Em entrevista ao Jornal de Angola, órgão oficial do MPLA, A enviada Comercial para Angola do primeiro-ministro britânico, Lindsay Northover, elogia a governação de João Lourenço, tal como elogiou a governação de José Eduardo dos Santos. A única diferença é que agora está ao serviço de Boris Johnson e antes a patroa era Theresa May.

Em Março de 2017 decorreu em Londres o Fórum de Comércio e Investimento Reino Unido-Angola. Entre os participantes, além de representantes de empresas e instituições financeiras dos dois países, estiveram o embaixador britânico em Angola, John Dennis, o antigo ministro britânico para África, Henry Bellingham, e a enviada especial da primeira-ministra britânica (Theresa May) para o Comércio em Angola, Lindsay Northover.

Em representação das autoridades angolanas estiveram o embaixador angolano no Reino Unido, Miguel Neto, o embaixador itinerante António Luvualu de Carvalho, o ministro da Geologia e Minas, Francisco Manuel Queiróz, e o secretário de Estado da Construção, António Flor.

Francisco Manuel Queiróz, então ministro da Geologia e Minas, disse na altura que o combate à corrupção seria uma das preocupações principais do próximo Presidente de Angola e lamentou que não se falasse dos corruptores. Nesse dia o Folha 8 interroga-se: Atestado de incapacidade a José Eduardo dos Santos? Insinuação sobre as ligações do Presidente à corrupção? Branqueamento da imagem do Malandro (João Lourenço)?

A corrupção em Angola é um “fenómeno complexo” que será uma prioridade do próximo Presidente, afirmou então o ministro da Geologia e Minas, Francisco Manuel Queiróz, em Londres. Que ele, como todos no Governo, sabia do que falava, isso sabia. Ou não estivesse o MPLA no poder desde 1975. Consequências? Nenhumas. Mudaram algumas moscas mas o essencial ficou na mesma.

“A corrupção é um fenómeno que tem alguma complexidade. Por vezes aborda-se de forma limiar e superficial sem conhecer os contornos e a forma como se desenvolve”, disse, durante o Fórum, o agora ministro da Justiça e dos Direitos.

O ministro lamentou, numa resposta ao ex-ministro britânico Peter Hain sobre a existência de corrupção em Angola, que os corruptores nem sejam referidos quando se fala do fenómeno e defendeu a necessidade do combate à corrupção.

“É algo que faz parte das consciências e tem de se combater como se combatem os comportamentos, mas demora tempo”, admitiu, mostrando-se confiante de que a pressão social e política no país iria ajudar a que a corrupção desapareça ou diminua para níveis menores. Não esteve mal. Não desapareceu (longe disso) e é certo que se diminuir não será para níveis… superiores!

Se durante 44 anos o MPLA/regime não teve tempo para debelar e epidemia, se calhar precisa de continuar no poder durante mais 56 anos. E, talvez, ao completar um século de governação voltemos a falar. É isso, não é?

Francisco Manuel Queiróz referiu na altura (Março de 2017, recorde-se) que as “eleições” gerais que iriam ter lugar em Agosto, que colocarão um ponto final (melhor, ponto e vírgula) a 38 anos de José Eduardo dos Santos no cargo de chefe de Estado e que seriam uma oportunidade para se avançar neste domínio.

“Estamos num processo de mudança política. Essa é uma das preocupações principais do próximo Presidente de Angola”, garantiu, certamente na convicção de que o “deus” da bajulação iria mudar, mas esquecendo que (pelo menos até agora) nos rios angolanos ainda não foram descobertos jacarés… vegetarianos.

O então ministro da Geologia e Minas participava num painel onde foi apresentada a estratégia do governo para o sector mineiro, que declarou assentar em três pilares: informação e mapeamento geológico e mineiro de todo o território, através do Plano Nacional de Geologia (Planageo); um ambiente regulatório, robusto e estável, “que protege os interesses do Estado e dos investidores”; e um ambiente de negócios, “baseado nos princípios da transparência, lealdade e rigor técnico, profissional e de boas práticas internacionais”.

Francisco Manuel Queiróz destacou a importância do Planageo para a abertura de oportunidades de negócio no sector mineiro e ajuda na diversificação da economia em Angola, promovendo a exploração não só de pedras preciosas, como diamantes, mas também de cobre, ouro, magnésio, ferro, platina, sódio, níquel, além de pedras ornamentais.

Miles Kennedy, presidente do Conselho de Administração da australiana Lucapa Diamond Company, que possui a concessão de uma mina no Lulo, na província de Lunda Norte, que descreveu como “a 5ª maior mina de diamantes do mundo”, falou da sua experiência.

“Tem sido absolutamente fantástica: pode demorar algum tempo, mas se dizem que vão fazer alguma coisa, acaba por acontecer”, assegurou.

Enfatizando o respeito pelas leis australianas contra a corrupção, que podem decretar a prisão de administradores de empresas nacionais envolvidas no pagamento de subornos no estrangeiro, Miles Kennedy negou ter sido abordado em Angola.

“Nunca me pediram para que fizesse pagamentos ilegais ou que pagasse subornos”, afirmou numa mentira de pé curto que, aliás, foi desmentida, no local e no mesmo evento, pelo próprio ministro angolano.

O Fórum de Comércio e Investimento Reino Unido-Angola pretendeu apresentar oportunidades de investimento em Angola a investidores britânicos e internacionais, nomeadamente nos sectores energéticos, minas, energias renováveis e infra-estruturas.

A propósito da coerência inglesa, recorde-se que Margaret Thatcher proibiu em 1979 o seu enviado especial à Rodésia de se encontrar com Robert Mugabe. O argumento era o de que “não se discute com terroristas antes de serem primeiros-ministros”.

“Não. Por favor, não se reúna com os dirigentes da ‘Frente Patriótica’. Nunca falei com terroristas antes deles se tornarem primeiros-ministros”, escreveu Margaret Thatcher – e sublinhou várias vezes – numa carta do Foreign Office de 25 de Maio de 1979 em que o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Lord Peter Carrington, sugeria um tal encontro.

Ou seja, quando se chega a primeiro-ministro, ou presidente da República, deixa-se de ser automaticamente terrorista. Não está mal. É verdade que sempre assim foi e que sempre assim será.