O general Lukamba Gato continua a demonstrar a mesma personalidade que evidenciava nos tempos de Liceu. Ele era, muitas vezes, o nosso herói, humilde, honesto e sempre coerente nas relações humanas de amizade e companheirismo. Ele é, em grande medida, o anti-herói, apesar de demonstrar muitas virtudes na maneira de ser e de estar no mundo das pessoas simples. Não confundamos pessoas simples com pessoas fáceis.

Por António Kaquarta

O regime despótico do MPLA continua a revelar a existência de muitas pessoas fáceis, alugáveis por “trinta dinheiros” por qualquer vendedor de ilusões que apareça na ribalta política. São essas as mesmas pessoas as que servem de figurantes para todas as manifestações de massas de apoio a quem ocupa o poder, com o cérebro localizado no estômago, nos intestinos ou nas concavidades da carteira onde colocam os kwanzas, os dólares ou os euros.

O Lukamba Gato foi sempre o antípoda de todos esses figurantes que participam em manifestações enrouquecendo a gritar “Angola a crescer mais e a dividir melhor” ou a guincharem “melhorar o que está bem”, quando o crescimento e a divisão parecem estar estagnados e/ou a regredirem e não se melhora porque a coisa está bastante mais mal do que os arautos da demagogia propagandeiam.

Nos nossos tempos de liceu, o Lukamba Gato era uma forte muralha que protegia os mais vulneráveis dos actos de violência dos chicos-espertos daquele território. O Lukamba Gato foi um adolescente bastante precoce e musculado, acima da média daquele tempo, mas era um jovem calmo e pacífico.

Não sei se o Lukamba Gato ainda se recorda de um incidente em que um paquiderme o desafiou para uma luta, com insultos racistas, por ele ter protegido da violência selvagem um colega. No fim de contas o Lukamba Gato estava a defender um colega que poderia ser vítima de um acto semelhante àqueles que observamos, com demasiada frequência, da prepotência e selvajaria da polícia do MPLA contra manifestantes defensores da democracia e de uma maior justiça social em Angola.

O troglodita desafiou o Lukamba Gato para o enfrentar num combate a realizar fora dos muros do liceu. O Lukamba Gato foi. Desafiou o racista a dar-lhe uma chapada. O irracional deu-lhe uma chapada na cara. O nosso herói continuou calmo e racional, desafiando o contagiado com o vírus da raiva a dar-lhe outra chapada, se não estivesse satisfeito com o acabara de fazer. O irracional recuou. Foi nesse momento que o Lukamba Gato o convidou a desaparecer porque não lhe queria fazer mal, demonstrando ser mais forte e inteligente do que o figurão cego de ódio e de racismo.

Naquele momento nós desejaríamos que o Lukamba Gato destruísse totalmente o adversário, demasiado inimigo. Agora, passados alguns anos, temos de admitir que este exemplo foi e é uma excelente referência que procurámos seguir na vida, nas nossas relações humanas, por vezes bastante difíceis de gerir.

Num país onde é moda o narcisismo matumbo, a megalomania cleptómana e a prepotência dos mais corruptos e demagogos, viemos recordar este episódio para elogiar e agradecer a convivência que tivemos com Lukamba Gato nos tempos de liceu e desejar-lhe muitos anos de vida, sempre com a mesma simplicidade, honestidade, coerência e inteligência superior.

Ninguém é perfeito mas todos nós temos exemplos na nossa vida que nos convidam a caminharmos, cada vez mais, na direcção da perfeição, numa viagem para essa utopia ou quimera que nos permitirá a minimizar as injustiças sociais e a promover melhores relações humanas.

Neste momento em que em Angola há tantos falsos heróis das guerras fratricidas, bangando em Luanda e noutras capitais provinciais a prepotência e a megalomania de terem enriquecido através da corrupção, cobardes porque só conseguiram e conseguem ser vencedores de sucessivas guerras contínuas escudados por regimes políticos despóticos, socialmente desequilibrados e injustos, já é mais do que tempo para elogiar as pessoas que não são cata-ventos, seguras, coerentes e independentes das benesses do soba que ocupa o poder nacional neste instante demasiado efémero.

Não participamos em manifestações de massas de apoio a impostores que mudam de ideologia para se ajustarem e beneficiar da moda do estado do tempo de cada dia.

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