manifestações. O dinheiro é de todos nós e não é do MPLA”.

Ekuikui refere ainda, em entrevista à DW África, que o Presidente João Lourenço “está pior que o Presidente José Eduardo dos Santos no âmbito das liberdades”. Novidade? Absolutamente nenhuma. Ainda se recordam de terem dito, há três anos, que o Folha 8 era alarmista por dizer que não há jacarés vegetarianos? Pois é. Mais uma vez (são tantas) tivemos razão antes do tempo. Jornalismo é isto mesmo.