Associado a tantos outros, tenho procurado desfraldar a bandeira da Língua Portuguesa, sempre me apadrinhando com os grandes luminares. Notadamente aos que exercem o múnus do Direito, intuito é abrir-lhes a oportunidade de refletir sobre a própria atuação profissional, exercida que é por palavras.

Por Prof. Germano Aleixo Filho (*)

A verdade é que a língua do dia a dia não deve ser tratada a tabefes, cuspindo-lhe insultos sobre insultos. Mais seja dito: não podemos cair na esparrela de que a pressa justifica nossos deslizes na feitura de um despacho…

O tema de hoje – que retrata um eufemismo – navega placidamente por arrazoados jurídicos, abraçando exatamente a forma que desmerece aplausos. Sim, desfila vitoriosa, de peito aberto, esta construção: ele “veio” a óbito. Devagar com o andor: acabará por nos conduzir ao precipício.

Eufemismo é a adocicação dos termos. Sim, há daqueles que, por esta ou aquela razão, nos repugnam. Daí por que lançamos mão de recursos que buscam suavizar palavras ou expressões grosseiras, pouco polidas. Num restaurante, não convém que senhora de fino trato pergunte: onde fica a privada? Ops! Importa um mínimo de elegância: onde fica o toalete feminino?

Para o sentido de morrer, os latinos recorriam à locução mortem obire. Literalmente, ir ao encontro da morte. Daí derivou o substantivo obitus, óbito, sinônimo de morte, passamento. Desde que o mundo é mundo, a palavra morte provoca arrepios, algo que mete pavor. Cruz-credo!

A figura da morte – representada por um esqueleto, foice nas mãos – estimula o povo a abrandar o ato de morrer. Sejam exemplo abotoar o paletó, adormecer no Senhor, dar a alma a Deus, ir para o andar de cima. Há alguns dias, ouvi: ele passou desta para melhor (vida). Mais uma: anoiteceu e não amanheceu.

Tudo leva a crer que a locução ir a óbito despontou para amenizar a realidade da morte, quando mais não fosse para ocultar esse horripilante termo. O equívoco de usar o inadequado vir, desprezando o apropriado ir, frequenta os mais nobres salões, passando a fazer parte de sessões de prestígio inatacável.

Principiei a vasculhar dicionários à procura de uma explicação. Nenhum que derramasse um pingo de luz. Na obra Corrija-se, do Prof. Sacconi, o lampejo: … andam dizendo e escrevendo que a vítima ou o paciente “veio” a óbito, quando, na realidade, uma vítima ou um paciente infeliz vai a óbito. É o verbo ir que se usa nesse caso, e não “vir”. Heureca! (em grego Achei!).

Ir a óbito, agora bem penteada, não passeia pelas ruas na boca do povo. É da linguagem jurídica. Aqui e ali, brotam fórmulas que têm o mérito de tropeçar nas próprias pernas. À semelhança desta: A vítima teria assumido o risco de “vir” a óbito. Xô! Em redação limpa: A vítima teria assumido o risco de ir a óbito.

Parcialmente que seja, reproduzo trecho de um agravo de instrumento, mais que tudo para confirmar o uso indevido da expressão em análise: Sustenta que uma criança pulou na parte mais funda da piscina e se afogou, “vindo” a óbito. Atenção! Essa feiura não é digna de banda de música nem de tapete vermelho.

Parir (expulsar do útero) soa algo estranho quando relacionado com o nascimento de crianças: Ela pariu gêmeos. Talvez porque esse verbo se aplique também a animais: Que bela ninhada pariu minha cachorra! Saída é usar o eufemismo dar à luz. Aqui, luz vale por vida, mundo: A vizinha deu à luz uma menina.

Sinônimo de velho, a palavra idoso faz jus ao status de eufemismo. Ai de nós se, dirigindo-nos a um estranho, viermos a chamá-lo de velho: ele sobe nas tamancas e nos manda a mão. Velho é o desgastado pelo tempo. Longe de ser palavra polida.

O idoso alimenta sonhos, o velho não faz mais que dormir. Alguém o disse: Se a vida se renova a cada dia para o idoso, ela se acaba a cada noite que termina para o velho. Temos o Estatuto dos Idosos – não o Estatuto dos Velhos! –, que lista seus direitos, entre eles o do passe livre nos ônibus e metrôs.

Hoje, os ladrões não querem ser assim chamados: isso lhes enfeia a “nobre profissão”. São os amigos do alheio. Não roubam, apenas desviam recursos. É de rir! Já as empregadas domésticas, estas se autodenominam secretárias do lar.

E os presidiários ou detentos? A referência agora é outra: eles se intitulam hóspedes do Estado. Chique, né?! Meretriz destoa? Que tal rebatizá-la como garota de programa? Asilo não pega bem. O termo transpira algo pouco abonador, cheirando a desprezo, abandono. Em seu lugar, corre clínica geriátrica.

Tanto ir como levar indicam que nos deslocamos – de onde estamos – para outro lugar (real ou virtual). No caso, há afastamento: Foi à falência. / A morte quase o levou. De sua vez, o verbo vir traduz aproximação. Transportamo-nos de outro lugar para aquele em que estamos: Ele veio à escola.

Por tudo isso, veio a óbito é um cadáver que clama por sepultura. Sua sobrevivência no comércio forense poderá impedir que o modo correto de dizer se instale soberanamente.

A bem do Português, digamos: Ele foi a óbito. Numa palestra, ouvi: A gripe ataca o sistema imunológico e pode levá-lo a óbito. Essas formas merecem banda de música e tapete vermelho.

Basta!

(*) Cuiabá-MT, 17-5-2018. Prof. Germano Aleixo Filho, Assessor da Presidência do TJMT.

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